XXI
Usualmente, Regina é levada em desdobramento a ver a criança a ser atendida e que está com o nascimento programado para daí a uma semana ou um mês. Quase sempre, ela sabe também se será uma menina ou um menino. Encontra-os em situação de penúria ou pobreza, sob as quais irão renascer. Toma-os nos braços, brinca com eles, lava-os e os veste. Só então volta ao corpo. Dentro de uma semana, quinze dias ou, no máximo, um mês, recebe o pedido para um enxoval, vindo das mais inesperadas situações: encontros de rua, recomendação de uma pessoa que sabe do seu trabalho, pedido de um amigo ou amiga que sabe de um caso de mãe pobre. Alguns desejam comprovar a necessidade e querem trazer as mães para as quais se destinam os enxovais, mas Regina prefere mandá-los. Ela acha que poderia ser um tanto constrangedor e humilhante para a mãe vir pessoalmente pedir um enxoval a uma pessoa totalmente estranha a ela. Regina gosta, contudo, de receber-lhes a visita depois que a criança nasceu .. Muitas tem insistido em conhecê-la pessoalmente e vão lá com a criança, felizes, mesmo na dificuldade. Desejam que a "moça do enxoval" conheça-lhes o filho que, aliás, Regina já viu no plano espiritual. Como costuma acontecer, é comum ser reconhecida, identificada pelos bebês que, com facilidade surpreendente, passam para os seus braços e lhe sorriem sem o menor sinal de estranheza. Ela acha que eles 'sabem'. Quanto a mim tenho certeza, pois ocorreu-me um fato desses, no qual o espírito de que eu ajudara a cuidar, enquanto desencarnado, reconheceu-me e sorriu, logo após reencarnado. Quase que eu virei desencarnado na hora, sufocado pela emoção ... Mas não são apenas as crianças que parecem reconhecer Regina, pois sempre que tem oportunidade de 'conferir', ela própria observa que o local exato que visitou, em desdobramento, quando o bebê se preparava para renascer, é o local onde vive a mãe. Certa vez, 'cuidou' de quatro bebês, numa só noite. Tinha exatamente quatro enxovais prontos; logo a seguir, quatro foram pedidos, e nenhuma solicitação a mais ocorreu durante o resto do mês. Curiosas essas 'coincidências', não é mesmo? Outra vez, nas proximidades do Natal, ela foi ver, em desdobramento, duas crianças. Na semana seguinte, chegou-lhe, 'por acaso', um pedido de um enxovalzinho. Foi atendido. Regina ficou à espera do outro. Dois dias depois, a mesma pessoa que havia levado o primeiro, telefonou para solicitar-lhe mais um. Eram gêmeos e meninos. Temos algumas experiências comoventes nesse trabalho. Achei que o leitor gostaria de conhecer algumas de suas historinhas. Uma tia minha, muito dinâmica e educadora nata, não podia ver ninguém na ociosidade, mesmo crianças pequenas. Arranjava-lhes logo um serviço qualquer. E justificava, com sua inata sabedoria: - Para gente pequenininha, tem serviço pequenininho. O mesmo posso dizer das histórias, - gente miúda, historinhas miúdas ... , onde a dramaticidade e a emoção também ficam concentradas. Se uma ou outra lágrima, por acaso, escorrer dos seus olhos, leitor, não se envergonhe, pois não estará sozinho ... HISTORINHA I Uma senhora pediu um enxoval para uma pessoa de seu conhecimento e que, tendo já oito filhos, encontrava-se em dificuldades, à espera do nono. O marido, desempregado há meses, acabara cedendo à pressão das dificuldades e da frustração de não ter como dar de comer aos filhos, começou a beber, com o escasso dinheiro que conseguia nos biscates. E porque bebia, passou a maltratar a mulher e as crianças. O nono filho era esperado para o fim daquele mês, que mal começava. Assim que a mulher soube que o enxoval já estava com a sua conhecida, foi buscá-lo. Os problemas eram os mesmos de sempre, mas ela não fazia carga sobre o marido desorientado. Dizia que ele não era mau e que tomava aquelas atitudes violentas por causa da bebida e bebia pelo desespero de não encontrar emprego. Ao abrir o pacote com o enxoval, foi de surpresa em surpresa, e não se conteve - começou a chorar, sem nada dizer. Ficou tão emocionada, que saiu sem agradecer, porta afora. Na semana seguinte, ela voltou para desculpar-se e agradecer. Não imaginara que aquilo tudo era para ela. Nunca sonhara ter um enxoval tão bonito para um filho seu. Estava realmente feliz. Quando o marido chegou, ela foi mostrar-lhe o régio presente, peça por peça. Ele estava perplexo e olhava-a com certa desconfiança. De quem é isso? - perguntou. Quando ela explicou que era deles mesmo, ou seja, para o filho, o comentário foi simples e eloqüente: - Impossível! Onde teria ela conseguido aquilo? Presente? De quem? Para seu filho? E tudo isso? E dado por pessoa que nem se conhece? Quer dizer que a bondade existe mesmo? Comovido, envergonhado mesmo, tomou, naquele momento, uma decisão inesperada: nunca mais iria beber! E cumpriu a palavra. Renascia nele também a esperança, quase certeza, de que agora iria conseguir um emprego, ainda que modesto. Esse foi, portanto, o enxoval que reacendeu a chama da esperança e expulsou sombras que envolviam um lar pobre e desalentado. HISTORINHA II Esta começou a ser contada pela faxineira que trabalhava, uma vez por semana, em casa de Regina. Falou de uma vizinha, lá na favela, que estava grávida. E como se parecem os quadros da miséria! Não havia diinheiro nem roupa. Marido desempregado e doente, mal sobreviviam com o auxílio pago pela Previdência Social. Embora no oitavo mês de gravidez, ainda lavava roupa para fora, porque isso significava alguns cruzeiros a mais para minorar as privações, no exíguo barraco de um só cômodo. Nem luz podiam ter, porque ainda não haviam conseguido comprar alguns metros de fio, mesmo usado. Às vezes, deixava-se vencer pelas incertezas da vida e chorava, junto do tanque. Um filho já perdera, sem ter conseguido levar a termo a gestação. Rezava para que o segundo nascesse com vida e alguma saúde, pelo menos. Regina ofereceu o enxoval e acrescentou, por sua conta, alguns caprichos adicionais; afinal, era o primeiro filho, desejado e esperado com amor. Na semana seguinte, estava tudo pronto e ela disse à faxineira que poderia levar o enxoval, mas esta informou que a própria mãe queria vir buscá-lo. Era simpática; bonita mesmo, embora triste e muito tensa. Regina mandou-a entrar e sentar-se, enquanto preparava o pacote. Quis, porém, dar-lhe a alegria de lhe mostrar tudo logo, antes de embrulhar, para ela ver como estava tudo bonito e caprichado. A surpresa começou com o tamanho do volume. Era tudo aquilo para o filho dela? Era. Ela trouxera uma sacola de papel e, sem uma palavra, foi colocando as peças dentro. Não precisava embrulhar, não. Regina supõe até que ela teve algum receio de que, de repente, aquilo não fosse verdade e a doadora mudasse de idéia. -Levantou-se - conta Regina - e ainda sem dizer nada, pegou a sacola, apressadamente. Eu toquei-lhe no ombro e desejei-lhe felicidade para o seu primeiro filho. Ela saiu porta afora, sem dizer um "ah". Havia perdido a fala. Na semana seguinte, a faxineira trouxe o seu pedido de desculpas. Contou o seu drama: ficara tão nervosa, ante o impacto daquela incrível felicidade, que não conseguira dizer nem "muito obrigada". - Imagine a senhora - contou a faxineira - que, quando chegou lá, no morro, ela parecia uma maluca. Fez uma trouxa das roupas, botou na cabeça e saiu, de porta em porta, mostrando o enxoval do filho dela. Acabaram-se as lágrimas de tensão e incerteza. Cantava, agora. Estava lavando mais roupa ainda, porque agora tinha de fazer uma força maior para comprar os fios e botar luz no barraco, antes de o bebê nascer. Mudara o seu mundo; as pecinhas de roupa pareciam um talismã mágico que ela não se cansava de ver e acariciar, como se fossem coisas vivas. Quando o garoto estava com cerca de dois meses, ela o levou para Regina ver. Era uma criança linda, forte e vestido a capricho. HISTORINHA III Eram cerca de dez horas da noite, quando alguém telefonou a Regina para saber se ela tinha, à mão, algumas roupinhas de criança para dar a uma senhora muito necessitada. Ela já estava no centro que distribuía enxovaizinhos, mas a praxe ali era provar que tinha a criança, levando-se para alguém da administração 'conferir' a necessidade. Acontece que a criança não podia ir, precisamente porque não tinha uma peça para vestir. Quando conseguiu alguma roupinha emprestada para levar a criança, a pessoa incumbida da distribuição não estava e a pobre mãe não sabia o que fazer. Compadecido dela é que a pessoa ligara para Regina, na esperança de resolver a situação sem mandar a mulher de volta, pois ela ainda estava lá no centro com a criança. Havia sempre alguns enxovais reservados para situações de emergência, como aquela. A mulher "podia buscar um deles. Cerca de dez e meia da noite, eles chegaram. Era uma mulher ainda jovem, magra, cansada, com a resignação escrita em seu rosto sofrido. Não parecia revoltada, nem magoada com a vida, mas conformada com a situação aflitiva. O bebê, no colo, estava enrolado numa fralda velha e encardida. Regina recebeu-os e pediu que se sentassem, enquanto ela providenciava as coisas. A criança chorava sem cessar. Mais parecia uma reclamação, um desespero. A mãe disse que era fome, pois ela não tinha leite e o que o médico recomendara era muito caro. Por isso, duas mamadas já haviam sido suprimidas naquele dia. Como, junto com a moça e a criança, vieram também o amigo que pedira as roupas e mais uma senhora que servia ao grupo espírita, Regina pediu a esta que preparasse uma mamadeira, com leite em pó, enquanto ela vestia a criança. Em seguida, levou a criança para o seu quarto e depositou-a sobre a cama, Retirando a fralda, na qual ele estava enrolado (era um menino), viu que a sua roupinha era a de uma criança bem mais velha, de cerca de um ano. Fora o que a mãe conseguira por empréstimo para levá-lo ao grupo espírita. O menino chorava sem parar, mas, enquanto o vestia, Regina foi conversando com ele.
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Nome do Capítulo Os carismas e a caridade