XXI
Que ficasse bem calminho, que 'titia' ia dar mamá para ele e que ele ia ficar todo bonito na roupa nova. Parece que a voz tranqüila e pausada foi acalmando a criança, que acabou se calando, Depois de vesti-lo, Regina enrolou-o numa das mantas de flanela e perguntou, na direção da cozinha, se já estava pronto o leite. Pegou o menino e foi ver o que se passava. A operação, no momento, consistia em fazer um furo no bico da mamadeira, o que o amigo estava tentando. A criança percebeu o sentido daqueles preparativos (ou já estava 'informada' pela conversa de Regina) e começou a mamar desesperadamente, assim que teve a mamadeira ao alcance da boca faminta. De repente, ele parou de mamar e voltou ao berreiro de há pouco. O que teria acontecido? A investigação revelou que o furo, no bico, não era suficiente para deixar sair o leite. Afinal, o dono da 'refeição' estava morto de fome. Dessa vez, o furo ficou no ponto certo, ou melhor, no ponto exagerado, pois foi convertido num verdadeiro rombo, compatível, aliás, com a fome do bebê. Regina levou-o à mãe, agora vestido e mamando, pedindo a ela que o fizesse do seu jeito. A paz voltou a reinar, o bebê mamou até fartar-se e dormiu, sem a menor cerimônia. Regina arrumou o restante do enxoval, a lata de leite já aberta e outra, ainda fechada. O bebê continuava dormindo pacificamente, satisfeito, afinal, e aquecido. Quando Regina aproximou-se dele, sem fazer ruído algum, o menino despertou, virou o rosto, olhou-a e sorriu um largo e agradecido sorriso. Ela acariciou-lhe a cabecinha e lhe disse, baixinho: - Então, heim, matou a fome, não foi? Que bom! Cumprida a sua tarefa de gratidão, ele voltou-se e adormeceu novamente. Ao sair, adormecido no colo da mãe, repetiu a atitude de há pouco. Virou a cabecinha, sorriu, e voltou a dormir. Da primeira vez, poderia ter sido mera coincidência, mas agora, não. O bebê quis mesmo deixar claro que estava grato porque fora vestido e alimentado por Regina. Mas ainda não estava encerrado o ritual da gratidão. Como era tarde e o portão de entrada do prédio estava fechado a chave, Regina teve de descer com os visitantes. Na última despedida, junto ao portão, novamente o garoto repetiu o seu gesto e o seu sorriso, que Regina nunca mais esqueceu... Se o leitor pensa que isto é exagero, deve ler o livro da dra. Wambach (Vida antes da vida, Livraria Freitas Bastos), que fala das emoções dos recém-nascidos quando, já adultos, são hipnotizados e regredidos. Ali está um ser vivo, inteligente, humano, que só não tem como articular palavras porque ainda não preparou o seu 'cassete'. Eu mesmo já tive mais de uma dessas experiências. Certa vez, visitei uma senhora que, com os filhos já adultos, resolveu tomar uma recém-nascida para criar. Esta criança vivera um desses dramas traumáticos de abandono e rejeição. Agora, estava num lar seguro, sem riquezas, mas farto, amoroso e tranqüilo. Por alguns momentos que fiquei junto dela, falei-lhe baixinho que agora ela estava protegida, graças a Deus, que tudo acabara bem e que não se preocupasse mais, pois tudo iria dar certo. Quase morri de susto. A criança me olhou profundamente e fez um esforço dramático para falar. 'Falava', contudo, com os olhinhos expressivos, as feições agitadas, a boquinha trêmula, com a qual não conseguiu expressar o que desejava. O que mais me comoveu, no entanto, foram umas pequeninas lágrimas que eu vi nos olhinhos dela. Ou será que eram as minhas? HISTORINHA IV Pelo telefone, uma pessoa amiga pedia a Regina algumas camisinhas de pagão para um caso aflitivo. O apelo viera de uma empregada da senhora que telefonava, que lhe pedira alguns lençóis velhos que pudessem ser recortados a aproveitados como fraldas, porque uma sobrinha, muito jovem, começara a passar mal e, levada para o hospital, verificou-se que estava já em trabalho de parto. Era uma moça pobre, muito jovem e que vivia em companhia do pai, já bem idoso e muito desgasta do pelas lutas. A irmã casada não podia acolhê-la, porque morava em uma casinha de dois cômodos, com quatro filhos e o marido. A moça com a nova criança não teria onde ficar e nem recursos próprios para tentar a vida de outra maneira. Essa irmã é que telefonara para a tia, em pranto, dizendo que a mais nova teria logo alta e que o hospital pedira que levassem roupas para o recém-nascido e ela não sabia o que fazer. Além disso, havia outro problema. O velho pai - avô da criança - sentia-se decepcionado e envergonhado com a situação. Criado à maneira antiga, segundo as tradições de seu tempo, declarou que não receberia de volta a filha 'desonrada'. De maneira alguma concordaria. Ficava o problema com a irmã mais velha. Onde colocar a outra, com o filho, assim de repente? Regina respondeu que não apenas as camisinhas, mas que tinha um enxoval completo, pois era esse mesmo o objetivo de seu trabalho. Combinou-se, então, que no mesmo dia, após o trabalho, a tia passaria em casa de Regina para pegar o enxoval, pois a moça sairia do hospital no dia seguinte. Regina esclarece que alguns hospitais adotam a prática de entregar a criança apenas envolvida numa peça de gase, caso a mãe não tenha providenciado roupa suficiente, e a tempo, o que deve acontecer com freqüência. Num caso desses, a moça confessou a Regina que tivera de apanhar uns jornais para proteger melhor a criança, porque fazia frio. À noitinha, a senhora apareceu para pegar a roupa. Estava ainda muito aflita pela situação da sobrinha, pois o pai mantinha-se irredutível e não a queria com o filho, em sua casa. Regina sugeriu que a tia insistisse com ele e lhe pedisse compreensão e caridade. Afinal de contas, estavam todos diante de um fato consumado; a criança estava ali e, mais do que nunca, a moça ia precisar do apoio do pai. Dias depois, telefonou a amiga que pedira as roupinhas para dar notícias. A criança era uma menina. Regina perguntou-lhe se a tia havia conversado com o pai da moça, como lhe pedira. - Nem foi preciso - foi a resposta. O enxoval que você deu fez o serviço sozinho! - Como assim? Simples. A surpresa do velho foi grande. A primeira reação era esperada. Não queria saber de nada; não queria ver nada; mas a tia da moça insistiu. Não custava olhar. Aliás, ela tinha mesmo de ver, porque precisava separar as peças necessárias para vestir a criança, no dia seguinte, quando fosse buscá-la no hospital. Abriu o pacote, sob o olhar do velho e notou que, aos poucos, o semblante dele foi "se soltando". De repente, ele sentou-se na cama e chorou a quanto quis. Quando se acalmou, tinha uma decisão tomada: - Já que Deus está ajudando tanto, eu não posso deixar minha filha na rua. Pode trazer ela e a criança para casa. Há, aqui, uma historinha dentro da outra. Deixo ao leitor o privilégio de descobrir qual delas é mais tocante. Ao regressar à casa, com a filhinha nos braços, as esperanças renasceram, por certo, no coração da moça; mas lá havia tristezas sem solução. O pai da criança fora um rapaz de São Paulo. Pedira a ela que não contasse nada da gravidez à família, porque se casariam primeiro, para contar, em seguida. Dias depois dessa conversa, ele foi atropelado e morto na avenida Brasil. A moça tinha, com ela, um recorte de jornal com a notícia. Vivera todo aquele tempo na terrível tensão da incerteza e da agonia, quando o futuro imediato parece estar somente acumulando mais tempestades. Não tinha a quem recorrer, mesmo porque, conhecendo os princípios de seu pai, não podia esperar alguma compreensão dele. Resolvera enfrentar tudo sozinha, corajosamente, na esperança de que algum milagre aconteceria. E, de fato, o milagre veio ... Assim foi que um enxovalzinho feito com amor ajudou a consertar uma porção de coisas: as aflições da moça, da irmã, da tia; convenceu o avô a fazer a sua parte, contribuindo com a compreensão, já que Deus fizera tanto. Com isso, restituiu à jovem mãe o teto que já estava perdido, vestiu a criança e deixou todos felizes. Será que um enxovalzinho, desses que "para-pobre-qualquer-coisa-serve", teria desencadeado todo esse processo de revisão? Tenho minhas dúvidas ... Além do mais, como deve ter ficado feliz aquele espírito, recém-trazido de volta à carne, e que nem podia ainda expressar a sua gratidão! Estou certo de que um dia vai fazê-lo ... Finalmente, há, na história, o espírito do jovem pai desencarnado, que deveria estar vivendo momentos de aflição, dado que gostava da moça e queria casar-se com ela. HISTORINHA V Este é chamado por Regina de "o caso do bebê do galinheiro". Uma amiga telefonara pedindo um enxoval. A filha da empregada fora visitar a avó num subúrbio pobre e distante. Estava lá, conversando, quando uma criança da vizinhança entrou correndo para anunciar que havia uma menina com um "nenem" no galinheiro. E convidava todos: - Venham ver! E tinha mesmo. A jovem mãe teria seus treze anos e segurava uma criança ao colo, enrolada em trapos, sem uma peça de roupa. Segundo contou, ficara grávida no interior de Minas Gerais. Como costuma acontecer, o pai da criança fugira. O pai dela, indignado e intolerante, botara-a para fora de casa. Mal sabia como viera parar no Rio de Janeiro. Quando começou a passar mal, alguém chamou uma ambulância que a levou ao hospital mais próximo, senão iria ter a criança nalgum canto de calçada, pois era onde dormia, a perambular pelas ruas, sem rumo. Estava ali, no galinheiro, porque a dona da casa concordara que ela ficasse, embora não a quisesse na sua casa, talvez por receio de mais essa responsabilidade, pois era gente pobre também e já tomava conta de vários netos para que as filhas pudessem trabalhar fora. Não dava para ter mais uma criança em casa e, ainda por cima, com a mãe, outra criança. O arranjo combinado fora aquele: a menina ficava com a criança no galinheiro durante o dia e, à noite, dormia dentro de casa, nalgum recanto.
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Nome do Capítulo Os carismas e a caridade