VIII
Spence, é uma" exaltação das faculdades perceptivas, característica dos estados de hipnose". Claro, portanto, que se rotularmos o fenômeno da clarividência como hiperestesia, em nada estaremos alterando o fenômeno, que se resume precisamente numa exaltação da faculdade de perceber certas coisas que, em estado normal, não são percebidas. Como ficamos? Lembra ele, ainda, que há aparentes fenômenos dessa natureza quando 'clarividentes profissionais' fingem a faculdade, mas na realidade já mandaram colher as informações de que necessitavam para produzir um fenômeno, recorrendo à fraude. Estas objeções do sr. Spence devem ser admitidas, porque há realmente gente que frauda e mistifica, até mesmo com os mais sérios fenômenos especialmente aqueles que cometem a ousada imprudência de profissionalizar tais atividades, que não se destinam à comercialização. Estamos bem conscientes de que este aqui pode espiar por uma fresta disfarçada, na venda que lhe puseram aos olhos, ou aquele outro possivelmente tenha mandado antes investigar o seu cliente em perspectiva e depois lhe faça 'revelações' surpreendentes. Mas, e os fenômenos autênticos, como são explicados pelo sr. Spence? Com venda ou sem venda, como pode alguém descrever fraudulentamente um evento que está acontecendo naquele momento a dezenas ou centenas de quilômetros de distância? Observamos, assim, que o ilustre autor discorre sobre a fraude na clarividência, mas nada diz - nada mesmo - acerca da clarividência em si mesma. E, no entanto, escreve um verbete para explicar em que consiste esse fenômeno ... Encerra o seu artigo com outra afirmativa inaceitável: "A palavra clarividência também é utilizada para indicar a faculdade de ver espíritos desencarnados e, por isso, é aplicada à mediunidade em geral." Negativo. Mediunidade é uma palavra genérica que abrange várias faculdades. A clarividência é uma delas e nem sempre de conteúdo mediúnico, como ainda veremos mais adiante. Dizer que todo médium é clarividente ou, vice-versa, que os clarividentes são médiuns, necessariamente, é incorreto, para dizer o mínimo. Não colhemos, pois, grande coisa de aproveitável no verbete do sr. Lewis Spence. Vejamos outro autor, o sr. Nandor Fodor, na sua volumosa An encyclopaedia of psychic science, na qual encontraremos mais informação e menos opinião do que no sr. Spence. Para o prof. Fodor, que deixou importante obra no campo de estudo de sua especialização, a definição de clarividência adotada é a de JB. McIndoe, que a caracteriza como "maneira e percepção que resulta na apresentação de uma imagem visual na mente consciente. Essa percepção pode ser de objetos, cenas ou formas distantes no espaço e no tempo, passado e futuro". (Fodor, Sandor.) Apesar de bem abrangente a definição, o dr. Fodor acrescenta que, em alguns casos, como em sonhos, e principalmente em transe, nos quais consciência está ausente, as formas podem estar não apenas distantes no espaço e no tempo, mas, também, em "outro plano de existência", ou seja, a visão dos seres espirituais". A clarividência, portanto, é para o autor uma faculdade que permite ao sensitivo deslocar-se no tempo (rumo ao passado ou ao futuro) e no espaço, bem como perceber a presença de espíritos desencarnados. Em princípio, estamos de acordo. Veremos daqui a pouco de que maneira pretendemos colocar esses aspectos. Lembra o prof. Fodor que Richet propôs a palavra criptestesia para catalogar tais fenômenos como clarividência propriamente dita e mais premonição, monição (palavra de origem latina que quer dizer advertir, ou seja, um aviso), psicometria, radiestesia e telepatia. Myers cunhou outra palavra para substituir telepatia - telestesia - mas limitou seu emprego, conceituando-a como "percepção à distância de objetos e situações por meio da ligação psíquica com o local ou ambiente e, ainda, independentemente da comunicação telepática". O prof. Fodor vê a clarividência desdobrada em quatro aspectos distintos: 1) clarividência radiológica (visão com efeito Raio-X); 2) clarividência médica; 3) clarividência itinerante; e 4) clarividência de exibição. A primeira é a que proporciona condições de perceber o conteúdo dos espaços fechados, como caixas, envelopes, salas, livros etc., a segunda é a faculdade de ver os mecanismos internos do corpo humano, próprio (autoscopia) ou de terceiros, bem como diagnosticar os males observados; a terceira implica deslocamento do que Fodor chama "centro de percepção", e a qual, é a vidência de espíritos. A classificação proposta é didática e até faz a concessão de incluir a vidência espiritual, o que nem sempre encontramos em autores devotados à pesquisa científica, como Fodor. Seu esquema, contudo, deixa-me com algumas dúvidas. Não me parece correto caracterizar a chamada clarividência radiológica como a que permite ao sensitivo perceber o conteúdo de caixas, envelopes ou cômodos afastados. Pelo menos os exemplos com os quais ele pretende ilustrar sua classificação não me convenceram. Se, como fez Richet e Ossovieck, escrevermos uma frase num papel, dobrá-lo e colocá-lo dentro de um ou dois envelopes e lacrá-los, não me parece que a visão radiológica consiga ler o texto, por causa da superposição das letras, devido à dobragem do papel. Além do mais, tanto no caso de Richet como em experiência, também citada, de Thomas Edison com Reese, as frases foram elaboradas pelos próprios experimentadores, não ficando, portanto, excluída a possibilidade de um fenômeno telepático. Sem dúvida, porém, há sensitivos capaz de ler ou, pelo menos ter uma noção razoavelmente precisa do conteúdo de papel encerrado em um ou mais envelopes ou dentro de uma caixa. Só não me parece adequado supor que isto seja devido a uma vidência radiológica. O nome deve ser outro, quando excluída a possibilidade da telepatia, como acabamos de observar. A expressão clarividência radiológica, contudo, aplica-se bem ao fenômeno da autoscopia, na qual o sensitivo vê os seus próprios órgãos internos em pleno funcionamento e localiza os seus problemas de saúde. Essa classificação, portanto, ficaria melhor se conjugada com a que Fodor chama de "clarividência médica". Quanto a esta, porém, tenho também minhas dúvidas de que o mecanismo de clarevidência mesmo ou se entra aí um fator mediúnico, isto é, se é o espírito do próprio sensitivo que, desdobrado, tenha condições de acesso a conhecimentos médicos arquivados na sua memória integral ou se ele recebe informações por via mediúnica de um espírito que disponha de tais conhecimentos e que ali esteja disposto a ajudá-lo. 5. CASOS TÍPICOS E ATÍPICOS Quanto à clarividência itinerante (traveling clairvoyance, em inglês) é uma expressão correta e confere com os ensinamentos dos espíritos a Kardec, bem como com as observações de Boddington e de outros, como ainda veremos, ou seja, o espírito do sensitivo se desdobra com o seu perispírito, viaja, (daí o verbo to travel) e vai ao local onde estão ocorrendo, naquele momento, os fatos que descreve através do seu corpo. O fenômeno é anímico, ainda que possa ter, eventualmente, a participação de espíritos desencarnados. Não devemos, contudo, esquecer um elemento complicador aqui. É que essa viagem ou deslocamento também ocorre no tempo, ou seja, o sensitivo tanto pode ir ao passado como ao futuro. Eis onde e como os fatos parecem confirmar a tese de A memória e o tempo, segundo a qual o tempo é também um local. Sobre a clarividência de exibição (platform clairvoyance, em inglês) é pratica muito difundida na Inglaterra e também nos Estados Unidos. Consiste em subir o médium em um estrado ou plataforma (daí o seu nome) e fazer 'demonstrações de clarividência', identificando espíritos presentes e transmitindo recados a pessoas, na platéia. Não seria justo condenar sumariamente a prática rotulando-a de fraudulenta, porque há sensitivos com faculdades que permitem feitos como esse; no entanto, ela costuma ser exercida profissionalmente, mediante um cachê previamente combinado, prática que a doutrina espírita condena formalmente, Daí o esforço de muitos sensitivos para desenvolver logo faculdades em potencial, para a glória mais ou menos fácil na plataforma, ou seja, do palco, açodamento que Boddington condena com veementes palavras, embora não condene a profissionalização em si. O dr. Nandor Fadar coletou alguns casos para ilustrar o seu quadro classificatório das diversas modalidades de clarividência, e não é difícil observar na sua exemplificação as dificuldades que oferece uma exata conceituação do que é realmente clarividência. O caso Edison/Reese, por exemplo. O grande inventor, situado num cômodo distante, escreveu num pedaço de papel a seguinte frase pergunta: Existe algo melhor do que o hidróxido de níquel para uma bateria elétrica alcalina?" Em seguida, foi ao encontro de Reese que lhe disse prontamente: "Não, não há nada melhor do que o hidróxido de níquel para uma bateria alcalina". Não se pode negar, sumariamente, a possibilidade da clarividência neste caso, mas uma vez demonstrada como está, a telepatia explica o fenômeno com maior simplicidade. O mesmo ocorre com Richet, que escreveu um texto assim: "O mar nunca se mostra tão grande como nos momentos em que está calmo. A fúria o diminui". Ossovieck acabou decifrando o texto, não como se o estivesse lendo, mas por aproximações sucessivas. "Vejo muita água, muita água ... - começou ele. O senhor deseja ligar alguma idéia ao mar...Não vejo mais nada!" Não parece que ele estivesse vendo as imagens diretamente no papel, mas, sim, as que por certo estariam no pensamento do eminente médico e fisiologista francês. Nada vejo aí de radiologia mental, com todo o respeito pelo prof. Fodor.
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