VIII
Veja-se, por exemplo, esta preciosa observação de André Luiz, em Mecanismos da mediunidade: Atuando sobre os raios mentais do medianeiro, o desencarnado transmite-lhe quadros e imagens, valendo-se dos centros autônomos de visão profunda, localizados no diencéfalo, ou lhe comunica vozes e sons, utilizando-se da cóclea .. (Xavier. Francisco C.Luiz, André. 1986. p.35) Diencéfalo é a parte do cérebro que constitui a seção posterior do póssencéfalo, do qual se desenvolvem o corpo pineal, a pituitária e outras estruturas do terceiro ventrículo. Quanto à cóclea (caracol), é a parte anterior do labirinto, no ouvido. (Funk e Wagnalls, Dictinary). Ainda sobre a função do diencéfalo, na 'visão sem olhos', encontramos outro ensinamento em André Luiz, desta vez em Evolução em dois mundos. Discorre o autor espiritual sobre o mecanismo dos sonhos, quando a mente se volta, no sono, para o refúgio de si mesma e: "..mobiliza os recursos do núcleo de visão superior, no diencéfalo, de vez que, aí, as qualidades essencialmente ópticas do centro coronário lhe acalentam no silêncio do desnervamento transitório todos os pensamentos que lhe emergem no seio. (Xavier. Francisco C./'Vieira Waldo,Luiz. André, 1973). Como se observa, portanto, é tarefa habitual do diencéfalo converter pensamentos em imagens, tanto comandado pela vontade do próprio encarnado, como sob o impulso de uma vontade alheia, de seres desencarnados, uma vez realizado o necessário acoplamento mediúnico. Logo, os espíritos se comunicam diretamente com o cérebro, onde estão localizados os centros de visão, audição ou olfato, sem a necessidade de fazer passar as impressões pelos sentidos correspondentes, utilizando-se para isso, no processo, dos 'raios mentais' do médium. Em Nos dominios da mediunidade, capítulo 12 - Clarividência e Clariaudiência - Clementino confirma a atuação direta sobre os centros cerebrais respectivos, esclarecendo que: Os olhos e os ouvidos materiais estão para a vidência e para a audição como os óculos estão para os olhos e o ampliador de sons para o ouvido - simples aparelhos de complementação. Toda percepção é mental. (Xaver. Francisco c./ Luiz, André,) O que - em outras palavras - é o que diz Boddington, ao informar que os sentidos são meros canais de comunicação com a mente. Esta é que importa. Clementino vai um passo adiante, ao ensinar que ... Ainda mesmo no campo das impressões comuns, embora a criatura empregue os ouvidos e os olhos, ela vê e ouve com o cérebro e, apesar de o cérebro usar as células do córtex para selecionar os sons e imprimir as imagens, quem vê e ouve, na realidade, é a mente. (idem). Idêntico mecanismo ocorre com a dor física. Temos a nítida impressão, e até convicção, de que é o dedo do pé que dói, quando damos uma topada, ou o da mão, quando o atingimos com uma desastrada martelada. Na verdade, porém, se a rede nervosa sofrer qualquer interrupção, por rutura, inibição ou anestesia, entre o dedo do pé e o cérebro, não sentiremos dor alguma. Quanto ao caso particular da audição, Regina nos transmite algumas valiosas informações adicionais, ao ser solicitada a expandir suas observações. Realmente ela nota certa diferença na qualidade do som (Tonalidade? Volume? Ressonância?), quando captado normalmente pelo ouvido externo ou quando levado diretamente à percepção mental. "Às vezes," - escreve ela -, "quando entidades me chamam pelo nome eu as ouço com o ouvido comum, isto é, como se alguém estivesse ali, comigo, fazendo a voz soar no mesmo ambiente físico. De outras vezes - e isto se aplica principalmente a espíritos brincalhões -, o som da campainha da porta de entrada, embora repercutindo 'fisicamente', se assim posso dizer, tinha qualquer coisa de diferente na qualidade do som. Tanto que, quando insistia muito na brincadeira de mau gosto e já cansada de ir à porta sem encontrar ninguém, eu mesma tocava a campainha, repetidamente, para conferir e concluía: este é o som da minha campainha de verdade. Não vou mais confundi-la com o que 'eles' estão produzindo." Parece, portanto, que no primeiro caso ocorria um fenômeno de som direto, equivalente ao de voz ou escrita diretas, dado que parecia a ela captá-lo pelo sistema usual de audição, enquanto permanecia a vibração no espaço ambiental onde se encontrava. Já no segundo caso - o da campainha - o efeito sonoro era, ainda que diferente, de uma fonte geradora externa. Para melhor explicar tais sutilezas, ela esclarece que ouve de três maneiras diversas: 1) como se alguém estivesse ali, ao seu lado; 2) ainda aparentemente externo, mas com uma sutil diferença na qualidade do som; 3) o som parece ocorrer 'dentro' da sua cabeça, como se não houvesse fonte geradora externa. Dentro dessa mesma ordem de idéias - a de que os sentidos são meros instrumentos da mente, mas não a visão, a audição ou o olfato, em si - Delanne organiza, para explicar o problema da clarividência, três hipóteses de trabalho: 1) ou o pensamento do agente transmite ao clarividente a imagem de sua pessoa e a dos objetos à sua volta; 2) ou é a visão normal do sensitivo que adquire extraordinária hiperacuidade; 3) ou, finalmente, o pensamento do agente determina uma exteriorização da alma do percipiente, que se desloca ao ambiente percebido por clarividência. Delanne decide pela terceira e última hipótese, ainda que reconhecendo ser a mais complexa. A primeira ele rejeita pela simples razão de que o agente não tem condições nem de pensar em si mesmo no momento de um acidente, por exemplo, quanto mais no ambiente que o cerca. Como teria condições de transmitir toda a cena para alguém colocado à distância, às vezes, considerável? A segunda é de fácil rejeição. Não há como aceitar que Swedenborg, por exemplo, pudesse ver, de Goteburg, com seus olhos materiais, o incêndio que lavrava na rua em que morava, em Estocolmo, como se lê no relato escrito por ninguém menos do que Immanuel Kant. Resta a terceira, ou seja, a de que o sensitivo se desdobra de seu corpo físico e vai, em seu corpo perispiritual, assistir à cena. A minha única dúvida com a hipótese de Delanne está em que não vejo como o pensamento do agente pudesse provocar o desdobramento. O ilustre cientista francês é um expositor brilhante e muitíssimo bem-documentado. Os casos com os quais ilustra suas exposições são inatacáveis e ele vai conduzindo o leitor, inexoravelmente, às conclusões de que somente os postulados básicos do espiritismo podem explicar e acolher as inúmeras modalidades de manifestação. Não resta dúvida, pois, de que a palavra clarividência está sendo utilizada para explicar maior número de fenômenos do que poderia fazê-la. Ela foi proposta para caracterizar um só fenômeno - o da visão à distância sem recorrer ao aparelho visual do ser humano encarnado. Nada mais que isso, o que a caracteriza como fenômeno anímico, ou seja, atividade da alma encarnada, basicamente sem interferência de espíritos desencarnados. Isto nos leva a acrescentar-lhe outra condição - a do desdobramento perispiritual, o grande cavalo de batalha da ciência moderna, que ainda não conseguiu digerir, ou sequer deglutir, a óbvia realidade de uma réplica do corpo físico, estrutura do como este, mas de substância sutilíssima, nas últimas fronteiras da matéria, quando o território já é praticamente de domínio da energia. É com esse corpo energético que o ser desdobrado (ou o desencarnado) pensa, vê, ouve, movimenta-se, sofre, ama, vive, enfim. O perispírito, segundo Kardec, "é o princípio de todas as manifestações ". 4. O QUE DIZEM OS AUTORES NÃO-ESPÍRITAS A inadequabilidade do termo clarividência se torna ainda mais óbvia quando dirigimos a nossa busca para obras concebidas e realizadas fora do contexto doutrinário do espiritismo. Tomemos, por exemplo, Lewis Spence, na sua conhecida obra An encyclopaedia of occultism. Convém esclarecer preliminarmente, que mr. Spence, autor escocês de vasta obra no campo específico do chamado ocultismo (desencarnou em 1955, com oitenta e um anos de idade), nunca morreu de amores pelos postulados básicos do espiritismo. Conceitua a clarividência como "a suposta faculdade supra normal de ver pessoas ou acontecimentos distantes no tempo e no espaço e sobre os quais nenhum conhecimento poderia chegar ao vidente pelos canais normais dos sentidos". Assinalei propositalmente a palavra suposta, porque ela marca a posição do autor da definição. Divide ele a questão em três aspectos: a retrocognição (conhecimento do passado), premonição (conhecimento do futuro) e o conhecimento de eventos contemporâneos, ou seja, que se realizam no presente. Acha mesmo que o espiritismo, pelo menos na Grã-Bretanha, começou a desenvolver-se, na terceira década do século XIX, a partir de uma eclosão de clarividência que segundo ele, "ainda persiste como destacada característica das sessões espíritas". Com o que ele revela que não conhece bem espiritismo nem clarividência .Mas, vamos em frente. Logo a seguir, mais um gesto de manifesta má vontade, ao declarar que a despeito da evidência colhida pela SPR (Sociedade de Pesquisas Psíquicas "muitos casos podem ser explicados de maneira mais mundana", ou seja, só recorrer a faculdades especiais. Até que, nesse ponto, estamos de acordo. É claro que muitos fenômenos, tidos apressadamente como de clarividência podem ser explicados de outras maneiras. O problema aqui é que não estamos falando sobre os que podem ser assim explicados, mas dos que não podem sê-lo. O próprio Spence admite isto, embora de maneira um tanto oblíqua, escrever muitos casos, o que obviamente implica a existência de outros, pois ele não excluiu todos. De que forma explicá-los? Diz ele que é praticamente impossível vendar totalmente os olhos de uma pessoa. Tenho minhas dúvidas sobre isso. Como impossível? Será que nunca se descobriu um procedimento seguro de vendar os olhos de alguém? Outro 'argumento' é o de que casos seriam explicados pela hiperestesia durante o transe. Mas a hiperestesia, como define o próprio mr.
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