Um último argumento a favor das penas eternas é este: “O temor das penas eternas é um freio; se fosse anulado, o homem, por nada temer, entregar-se-ia a todos os excessos.”
Refutação – Esse raciocínio seria justo se a não-eternidade das penas provocasse a supressão de toda sanção penal. A felicidade ou infelicidade futura é consequência rigorosa da Justiça de Deus, visto que a identidade de condições para o homem bom e para o perverso seria a negação da justiça. Mas pelo fato de não ser eterno, nem por isso o castigo deixa de ser menos penoso. Ele se torna tanto mais temível quanto mais nele se crê, e tanto mais aceitável quando mais racional. Uma penalidade em que não se crê não pode ser um freio e a eternidade das penas está nesse caso.
A crença nas penas eternas, como já dissemos, teve a sua utilidade, a sua razão de ser em certa época; hoje, não somente deixa de impressionar os ânimos, como até produz descrentes. Antes de proclamá-la como uma necessidade, seria preciso demonstrar a sua realidade. Além disso, seria preciso observar a sua eficácia junto àqueles que a preconizam e se esforçam por demonstrá-la. Infelizmente, entre esses, muitos provam pelos atos que nada temem das penas eternas. Ora, se ela é impotente para reprimir o mal entre aqueles mesmos que dizem acreditar nela, que domínio poderá exercer sobre os descrentes e refratários?