Capítulo 29
Dentre os muitos casos assim, lembro-me de um, particular-mente grato ao meu coração, porque o companheiro, depois de recuperado, passou a colaborar em nossas tarefas, com uma dedicação Comovedora. Ao apresentar-se, tinha dificuldade em expressar-se, usando o vocabulário limitado de uma pessoa de pouquíssima instrução. Aos Poucos, a sua história foi se desenrolando. Fora um homem de cor, e vivera em pobreza extrema, pelas ruas do Rio de Janeiro, cujos bairros do subúrbio conhecia muito bem. Num infeliz acidente de trem, perdera uma perna e, mesmo no mundo espiritual, ainda caminhava de muletas. Quando lhe disse que não precisava mais de muletas, podendo caminhar sem elas, ele respondeu que já o experimentara, mas levara um tombo. Esse querido amigo — que nos deu o nome de Eusébio — esteve aos nossos cuidados por longo tempo. Por detrás de sua pobreza verbal, do seu limitado vocabulário e das suas curiosas expressões populares, sentíamos nele, não obstante, um senso filosófico muito profundo da vida e uma das mais lindas e autênticas humildades que já vi. Foi, aliás, o que o salvou e, paradoxalmente, o que contribuiu para que sua recuperação demorasse um pouco mais. Tentarei explicar. Era evidente, para nós, que chegara ao fim da sua provação maior, e estava em condições de reencetar sua escalada evolutiva. Uma noite, emocionado até às lágrimas, conseguiu dar os primeiros passos sem a “muleta”, o que, para ele, na sua linguagem colorida, “não era barbante podre, não”. Suas observações eram sempre judiciosas, sua humildade uma constante, e sua afeição e gratidão por nós, algo patético, em que expandia o coração amoroso e pleno de generosidade. Nossos orientadores espirituais começaram a utilizá-lo em pequenas tarefas auxiliares, com o que ele muito se alegrou. No entanto, a despeito de sua indubitável vivência espiritual, continuava a falar-nos na linguagem do Eusébio, simples, popular, sem atavios, mas conseguindo claramente expressar nobres pensamentos e demonstrar bastante segurança. Certa noite, devido à ausência de grande número de companheiros, a sessão alcançou um clima de maior intimidade, o que talvez lhe tenha favorecido a superação de suas inibições interiores, para falar-nos de maneira inusitada, revelando o que de há muito entrevíamos nele: conhecimento, experiência, enfim, uma respeitável bagagem espiritual, dosada e sustentada pela sua aflorante emotividade. Pelo que depreendemos, tivera um passado de brilho e destaque, aprendera a dura lição da humildade e tinha certo receio de abandonar sua obscura posição espiritual, tão dificilmente conquistada, e recair nos velhos processos da vaidade. Mas, graças a Deus, estava curado o querido companheiro. * Esse caso, aqui, veio para ilustrar algumas realidades espirituais que não podemos ignorar, sem lamentável prejuízo para o Espírito manifestante. Exemplifico: suponhamos que, ao recebê-lo, o grupo o tratasse com superior condescendência e o despedisse com uma palavra de desesperança. Onde e quando teria ele outra oportunidade de entendimento e recuperação? E onde, e quando, nós próprios teríamos a alegria de granjear uma afeição e uma dedicação iguais àquela? Às vezes, também, embora o grupo não realize nenhum trabalho de Umbanda, surgem Espíritos acostumados a essas práticas. Suas primeiras manifestações seguem, quase sempre, a técnica a que estão acostumados. Aguardemos pacientemente, para saber o que desejam. Nada de expulsá-los sumariamente. Se os companheiros do mundo espiritual permitiram sua manifestação, num grupo estritamente espírita, orientado pelos ensinamentos de Allan Kardec, haverá alguma razão para isso. Aqui, também, temos uma experiência pessoal. Ao manifestar-se, ele traçava infalivelmente o seu sinal, sobre a mesa, e começava a doutrinar-nos. No seu terreiro, dizia, também se fazia o bem, e muito mais facilmente. Éramos uns “cartolas” grã-finos, reunidos em apartamento de luxo. Ele estava muito bem lá, e não queria nada conosco etc., etc. Provavelmente, não sabia ainda (ou pelo menos não revelara) por que estava ali, entre nós. Por muito tempo o diálogo se manteve nesse tom; mês após mês. Só muito mais tarde a história se desvendou. Tivera uma longa e penosíssima experiência, ao correr dos séculos, desde que, em impulsos tresloucados, no século 16, envolvera-se em erros lamentáveis, no campo político-religioso. Fora, então, um homem de grande magnetismo pessoal, de vigorosa inteligência e de muita cultura filosófico-religiosa. — Fui um verdadeiro demônio — me disse ele, certa vez, profundamente contristado. Confessou, também, que, há quatro séculos, perdera-nos de vista — a mim e a outro companheiro do grupo, mas a afeição por nós lá estava, e isso o salvou, graças a Deus. Parece que sua intenção inicial era arrastar esse companheiro — o médium através do qual se manifestava — para os terreiros de Umbanda, o que este recusava terminantemente, por divergência doutrinária insuperável. Não nos contou ele toda a sua terrível saga, mas uma só narrativa bastou. Tivera uma existência no Brasil, como escravo negro. Perguntei-lhe onde fora isso e ele me respondeu: — A gente nem sabia onde estava. Era levado de um lugar para outro, como bicho. Parece que foi nessa existência que se familiarizou com a utilização dos recursos da Natureza, para curar. Manipulava bem esses fluídos naturais e devia trazer, no Espírito, alguma antiga experiência na Medicina, pois sempre nos demonstrou ser conhecedor seguro das mazelas do corpo humano e dos métodos de minorá-las. Em mim mesmo, por meio de passes, colocou um “remendo” na coluna, que ameaçava quebrar-se por causa de uma rara e incurável moléstia óssea. Também este integrou-se no nosso grupo, feliz em poder servir-nos, com seus conhecimentos e seu coração, curado de antigas mazelas, que tanto o infelicitaram. Era particularmente ativo e estava sempre presente para restabelecer o tônus vibratório dos médiuns, quando a manifestação era por demais penosa. Incorporava-se, logo em seguida, e, enquanto falava tranquilamente, dava passes no seu médium, que despertava lúcido e livre dos resíduos vibratórios do Espírito desarmonizado que o precedera. O nosso bom e querido Justino, a essa altura, abandonara seus propósitos de continuar a frequentar os terreiros. Era quem nos dava um passe final, quem fluidificava a nossa água e quem tratava das nossas pequenas mazelas orgânicas, dando-nos conselhos e passes e, vez por outra, a “receita” de um chá caseiro. Manteve sua maneira algo rude de falar, sem floreios e artifícios de linguagem. Talvez buscasse esconder suas emoções, sua gratidão e sua alegria, pelo reencontro com os velhos companheiros, que, segundo ele, haviam se distanciado na sua frente, o que não é verdadeiro. Certa vez, num impulso rápido de inspiração, identifiquei seu Espírito nas lutas dramáticas da Reforma Protestante, mas respeitamos seu anonimato e ele nunca mais deixou de trazer-nos a vibração do seu amor fraterno e do seu reconhecimento humilde. Muito devemos a esse querido companheiro, não somente pelo que fez por nós, mas pelas inesquecíveis lições que nos trouxe. Seria difícil distinguir a gratidão dele da nossa, e não é essa mesma a essência imortal do “Amai-vos uns aos outros”? * Assim, a primeira regra do diálogo, com os nossos irmãos em crise, é esta: paciência e tolerância. Toda conversa, com eles, é um permanente exercício dessas duas virtudes. As primeiras palavras são de importância vital; são, às vezes, decisivas, e podem constituir a diferença entre uma oportunidade de pacificação ou a alienação do companheiro por mais um tempo, indeterminado, em que ele continuará a buscar alhures o que não encontrou em nós: compreensão para os seus problemas e suas angústias. Muita coisa vai depender, no desenrolar do trabalho, da maneira pela qual recebemos os nossos irmãos em crise. Nunca é demais lembrar e insistir: eles precisam de nós, justamente porque não conseguem sair sozinhos das suas dificuldades, das suas perplexidades, dos seus sofismas, da sua auto-hipnose. Mas nós, por igual, precisamos deles, porque nos trazem lições, porque nos ajudam na prática da lei suprema da solidariedade que, a seu turno, nos libertará também. E quantas vezes não são eles aqueles mesmos que causam desequilíbrios em nós próprios, ou obsessões naqueles que nos cercam: parentes, amigos, colegas de serviço, companheiros de jornada, enfim? Além disso, não podemos despachá-los, mal enunciaram as primeiras palavras, quando nem sequer sabemos ainda de suas motivações e de suas dores. Não esperemos, jamais, uma expressão inicial sensata e equilibrada, amorosa e tranquila, da parte daqueles que se acham desarmonizados. Se assim fosse, não precisariam de nós: já teriam encontrado seus próprios caminhos. Esperemos, isto sim, uma eloquente manifestação de revolta, rancor, desespero, aflição, desencanto, ou perplexidade, segundo a natureza dos problemas que os abrasam. Contemos com mistificações e ardis, com falsidades e subterfúgios, com ódio e agressividade, com ignorância e má-fé; em suma, com a dor do Espírito aturdido pelo impasse que criou dentro de si mesmo. É claro que o primeiro impulso de hostilidade, de um Espírito assim, tem de ser contra nós, que o fustigamos, tentando obrigá-lo a mover-se. Ele está parado no tempo e no espaço, preso à sua problemática, empenhado numa tarefa que julga do maior relevo e importância; e aparece um grupo, como o nosso, para tentar arrancá-lo daquilo que constitui o seu mundo, a sua razão de ser. Não é ele quem nos incomoda e fustiga; somos nós que o agravamos, com a inadmissível tentativa de fazê-lo desistir dos seus propósitos. Como? Então não vemos que ele não faz mais do que cobrar uma dívida, ou trabalhar pelo restabelecimento da Igreja do Cristo, ou funcionar como juiz, num processo legitimamente constituído, em que a culpa é tão clara? Que petulância! Que impertinência!
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Nome do Capítulo Técnicas e recursos
Parte Quarta