Dissemos alhures, neste livro, que cada manifestação é diferente. Nunca sabemos, ao certo, as intenções do Espírito que se aproxima, que problemas nos traz, quais são suas características, qual a razão de sua presença entre nós. Além do mais, a própria mediunidade não é um instrumento de precisão, como um microscópio ou um relógio, que funcione, repetidamente, de maneira previsível e controlável. O médium é um ser humano ultra-sensível, de psicologia complexa, incumbido de transmitir o pensamento de um desencarnado, mas está muito longe de ser mero aparelho mecânico de comunicação, como um telefone ou um rádio, muito embora se fale em sintonia e em vibrações, quando a ele nos referimos. Suas faculdades sofrem influências várias, do ambiente, do seu estado de saúde, da sua problemática íntima, da sua fé ou ausência dela, do seu interesse no trabalho, que pode flutuar, da sua capacidade de concentração, da sua confiança nos companheiros que o cercam e, especialmente, no dirigente do grupo e, obviamente, dos Espíritos manifestantes. E mesmo estes, que são também seres humanos — não nos esqueçamos disto — variam suas apresentações, de uma para outra manifestação, segundo suas próprias disposições.
Por outro lado, é preciso considerar, também, que há diferentes formas de mediunidade: de incorporação, ou psicofônica, de vidência, clariaudiência, psicografia, assim como há médiuns que conservam sua consciência durante a manifestação, e médiuns que passam ao que se convencionou chamar de estado “inconsciente”.
Devo abrir um parêntese, para reiterar uma antiga opinião: de minha parte, julgo inadequada a expressão “mediunidade inconsciente”. O Espírito do médium não está em estado de inconsciência, simplesmente porque se afastou do seu corpo físico, para cedê-lo ao manifestante.
O máximo que se pode dizer é que a consciência não está presente no corpo físico, ou, melhor ainda, não se manifesta através do corpo material, temporariamente ocupado ou manipulado por entidade estranha à sua economia. Se o médium mergulhasse, em Espírito, no estado de inconsciência, o manifestante assumiria posse total do seu organismo e faria com ele o que bem entendesse. Ao escrever isso, não estou esquecido do fato de que há manifestações violentas, e muito livres, durante as quais os Espíritos incorporados movimentam o instrumento mediúnico aparentemente à sua vontade, fazendo-o gritar, dar murros, levantar-se, derrubar móveis, rasgar livros e cadernos, e promover distúrbios semelhantes. A mediunidade sonambúlica assemelha-se ao estado de possessão; mas, basta invocar esta, para sentir o quanto essas duas manifestações diferem uma da outra, O possesso é realmente um médium, pois oferece condições para que outro Espírito se incorpore nele, mas o médium não é um possesso, no sentido de que o manifestante possa fazer, com ele, tudo quanto entender, a qualquer momento e sem limite de tempo, ou totalmente sem disciplina. Num grupo mediúnico em que a supervisão espiritual seja firme e segura, a mediunidade sonambúlica pode e deve funcionar perfeitamente, pois muitos Espíritos
necessitam ser ligados a tais médiuns. Eles provocarão distúrbios e agitar-se-ão bastante, segundo os recursos e censuras que encontrarem em seus médiuns, mas não nos esqueçamos de que, não apenas os guias espirituais do grupo estarão atentos, para que eles não cometam desatinos, como o próprio médium estará presente e consciente, acompanhando atentamente a manifestação, e pode, com certeza, interferir, para que o Espírito manifestante não se exceda, ainda que lhe permitindo considerável faixa de liberdade.
Em casos extremos os orientadores espirituais do grupo também adotarão medidas de exceção, para conter as manifestações mais violentas. Já tivemos oportunidade de presenciar alguns desses casos, em que o Espírito é virtualmente “manietado”, por laços fluídicos invisíveis aos nossos olhos, mas de realidade indiscutível para ele, porque o imobiliza instantaneamente.
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Mas, voltemos ao fio da exposição.
O grupo deve estar, assim, perfeitamente preparado para inúmeras formas de manifestação. Elas são imprevisíveis e inesperadas. O doutrinador experiente saberá identificar prontamente os primeiros sinais da incorporação, quando o Espírito começa a acomodar-se à organização mediúnica. É preciso, aqui, lembrar que, frequentemente, o Espírito manifestante é parcialmente ligado ao médium, horas, e até dias inteiros, antes da sessão. Nestes casos, quando se trata de um Espírito desarmonizado, embora a manifestação não se torne ostensiva, porque isto implicaria admitir mediunidade totalmente descontrolada, o médium sofre inevitável mal-estar físico, dor de cabeça, pressão sobre a nuca, sobre os plexos, sensação de angústia indefinível e, até mesmo, estado febril, prostração, irritabilidade, agressividade e vários outros sintomas de desarmonização psicossomática. O médium experimentado e responsável deve estar preparado para isso. Não se assuste, não se apavore, não tema e, sobretudo, não deixe de comparecer ao trabalho, por causa dessas dissonâncias psicofísicas, pois é isso mesmo que desejam os companheiros desequilibrados, ou seja, afastá-lo do trabalho.
Esse envolvimento pode dar-se também com os demais participantes do grupo que, embora não dotados de mediunidade ostensiva, sofrem também terríveis pressões dos irmãos perturbados. Um dos alvos prediletos dessas penosas aproximações é o doutrinador, tenha ou não mediunidade ostensiva. O cerco em torno dele é permanente, tenaz, implacável, impiedoso, porque acham, os companheiros desencarnados doentes, que o neutralizando, acabam com o grupo, o que, muitas vezes, infelizmente, é verdadeiro.
Esteja ou não esteja o Espírito ligado ao médium antes da sessão, é certo que o planejamento espiritual já tem as tarefas da noite distribuídas por antecipação, e na sequência que julgar mais conveniente ao bom andamento dos trabalhos. Geralmente, cada médium tem seu próprio “estilo”, para indicar o início da comunicação: colocar as mãos sobre a mesa, respirar com maior profundidade, duas ou três vezes, agitar ligeiramente a cabeça ou o corpo, gemer, levantar os braços, numa sematologia que o doutrinador, habituado a trabalhar com ele, saberá identificar, a fim de iniciar o tratamento do irmão que se apresenta.
Às vezes, o Espírito começa logo a falar, ou a esbravejar, mas, usualmente, ele precisa de alguns segundos para apossar-se dos controles psíquicos do médium, e não consegue falar senão depois de se ter acomodado bem à organização do seu instrumento, o doutrinador deve aproveitar esses momentos para uma palavra de boas-vindas, saudando-o com atenção, carinho e respeito.
Em alguns casos o Espírito somente consegue expressar-se a muito custo, em virtude de seu estado de perturbação, de indignação, ou por estar com deformações perispirituais que o inibem. De
outras vezes, usando de ardis, ou preparando ciladas, mantém-se em silêncio, para que o doutrinador se esgote, na tentativa de descobrir suas motivações, a fim de tentar ajudá-lo, com o que ele se diverte bastante.
Em certas ocasiões, vem ele revestido de um manto de mansidão e tranquila segurança.
Diz palavras doces, assegura-nos suas boas intenções, dá-nos conselhos. Um deles, certa vez, começou serenamente, com um apelo “aos corações bem formados”, numa linguagem de pacificação e entendimento. Digo-lhe que estamos dispostos à pacificação e ao entendimento, desde que ele venha em nome de Deus; mas, por mais que se esforce — coisa estranha! — não consegue pronunciar o nome de Deus, como eu lhe pedira. Por fim, explode em irritação e “abre o jogo”, gritando que acabou a farsa. E derrama um arsenal de ameaças e intimidações.
Há os que fingem dores que não sentem, ou mutilações que não possuem, como cegueira ou falta da língua. Visam, com esses artifícios, a distrair nossa atenção do ponto focal de sua problemática, ou simplesmente entregam-se ao prazer irresponsável de enganar, mistificar, defraudar, ou então, como alguns me dizem, às vezes, de esgotar o médium incumbido de dar-lhes passes. Riem-se muito dos nossos enganos. Houve um que começou fingindo uma terrível dor de cabeça. Propus-me a ajudá-lo, o que fiz com um passe, e ele começou a rir, divertindo-se com a minha falta de inspiração; mas, por estranho que pareça, começou realmente a sentir uma dor real, o que o deixou bastante impressionado.
Qualquer que seja a abertura da comunicação, o doutrinador deve esperar, com paciência, depois de receber o companheiro com uma saudação sinceramente cortês e respeitosa. Seja quem for que compareça diante de nós, é um Espírito desajustado, que precisa de socorro. Alguns bem mais desarmonizados do que outros, mas todos necessitados — e desejosos — de uma palavra de compreensão e carinho, por mais que reajam à nossa aproximação. Os primeiros momentos de um contacto mediúnico são muito críticos.
Ainda não sabemos a que vem o Espírito, que angústias traz no coração, que intenções, que esperanças e recursos, que possibilidades e conhecimentos Estará ligado a alguém que estamos tentando ajudar? Tem problemas pessoais com algum membro do grupo? Luta por uma causa?
Ignora seu estado, ou tem consciência do que se passa com ele? É culto, inteligente, ou se apresenta ainda Inexperiente e incapaz de um diálogo mais sofisticado?
Uma coisa é certa: não devemos subestimá-lo. Pode, de início, revelar clamorosa ignorância, e entrar, depois, na posse de todo o acervo cultural de que dispõe. Dificilmente o Espírito é bastante primário para ser classificado, sumariamente como ignorante. Nossa experiência acumulada é muito mais ampla do que suspeitamos.