Ensaio de Interpretação sobre a Doutrina dos Anjos Decaídos
Se remontarmos, agora, à origem da raça atual, simbolizada na pessoa de Adão, encontraremos todos os caracteres de uma geração de Espíritos expulsos de um outro mundo e exilados, por razões semelhantes, na Terra, já povoada por homens primitivos, mergulhados na ignorância e na barbárie, e que tais exilados tinham por missão fazê-los progredir, trazendo para o seu meio as luzes de uma inteligência já desenvolvida. Não é, com efeito, o papel até aqui representado pela raça adâmica? Relegando-a para esta terra de trabalho e de sofrimento, Deus não teria razão para dizer: "No suor do rosto comerás o teu pão"4? Se, por causas semelhantes às que vemos hoje, ela mereceu tal castigo, não será justo dizer que se perdeu por orgulho? Na sua mansuetude não lhe poderia prometer que lhe enviaria um Salvador, isto é, aquele que deveria iluminar o caminho a seguir para alcançar a felicidade dos eleitos? Este Salvador foi enviado na pessoa do Cristo, que ensinou a lei do amor e da caridade como a verdadeira âncora da salvação. Aqui se apresenta uma importante consideração. A missão do Cristo é facilmente compreendida admitindo-se que são os mesmos os Espíritos que viveram antes e depois de sua vinda, e que puderam aproveitar-se de seu ensino, ou do mérito de seu sacrifício; sem a reencarnação, porém, é mais difícil compreender-se a utilidade desse mesmo sacrifício para Espíritos criados posteriormente à sua vinda, pois Deus os teria criado manchados por faltas cometidas por aqueles com os quais não tiveram nenhuma relação. Esta raça de Espíritos parece ter completado seu tempo na Terra. Nesse número, uns aproveitaram o tempo para progredir e mereceram ser recompensados; outros, por sua obstinação em cerrar os olhos à luz, esgotaram a mansuetude do Criador e mereceram castigo. Assim será cumprido este preceito do Cristo: "Os bons ficarão à minha direita e os maus à minha esquerda"5. Um fato parece apoiar a teoria que atribui uma preexistência aos primeiros habitantes desta raça na Terra: o de que Adão, tido como o tronco, é representado com um desenvolvimento intelectual peculiar, bem superior ao das raças selvagens atuais; que em pouco tempo os seus primeiros descendentes mostraram aptidão para trabalhos de arte muito avançados. Ora, o que sabemos do estado dos Espíritos em sua origem indica o que teria sido Adão, do ponto de vista intelectual, caso sua alma tivesse sido criada ao mesmo tempo que o seu corpo. Admitindo, por exceção, que Deus lhe tivesse dado uma alma mais perfeita, restaria explicar por que os selvagens da Nova Holanda, por exemplo, já que saem do mesmo tronco, são infinitamente mais atrasados que o pai comum. Ao contrário, tudo prova, tanto pelo físico quanto pelo moral, que pertencem a outra raça de Espíritos mais próximos de sua origem e que ainda necessitam de um grande número de migrações corpóreas antes de atingirem os graus menos avançados da raça adâmica. A nova raça que vai surgir, fazendo reinar por toda a parte a lei do Cristo – lei de justiça, de amor e de caridade – apressará o seu adiantamento. Os que escreveram a história da antropologia terrestre se apegaram principalmente aos caracteres físicos; o elemento espiritual foi quase sempre negligenciado e o é necessariamente pelos escritores que nada admitem fora da matéria. Quando este for levado em conta no estudo das ciências, uma luz inteiramente nova será lançada sobre uma porção de questões ainda obscuras, porquanto o elemento espiritual é uma das forças vivas da Natureza, desempenhando um papel preponderante, tanto nos fenômenos físicos quanto nos fenômenos morais. Eis, em pequena escala, um exemplo surpreendente de analogia com o que se passa, em escala maior, no mundo dos Espíritos, e que nos ajudará a compreendê-lo6: No dia 24 de maio de 1861, a fragata Ifigênia transportou à Nova Caledônia uma companhia disciplinar composta de 291 homens. À chegada, o comandante baixou-lhes uma ordem do dia concebida assim: "Pondo os pés nesta terra longínqua, por certo já compreendestes o papel que vos está reservado. "A exemplo dos bravos soldados da nossa marinha, que servem sob as vossas vistas, ajudar-nos-eis a levar com brilho o facho da civilização ao seio das tribos selvagens da Nova Caledônia. Não é uma nobre e bela missão, pergunto? Desempenhá-la-eis dignamente. "Escutai a palavra e os conselhos dos vossos chefes. Estou à frente deles. Entendei bem as minhas palavras. "A escolha do vosso comandante, dos vossos oficiais, dos vossos suboficiais e cabos constitui garantia certa de que todos os esforços serão tentados para fazer-vos excelentes soldados; digo mais: para vos elevar à altura de bons cidadãos e vos transformar em colonos honrados, se o quiserdes. "A nossa disciplina é severa e assim tem de ser. Colocada em nossas mãos, ela será firme e inflexível, ficai certos, do mesmo modo que, justa e paternal, saberá distinguir o erro do vício e da degradação..." Aí tendes um punhado de homens expulsos, pelo seu mau proceder, de um país civilizado, e mandados, por punição, para o meio de um povo bárbaro. Que lhes diz o chefe? – "Infringistes as leis do vosso país; nele vos tornastes causa de perturbação e escândalo e fostes expulsos; mandam-vos para aqui, mas aqui podeis resgatar o vosso passado; podeis, pelo trabalho, criar-vos aqui uma posição honrosa e tornar-vos cidadãos honestos. Tendes uma bela missão a cumprir: levar a civilização a estas tribos selvagens. A disciplina será severa, mas justa, e saberemos distinguir os que procederem bem." Para aqueles homens, exilados no seio da selvajaria, a mãe-pátria não é um paraíso que eles perderam pelas suas próprias faltas e por se rebelarem contra a lei? Naquela terra distante, não são eles anjos decaídos? A linguagem do chefe não é idêntica à de que usou Deus falando aos Espíritos exilados na Terra: "Desobedecestes às minhas leis e, por isso, eu vos expulsei do mundo onde podíeis viver ditosos e em paz. Aqui, estareis condenados ao trabalho; mas, podereis, pelo vosso bom procedimento, merecer perdão e reconquistar a pátria que perdestes por vossa falta, isto é, o Céu"? À primeira vista, a idéia de queda parece em contradição com o princípio segundo o qual os Espíritos não podem retrogradar. Deve-se, porém, considerar que não se trata de um retrocesso ao estado primitivo. O Espírito, ainda que numa posição inferior, nada perde do que adquiriu; seu desenvolvimento moral e intelectual é o mesmo, seja qual for o meio onde se ache colocado. Ele está na situação do homem do mundo condenado à prisão por seus delitos. Certamente, esse homem se encontra degradado, decaído, do ponto de vista social, mas não se torna nem mais estúpido, nem mais ignorante. Será crível, perguntamos agora, que esses homens mandados para a Nova Caledônia vão transformar-se subitamente em modelos de virtude? Que vão abjurar repentinamente seus erros do passado? Para supor tal coisa, fora necessário desconhecer a Humanidade. Pela mesma razão, os Espíritos que vão ser expulsos da Terra, uma vez transplantados para a terra do exílio, não se despojarão instantaneamente do seu orgulho e de seus maus instintos; ainda por muito tempo conservarão as tendências que traziam, um resquício da velha levedura. O mesmo se deu com os Espíritos da raça adâmica exilados na Terra. Ora, não é esse o pecado original? A mancha que trazem ao nascer é a da raça de Espíritos culpados e punidos a que pertencem, mancha que podem apagar pelo arrependimento, pela expiação e pela renovação de seu ser moral. Considerado como responsabilidade de uma falta cometida por outrem, o pecado original é uma insensatez e a negação da justiça de Deus. Ao contrário, considerado como conseqüência e vestígio da imperfeição inicial do indivíduo, não só a razão o admite, mas se considera de plena justiça a responsabilidade dela decorrente. Esta interpretação dá uma razão de ser toda natural ao dogma da imaculada Conceição, do qual tanto zombou o cepticismo. O dogma estabeleceu que a mãe do Cristo não era manchada pelo pecado original. Como pode ser isto? É muito simples: Deus enviou um Espírito puro, que não pertencia à raça culpada e exilada, para encarnar na Terra e desempenhar a sua augusta missão, do mesmo modo que, de vez em quando, envia Espíritos superiores que encarnam a fim de impulsionar o progresso e apressar o desenvolvimento do orbe. Na Terra tais Espíritos agem como o verdadeiro pastor, que vai moralizar os condenados em suas prisões e lhes mostrar o caminho da salvação.
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Mês Janeiro
Ano 1862