Capítulo 7
Entretanto, é imperioso entender que, no Espírito consciente, a vontade simboliza o lavrador , e o adubo, a irrigação e a poda constituem o serviço incessante a que deve consagrar-se nossa vontade, na recomposição de nossos próprios destinos. Em vista disso, todo minuto da vida é importante para renovar e redimir, aprimorar e purificar. Compreendamos que a tempestade, como símbolo de crise, surgirá para todos, em determinado momento, contudo, quem puder dispor de abrigo certo, superar-lhe-á os perigos com desassombro e valor. A explicação alcançava-nos a mente, qual réstia de Sol penetrando um cubículo escuro. Meu colega, no entanto, voltou a considerar: — Ação por ação, temos igualmente muito trabalho, depois da morte do corpo denso. Assim como perpetramos faltas na carne para sofrer-lhes, muitas vezes, as consequências aqui, é natural que por nossas ações deploráveis, aqui, venhamos a padecer na carne? — Perfeitamente, — confirmou Sânzio, bondoso; — nossas manifestações contrárias à Lei Divina, que é, invariavelmente, o Bem de Todos, são corrigidas em qualquer parte. Há, por isso, expiações no Céu e na Terra. Muitos desencarnados que se enleiam em desregramentos passionais até às raias do crime, mormente nos processos de obsessão, não obstante advertidos pela própria consciência e pelos avisos respeitáveis de instrutores benevolentes, criam para si mesmos pesadas e aflitivas contas com a vida, cujo resgate lhes reclama luta e sacrifício em tempo longo. Aliás, com alusão ao assunto, é justo lembrar que o nosso esforço de autorreajustamento na vida espiritual, antes da reencarnação, na maioria das circunstâncias ameniza-nos a posição, garantindo-nos uma infância e uma juventude repletas de esperança e tranquilidade, para as recapitulações a se efetuarem na madureza, exceção feita, naturalmente, aos problemas de dura e imediata expiação, nos quais a alma é compelida a tolerar rijos padecimentos, muitas vezes desde o ventre materno, tanto quanto os desenganos e os achaques, as humilhações e as dores da velhice ou da longa enfermidade, antes do túmulo. Essas dores, angústias e sofrimentos vários nos suavizam a ficha de Espíritos devedores, permitindo-nos abençoada trégua nos primeiros tempos da Esfera espiritual, logo após a peregrinação pelo campo físico. A maioria das pessoas encarnadas no mundo, ao atingirem a idade provecta, habitualmente se confiam, nas últimas fases da existência, à ponderação e à meditação, à serenidade e à doçura. As mentes infantis, ainda mesmo na senectude das forças genuinamente materiais, continuam levianas e irresponsáveis, mas os corações amadurecidos no conhecimento se valem, por intuição natural, da velhice ou da dor para raciocinar com mais segurança, seja consagrando-se à fé nos templos religiosos, com o que asseguram a si próprios mais amplo equilíbrio íntimo, seja devotando-se à caridade, com o que esbatem na memória as recordações menos desejáveis, preparando, assim, com louvável acerto e admirável sabedoria, a irrevogável passagem para a Vida Maior. Concluí, pelo olhar de Druso, que a nossa entrevista estava prestes a encerrar-se. E, por isso, aventurei ainda uma indagação: — Ministro amigo, compreendendo que há dívidas que, por sua natureza e extensão, exigem de nós várias existências ou romagens na carne terrestre para o respectivo resgate, como apreciá-las do ponto de vista da memória? Sinto, por exemplo, que tenho na retaguarda imensos débitos para ressarcir, dos quais não me lembro agora… — Sim, sim… — Explicou ele, — a questão é de tempo. À medida que nos demoramos aqui na organização perispirítica, no fiel cumprimento de nossas obrigações para com a Lei, mais se nos dilata o poder mnemônico. Avançando em lucidez, abarcamos mais amplos domínios da memória. Assim é que, depois de largos anos em serviço nas zonas espirituais da Terra, entramos espontaneamente na faixa de recordações menos felizes, identificando novas extensões de nosso “” ou de nossa “conta” e, embora sejamos reconhecidos à benevolência dos Instrutores e Amigos que nos perdoam o passado menos digno, jamais condescendemos com as nossas próprias fraquezas e, por isso, vemo-nos impelidos a solicitar das autoridades superiores novas reencarnações difíceis e proveitosas, que nos reeduquem ou nos aproximem da redenção necessária. Compreenderam? Sim, havíamos entendido. Sânzio fitou o diretor da casa, como a dizer-lhe que o horário se esgotara, e Druso lembrou, com gentileza, que não devíamos reter o Instrutor atencioso e complacente. Agradecemos com humildade as lições recebidas, enquanto o Ministro voltava à câmara brilhante, onde a neblina móvel passou, de novo, a adensar-se, apagando-lhe a figura venerável aos nossos olhos. Em breves minutos, o ambiente retomou os característicos que lhe eram habituais e a palavra comovedora de Druso, em prece, encerrou a inolvidável reunião.
TAG Valor
Nome do Capítulo Conversação preciosa