1. INTRODUÇÃO
Um confrade com o qual tive escassas oportunidades de convivência, ligou-me certa vez para sugerir que eu escrevesse um estudo sobre clarividência. Tomei nota de sua amável solicitação e realizei algumas pesquisas, mas o projetado trabalho ficou limitado a umas poucas notas e indicação de fontes de referência. Algum tempo depois, ele deu por terminada a sua tarefa aqui e partiu para o mundo espiritual. Creio chegado o momento de cumprir a promessa que então lhe fiz, decorridas cerca de duas décadas. É que, naquela ocasião, o assunto me pareceu mais complexo do que eu imaginava e não me senti com preparo suficiente para abordá-lo. Estou certo de que o despreparo prevalece mas, pelo menos, disponho hoje de mais experiência e informação para um exame de maior profundidade na questão.
Começaremos a examinar o vulto do problema e suas dificuldades a partir de O livro dos Médiuns, no qual encontramos, no capítulo XIV - Dos Médiuns, seção número 5 - Médiuns Videntes, algumas observações valiosas.
Kardec conceitua como médium vidente aquele que é dotado "da faculdade de ver os espíritos" e acrescenta que "alguns gozam dessa faculdade em estado normal, quando perfeitamente acordados", enquanto outros "só a possuem em estado sonambúlico ou próximo do sonambulismo". O que nos leva a supor que os da segunda categoria só conseguem divisar os espíritos quando em estado de desdobramento, ainda que superficial. Informa ainda o Codificador que raramente a faculdade é permanente, sendo "quase sempre ( ... ) efeito de uma crise passageira".
Ensina, a seguir, que "o médium vidente julga ver com os olhos como os que são dotados de dupla vista; mas, na realidade,é a alma quem vê e por isso é que eles tanto vêem com os olhos fechados, como com os olhos abertos".
Na sua opinião (de incontestável autoridade, como sabemos), a faculdade de ver os espíritos "pode, sem dúvida, desenvolver-se, mas é uma das de que convém esperar o desenvolvimento natural, sem o provocar", a fim de se evitar que a imaginação leve a melhor e comece a produzir alucinações visuais. (O problema da alucinação é outra complexidade que, por enquanto, deixaremos de lado).
Ao cuidar desses aspectos, contudo, Kardec remete o leitor ao capítulo VI do mesmo livro, ao qual foi dado o título Das manifestações Visuais, onde o tema é desenvolvido com maior amplitude e com o assessoramento direto dos espíritos consultados a respeito.
Vemos ali confirmada a suposição de que, embora as visões se produzam sob condições normais de vigília, é comum encontrarem-se os videntes "num estado próximo ao de êxtase, estado que lhes faculta uma espécie de dupla vista".
Aprendemos, também aí, que o espírito se torna visível não por uma condensação de fluidos do perispírito, conforme supunha Kardec, a julgar pela maneira com a qual formulou a sua pergunta, mas por uma "combinação de fluidos", dado que não depende apenas da vontade do espírito o apresentar-se à visão dos seres encarnados.
" ... não basta que o espírito queira mostrar-se - ensinam os instrutores", - é preciso também que encontre a necessária aptidão na pessoa a quem deseje fazer-se visível".
E isto se faz mediante uma combinação com o fluido peculiar ao médium", como se lê pouco adiante.
Tudo isso ressalta a importância do perispírito nesses (e em inúmeros outros) fenômenos, Kardec o caracteriza, em palavras inequívocas, como princípio de todas as manifestações".
Sentindo, contudo, a complexidade da questão, o Codificador encerra seu Ensaio teórico sobre as aparições com uma declaração de humildade digna de seu porte intelectual e moral, ao escrever: Longe estamos de considerar como absoluta e como sendo a última a teoria que apresentamos. Novos estudos sem dúvida a completarão ou retificarão mais tarde; entretanto, por mais incompleta que ainda seja hoje, sempre pode auxiliar o estudioso a reconhecer a possibilidade dos fatos, por efeito das causas que nada têm de sobrenaturais. (Kardec. Allan. 1975.)
É digno do maior respeito alguém como Kardec que. empenhado a fundo na elucidação de questões vitais ao entendimento dos mecanismos da vida e contando com o apoio de eminentes espíritos, recusa-se a assumir a postura de 'dono da verdade'; mas não apenas isso, deixa aberta a questão a futuros estudos, contentando-se com a satisfação de ter dado a sua contribuição, ainda que incompleta, ao seu esclarecimento.
Segundo vemos em Répertoire du spiritisme, de J .P.L.Crouzet, verbete clairvoyance, a questão foi retomada em texto publicado na Revue Spirite, 1870, após a desencarnação do Codificador. (Convém lembrar que O livro dos médiuns é de 1861).
Pelo resumo de Crouzet, o problema da clarividência ficou assim colocado no artigo póstumo: 1. A visão sonambúlica não se faz pelos olhos, mas por um sentido novo, sendo que somente por analogia atribui-se o nome de visão a esse sentido.
2. Na visão à distância, não é o objeto visto que se aproxima do vidente, é a alma deste que se aproxima do objeto. É, portanto, a alma que vê e não aquela parte do corpo.
Há outros aspectos que não são de interesse imediato para nós neste ponto.
Boddington é da mesma opinião quanto à natureza da visão clarividente e quanto à sua maneira de operar. De fato, lemos em seu volumoso livro The University of spiritualism, capítulo How the clairvoyant sees, o seguinte: A clarividência obriga o materialismo a admitir a faculdade de percepção independente dos sentidos físicos. Quando, além disso, verificamos que o duplo do clarividente é freqüentemente visto no exato local que esteja descrevendo através do seu corpo físico, a milhas de distância da cena descrita, completa-se a hipótese espírita da visão espiritual acoplada a um organismo psíquico. Tato, paladar, visão, olfato e audição não passam de meros canais de ligação com a mente e, por si mesmos, eles não têm consciência. Todos podem ser destruidos, mas a consciência, nunca, (Boddington.
Harry. 1948.)
Antes de prosseguir na coleta de citações de apoio, temos de fazer uma parada para pensar no que ficou dito até aqui.
O leitor atento terá percebido que falamos de sonambulismo, de visão à distância (não necessariamente de espíritos) e de médiuns videntes.
2. UMA CONCEITUAÇÃO QUESTIONÁVEL
Afinal de contas, que vem a ser clarividência? É fenômeno mediúnico, anímico ou misto?
Proponho que comecemos por questionar a palavra em si. Caracteristicamente, Delanne cuida dessa faculdade em seu precioso livro Recherches sur la mediumnité, na seção correspondente ao animismo, e propõe a seguinte definição: Chama-se clarividência, dupla vista ou lucidez à faculdade de obter conhecimentos sem experimentar a influência do pensamento das pessoas presentes e sem servir-se dos órgãos dos sentidos. (Delanne, Gabriel, 1902, p. 198.)
Essa conceituação, como se pode facilmente perceber, introduz um novo elemento no problema, já um tanto complexo - o de que a clarividência produz conhecimento, não necessariamente visual, como seu nome implica, mas como num flash de intuição.
Vimos fenômenos semelhantes em Regina, como vemos em outros médiuns. Ocorre, às vezes - e até com freqüência -, que eles simplesmente 'sabem' que uma coisa é desta maneira e não daquela, sem terem visto ou ouvido nada a respeito. O termo clarividência teria acomodação também para esse tipo de fenômeno. No entanto, a palavra em si mesma quer dizer visão clara (clairvoyance, em francês, palavra, aliás, que os ingleses adotaram por transplante).
Em outro trabalho de Delanne, a monumental obra Les apparitions materialisées des vivants er des morts (também esta, infelizmente, não traduzida em português), ensina o autor que o termo clarividência era adotado pelos magnetizadores quando seus sujets, em estado sonambúlico, tinham condições de "ver, à distância", objetos, pessoas e cenas totalmente fora de alcance da visão comum. Lamentavelmente, a terminologia inicial tende fixar-se e acaba se tornando difícil, senão impraticável, desalojá-la da posição, mesmo depois de comprovadamente inadequada para caracterizar os fenômenos observados no âmbito que ela pretende cobrir. Para dizer outra maneira: o termo se consolida no vocabulário científico ou técnico antes de se ter uma visão mais abrangente do problema sob exame. Ao que se observou que a pessoa magnetizada podia 'ver' à distância com a maior clareza, como se lá estivesse, cunhou-se a palavra clarividência mais tarde foi possível observar que a pessoa não estava vendo à distância e sim, no próprio local, e não propriamente utilizando-se de seu sentido de visão, mas de suas percepções globais; não no seu corpo físico, mas no corpo espiritual. E mais: que essa faculdade de desdobramento permite exercer outros tipos de percepção, como a visão de seres desencarnados, ou o mergulho na sua memória e na de outras pessoas ou, ainda, a autoscopia (visão dos órgãos internos próprios), bem como deslocamentos no tempo, rumo ao passado e/ou ao futuro; ou o conhecimento de fatos sem a mínima, utilização de quaisquer dos sentidos habituais.
Do que se depreende que o termo clarividência é insuficiente para conter tantos e tão complexos fenômenos, alguns dos quais nada têm com a visão, embora outros possam ser, por analogia, associados a esse mecanismo sensorial. Como vimos, o sensitivo não vê com os olhos físicos; apenas tem imagens mentais, estejam os olhos abertos ou fechados, esteja ele em plena luz ou mergulhado, fisicamente, em densa escuridão.
3. VISÃO SEM OLHOS
Como podemos observar a esta altura, a palavra menos indicada para rotular os fenômenos de clarividência é exatamente clarividência, que pouco ou nada tem a ver com a visão, tal como a entendemos.