Capítulo 29
É preciso deixá-los falar, pois, do contrário, não poderemos ajudá-los. É necessário conhecer a sua história, suas motivações e suas razões. E ainda que relutem, demorem e usem de mil e um artifícios, eles acabam revelando a razão de sua presença no grupo. O longo trato com eles nos ensina que têm um hábito peculiar de “pensar alto”. Isto se deve a um mecanismo psicológico irresistível, do qual muitas vezes eles nem tomam conhecimento, e no qual, mesmo os mais hábeis e ardilosos deixam-se envolver. É que o médium lhes capta o pensamento, e não a palavra falada. Se o médium se limitasse a transmitir-lhes a palavra, mesmo assim, eles acabariam por revelar as suas verdadeiras posições, embora pudessem sonegar a verdade por maior espaço de tempo; mas é do próprio dispositivo mediúnico converter, em palavras e gestos, aquilo que o Espírito elabora na sua mente. Eles não conseguirão, por muito tempo, ocultar as verdadeiras causas da sua dor e a razão da sua presença, pois é isso, precisamente, que os traz a nós. Essas causas estão de tal forma gravadas nos seus Espíritos, que constituem o centro, o núcleo, em torno do qual gira toda a personalidade e agrupam-se os problemas mais críticos e mais urgentes. Se conseguirmos desfazer aquele núcleo, que funciona como verdadeiro centro de aglutinação, a personalidade reagrupa-se em novos equilíbrios redentores. Insistimos, pois, em afirmar que o médium traduz em palavras o que ele sente no Espírito manifestante: suas emoções, seu temperamento, seus problemas, suas desarmonias, ao mesmo tempo em que lhe reproduz os gestos, e a voz alteia-se ou sussurra, reflete ódio ou desprezo, ironia ou, amargor, perplexidade ou aflição. Se assim não fosse, teríamos que falar com cada Espírito na sua própria língua, ou seja, na língua que ele falou por último, na sua mais recente encarnação, e todo médium precisaria ser xenoglóssico. É certo, pois, que acabarão por revelar a razão de sua presença entre nós, e depois, o núcleo de suas dificuldades maiores, muito embora seja isto o que mais parecem temer. Num caso desses, o Espírito fez um longo circunlóquio filosófico-teológico. Era excelente argumentador e dialético de muitos recursos. Fugia a qualquer referência pessoal, a qualquer palavra que pudesse levar-nos a descobrir suas motivações. Ao cabo do diálogo, que se estendeu por mais de uma sessão, ele não se conteve mais: seu ódio era contra mim. Seguia meus passos desde que “tua maldita mãe te colocou no mundo”, e a dúvida que havia entre nós reportava-se ao tempo da Segunda Cruzada. Pretendia transformar o meu lar num hospício, disse ele, pois eu cometi contra ele um crime do qual jamais me perdoaria. Se pudesse, me destruiria... Em suma, deixa cair os véus com os quais tentou, de início, cobrir as razões de sua presença entre nós. Veio para isso mesmo, mas relutou o quanto lhe foi possível, pois sabia muito bem que, chegados ao cerne do problema, estaríamos em melhor posição para o ajudar a resolvê- lo. No fundo, ele estava mesmo era cansado de sofrer porque a vingança e a perseguição tanto sacrificam o perseguido, quanto o perseguidor. Em outro caso, depois de muito debatermos as questões suscitadas entre nós, ele deixou escapar o fragmento de uma palavra reveladora. A certa altura do diálogo, lembro a ele a inesquecível palavra de Gamaliel, perante o Sinédrio: — Não aconteça que vos encontreis lutando contra Deus! Percebi que a citação o atingiu mais profundamente do que ele talvez desejasse. Resmungou que nada tinha com Gamaliel, mas evidentemente estava envolvido no doloroso “processo da cruz”, e disse: — Eu era um sol... Estacou subitamente e comentou consigo mesmo: — Veja o que eu ia dizendo. Sempre fui um soldado... Na verdade, desde a sua primeira manifestação, uma ou duas semanas antes, ouvia sem cessar um alarido de vozes que berravam coisas confusas e um tilintar de armas que ele se recusava a identificar. Participara, pois, como soldado romano, ou do próprio Templo, da penosa missão de aprisionar o Cristo, ou de conduzi-lo, ao longo da sua inesquecível via crucis. Era esse o problema que ele mais temia revelar, mas que precisava enfrentar, para libertar-se. Este caso encerra outra lição importante. Chamemo-la a lição do arrependimento construtivo, ao qual há referências alhures, neste mesmo livro. Para não transformar o tema numa composição literária, baste-nos lembrar que há dois tipos de arrependimento: o positivo e o negativo. O primeiro, ajuda-nos a reconstruir logo o que destruímos, a refazer o que não podemos mais desfazer; o segundo, mantém-nos paralisados à beira do caminho, enquanto nossos companheiros e nossos amores seguem à frente. Estacionamos precisamente porque nos falta coragem para enfrentar o olhar severo da própria consciência. É verdade, estamos envergonhados, temerosos e angustiados, mas por que demorar-nos no arrependimento, cruzarmos os braços e esconder-nos, como um caramujo, dentro da carapaça das ilusões? O arrependimento somente se dissolve no trabalho construtivo. Incontáveis multidões, no entanto, tentam fugir de si mesmas, ignorando seus próprios fantasmas interiores. A culpa existe em nós; impossível negá-lo, pois o erro já está cometido mesmo. O que temos de fazer, agora, não é fingir que ela não existe, porque é justamente esse fingimento, essa fuga, que nos mantém presos, detidos, marcando passo, vendo a multidão passar por nós, em busca da paz. Esse mecanismo tem que ser bem compreendido por aquele que se propõe ajudar Espíritos endividados. É claro que também somos endividados, talvez tanto quanto eles, ou até mais. Precisamos, no entanto, mostrar-lhes que estamos fazendo alguma coisa, lutando, enfrentando os nossos espectros interiores, as censuras da consciência, as cutiladas do remorso, conscientes de que o nosso erro está presente em nós, e não podemos voltar sobre nossos passos, para desfazê-lo. Podemos, no entanto, e devemos, e temos que reconhecer, a força da sua presença em nós. Sem essa abertura corajosa, não dá sequer para começar. E, como diz o provérbio chinês: a caminhada de 100 quilômetros começa com o primeiro passo. O doutrinador precisa estar muito atento a esses sinais reveladores. Tentar identificá-los é sua tarefa, mas que o faça com muito tato, paciência e compreensão. Ninguém gosta de revelar suas fraquezas, seus erros, seus crimes, suas mazelas e imperfeições. Nada de coações, de pressões, de imposições. Espere com paciência, busque com tranquila perseverança, que a verdade virá. Lembre-se de que ela se encontra ali mesmo, na memória daquele irmão que sofre. Ele a dirá, se é que chegou a sua hora de mudar de rumo. Basta um pouco de ajuda, habilidade, tato e paciência. É preciso, também, que tenhamos a faculdade da empatia, ou seja, apreciação emocional dos sentimentos alheios. Veja bem: apreciação emocional. É necessário que as nossas emoções estejam envolvidas. Se apenas assistimos às agonias de um Espírito que se debate nas suas angústias, não temos empatia; somos meros espectadores. É preciso aprender a vibrar com ele, sofrer com ele, compreender sua relutância em abrir-se, aceitar seu temor em descobrir suas feridas, mas, a despeito de tudo isso, ajudá-lo a descobri-las... Estejamos certos, porém, de que a resistência será grande, a luta interior que presenciaremos será dolorosa, difícil, e muitas vezes o Espírito recuará novamente, temeroso, acovardado, sentindo-se ainda despreparado. Neste caso, ouvimos sempre uma destas frases: — Ainda não estou preparado... Espere um pouco mais... De outra vez... Deixe-me. Dê- me mais tempo. Preciso pensar... Junto de um companheiro particularmente agoniado, presenciamos a dura batalha entre os lampejos da esperança de paz e os apelos de seu insaciado desejo de vingança: iria, agora, abandonar tudo aquilo, que era a motivação de sua vida, e o tinha sido por séculos e séculos? Entregar-se à dor? Abandonar a sua vítima? E a sua vingança? E, no entanto, ninguém melhor do que ele sentia a inadiável necessidade de uma atitude de renúncia, embora sabendo que apenas trocava uma dor por outra. O doutrinador não o forçou. Limitou-se a dizer, com o coração aberto à compreensão e ao afeto: — A decisão é sua. Claro que você pode continuar a fazer isso. Deus, que amparou aquele a quem você persegue por tanto tempo, há de continuar amparando-o. Mas, e você? É isto que lhe convém? É isto mesmo que você quer? * Estamos, talvez, nos antecipando. Falávamos do primeiro contacto com o Espírito manifestante. Creio que foi possível deixar bem claro o quanto é importante essa primeira aproximação. Nela se definem muitas coisas sutis, que podem decidir o caso, de uma forma ou de outra, libertando o Espírito, ou confirmando-o na sua dor, por mais alguns anos, ou séculos. Repitamos: o diálogo com os nossos irmãos desarvorados é um exercício de tolerância e paciência. E acrescentamos: muito amor. À medida que ele se desenrola, estejamos atentos, mantenhamo-nos compreensivos e discretos. É uma tentativa de entendimento, não uma discussão, uma contenda, uma disputa. O que interessa, neste momento, não é “ganhar a briga”, mas estudar com empatia (novamente a palavra mágica) o drama que aflige o companheiro. Não importa que ele leve a melhor no debate, que nos agrida, ameace e procure intimidar-nos. Frequentemente ocorre ser ele muito mais treinado, em pelejas dessa categoria, do que o doutrinador. Foi tribuno, orador, escritor, pensador, teólogo; enfrentou grandes debatedores, argumentou em causas importantes, adquiriu cultura e aprendeu a manejar a palavra, como poucos. Leva nítida vantagem sobre o doutrinador que, por mais bem preparado que seja, está contido pelos dispositivos da encarnação e, na maioria das vezes, ignorante de fatos importantes, que o Espírito conhece e manipula com inteligência e acuidade. Seria, pois, ingênua e perigosa imprudência tentar superá-lo
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Parte Quarta