Também se invoca em favor do dogma da eternidade das penas o seguinte argumento: “A recompensa conferida aos bons, sendo eterna, deve ter por corolário a eterna punição. É justo proporcionar a punição à recompensa.”
Refutação – Deus criou a alma para fazê-la feliz ou infeliz? Evidentemente, a felicidade da criatura deve ser o objetivo do Criador, pois, de outro modo, Ele não seria bom. A alma alcança a felicidade pelo próprio mérito que, uma vez adquirido, não mais o perde. O contrário seria a sua degenerescência. A felicidade eterna é, pois, a consequência da sua imortalidade.
Antes, porém, de chegar à perfeição, tem lutas a sustentar, combates a travar com as más paixões. Não tendo sido criada perfeita, mas suscetível de o ser, a fim de que tenha o mérito de suas obras, a alma pode cair em faltas. Suas quedas são a consequência da sua natural fraqueza. E se devesse ser punida eternamente em virtude de uma queda, não seria o caso de perguntar por que Deus não a criou mais forte? A punição que ela sofre é uma advertência do mal que praticou, devendo ter por fim reconduzi-la ao bom caminho. Se a pena fosse irremissível, o desejo de melhorar seria supérfluo; nem mesmo o fim da Criação seria alcançado, porque haveria seres predestinados à felicidade e outros à desgraça. Se uma alma culpada se arrepende, pode regenerar-se, e podendo regenerar-se pode aspirar à felicidade. Ora, Deus seria justo se lhe recusasse os meios para isso?
Sendo o bem o fim supremo da Criação, a felicidade, que é o seu prêmio, deve ser eterna, como temporário deve ser o castigo, que é o meio de alcançá-la. Mesmo entre os homens, a mais vulgar noção de justiça prescreve que não se pode castigar perpetuamente quem se mostra desejoso de praticar o bem.