Entendeu Regina, desde que se aplicou ao exercício regular da mediunidade, que alguma atividade assistencial paralela era de vital importância para que a caridade espiritual, que estava procurando exercer, fosse complementada, balanceada e sustentada pela caridade material. Por isso, tão cedo passou a freqüentar regularmente uma instituição espírita, apresentou-se como voluntária ao atendimento de necessitados, tarefa que considerava necessária à sua reeducação espiritual.
Certa vez, teve ela um dos seus desprendimentos, tipo sonho. Via-se numa casa simples, parecida com um pavilhão rústico, em meia-água. Era noite e caía uma chuva fina e fria. Estava em companhia de uma senhora (espírito) que parecia interessada em observar suas reações, ante situações que pretendia mostrar-lhe.
De repente, Regina começou a ouvir o choro de um recém-nascido. Era um choro sofrido, de abandono e dor, que a afligia. Procurou localizar de onde vinha. Pareceu-lhe provir do quintal, nos fundos da casa. Estava escuro, mas ela saiu, disposta a ver o que estava acontecendo com aquela criança. Deixou a casa e começou a caminhar, sob a chuva, patinando na terra molhada e lamacenta. Sempre se orientando pelo choro da criança, seguiu por uma trilha, ao cabo da qual encontrou o bebê. Chorava sem parar, completamente despido, tiritando de frio sob a chuva, depositado no capim à beira da trilha.
Abaixou-se prontamente com o coração tocado por profunda compaixão, apanhou-o e apertou-o bem junto ao seu próprio corpo, tentando aquecê-lo, pois estava literalmente gelado. Assim que se sentiu aconchegado a ela, o menino parou de chorar e ela voltou com ele para dentro da casa. A senhora continuava lá, à sua espera. Regina comentou com ela: - Veja esse pobrezinho. Temos de aquecê-lo e vesti-lo. O coitadinho está gelado. Não pode ficar assim. A mulher olhou-a e fez um sorriso enigmático, típico nos espíritos, quando preferem não comentar.
Regina dirigiu-se a um dos cômodos, onde havia uma cama, apanhou uma pequena manta e cobriu a criança, pedindo à senhora que arranjasse uma bacia de água morna para aquecê-la melhor. Assim foi feito. Ela banhou o menino e enxugou o seu corpinho, enrolou-o cuidadosamente na manta e saiu com ele de volta à salinha. E agora? O que fazer com aquela criança? Não podia abandoná-la novamente, pois era óbvio que ela precisava de proteção e amparo.
Logo após, viu-se de volta ao corpo físico, já desperta, mas com viva impressão de tudo quanto sucedera naquele estranho episódio, ainda inexplicado. Só entendia que estava ali contido o 'aviso' de uma nova tarefa para ela, mas qual?
Durante algum tempo, ficou na expectativa de algum acontecimento que a explicitasse.
Tinha uma espécie de certeza de que a criança era real e que iria encontrá-a em algum lugar, algum dia não muito distante. Quem sabe alguém abandonaria uma criança na vizinhança de sua casa ou em algum ponto onde ela passasse? A expectativa era tão aguda, nas noites chuvosas, que lhe tirava o sono. Em algum lugar, poderia estar um pobre bebê despido, tiritando de frio e de medo, abandonado no quintal. Regina voltava, então, a sentir a impressão do seu corpinho gelado de encontro ao seu.
Passou-se um ano e nada de aparecer a criança. Pedira até a amigos e conhecidos residentes em zonas suburbanas mais distantes que ficassem atentos. Talvez a 'sua' criança aparecesse por lá.
Sempre gostara de crianças, com elas trabalhara com amor e elas pareciam entendê-la bem. Que tal fazer enxovais de bebê para distribuir às mães necessitadas? Confiou seu projeto a uma amiga e convidou-a a participar dele, o que a outra aceitou logo. Por coincidência (ou não seria?), essa amiga estava à espera do seu primeiro filho e trabalhava no respectivo enxoval. Além do mais, durante toda aquela semana caiu uma chuva fina e fria, lá fora. Parece que esses eram os sinais físicos e aparentes da 'tradução' do simbolismo das imagens para a realidade da vida física.
Prontamente, deu-se início à atividade e, enquanto Regina costurava o primeiro casaquinho de flanela, relembrava as dramáticas cenas de um ano antes, durante o desprendimento. Então, era aquela a tarefa que lhe estava sendo preparada: não apenas de um recém-nascido especial, tinha de cuidar, mas de muitos. Cabia-lhe vesti- los, protegê-los e amparar-lhes, de certa forma, a família, nos primeiros passos que dariam neste mundo. Logo um amigo espiritual lhe confirmou a 'decifração' do que lhe parecera um sonho incongruente. Diz ela que, naquela noite de chuva, conseguiu dormir em paz, pois, agora sabia o que fazer. Era só atender ao apelo do Cristo em Mateus (25,36): " ... estava nu, e me vestistes ... "
Assim começou a tarefa. Nunca foi um trabalho preocupado com estatísticas e com qualidades. Imaginou-se para isso uma filosofia algo diferente. Em vez de dar o mínimo possível, mais para o lado da exigüidade do que para a necessidade, a idéia foi a de proporcionar o suficiente para um bebê de família pobre. Em lugar de três ou quatro fraldinhas, três camisinhas e umas poucas peças mais, os enxovais preparados constam de mais de cinquenta peças, o mínimo considerado indispensável. As camisinhas são de diferentes tamanhos para acompanhar o crescimento da criança até os quatro ou cinco meses. O objetivo é proporcionar aos pais algum 'fôlego', até que possam comprar peças avulsas para renovar o enxovalzinho inicial. Ainda é pouco, mas não se poderia fazer muito diferente disso, não apenas por dificuldades materiais, mas, principalmente, por suas limitações de saúde.
Outra divergência está na qualidade do material. A maioria das pessoas acha que "sendo para pobre, qualquer coisa serve" e, por isso, elas compram material de qualidade inferior, o mais barato possível, que, às vezes, se desfaz às primeiras lavagens. As fraldas são de tecido grosso e áspero, ou feitas de retalhos de vários tipos de fazenda, muitas vezes impróprias: duras e quentes demais.
Regina coloca as coisas da seguinte maneira: 1) Quanto mais pobre a mãe, melhor deve ser a qualidade do material distribuído. A mãe que disponha de recursos pode dar-se ao luxo de comprar sem preocupação de durabilidade, porque, estragando-se a peça, está em condições de substituí-la. A mãe necessitada, não. Ela só tem aquele. Vai usar e lavar inúmeras vezes; o tecido tem de ser de boa qualidade.
2) Tanto a mãe milionária, como a remediada, a pobre ou a indigente, experimentam o mesmo tipo de emoção e carinho e desejam o que melhor possa ser conseguido para os filhos. Se pudessem as mais pobres, as roupinhas seriam bonitas e enfeitadas, bordadas, com rendas etc. A única diferença entre elas é que algumas podem realizar o sonho do conforto, outras muitas não o podem. Muitas vezes, a criança está para nascer dentro de alguns dias e a mãe não dispõe de uma só fralda ou peça de roupa.
Nada. Não por desleixo ou imprudência, mas porque não têm mesmo condições de adquiri-las. Além disso, entende Regina, com justeza, que a pele de um bebê pobre é tão sensível e delicada quanto a de um rico. Por que não deve, pois, a sua roupinha ser a melhor possível?
Em suma: os enxovais são mesmo caprichados, como se fossem para seu próprio filho.
O material comprado é de boa qualidade, as peças são costuradas com o mesmo amor e zelo de sempre, mantendo-se um alto padrão de qualidade. Cada criança que recebe um desses enxovais - e ao escrevermos isto já somam mais de uma centena - é um pouco de Regina e de sua amiga também. Há críticas, por certo, ante a impossibilidade de agradar a todo mundo. Houve quem sugerisse vender as peças com aquele fino acabamento às butiques e comprar, com o dinheiro obtido, material mais barato, em maior quantidade, mesmo em sacrifício da qualidade, a fim de atender a maior número de bebês, mesmo porque - o velho argumento de sempre - "gente pobre não repara; qualquer coisa serve". "Além do mais" - acrescentam - "Eles não sabem mesmo cuidar, logo, logo, isso estará mal lavado, encardido, manchado, estragado".
Regina não se deixa convencer por esses 'argumentos'. Se as peças vão ser maltratadas, paciência. E os enxovais continuam a ser produzidos com capricho invariável. Caberá à mãe manipulá-la como entender, mesmo porque não vamos dar um presente e ficar vigiando para ver como é que a pessoa vai cuidar dele ...
A intenção pode ser boa, mas as pessoas que pensam dessa maneira estão aparentemente mais preocupadas com a estatística. Estão mais atentas à quantidade do que à qualidade. Doutrinariamente, uma curiosa maneira de raciocinar.
Suponhamos que, amanhã, uma dessas pessoas vá renascer em família paupérrima e precise de um enxovalzinho feito e doado por mãos caridosas. Serve qualquer coisa, porque "pobre não repara?" Claro que serve; mesmo porque a pobreza é tão extrema, às vezes, que não dá sequer para recusar a mais mísera das oferendas. Mas é certo que um enxoval melhor costuma produzir curiosas situações, como veremos.
Regina obstinou-se na sua filosofia de trabalho. Preferia vestir bem dez crianças do que remediar ou mal vestir vinte. Quanto às outras dez, também há espaço para eles no seio imenso de Deus. Como dizem os chineses, é melhor acender uma vela do que ficar a maldizer a escuridão. O trabalho de Regina é a sua velinha acesa. Alguns acendem verdadeiros holofotes. Ótimo. Outros, nem riscam fósforo. Paciência. Cada um sabe de si e dá conta de seus atos à lei maior.
Além do mais, se, cada pessoa que pode, resolvesse adotar uma criança, não haveria necessitados sobre a Terra.
O leitor talvez fique curioso de saber como é que surgem os bebês. Estranho como possa parecer, Regina sempre é 'avisada', através de suas faculdades. A tarefa é conjugada com a do trabalho mediúnico, propriamente dito, ou seja, espíritos de que o grupo cuidou, em longos diálogos e apelos dramáticos, são encaminhados à reencarnação em situações difíceis e acabam atendidos pelos enxovais trabalhados pela própria médium que lhes serviu de veículo, quando estavam na condição de espíritos desencarnados.