Ensaio de Interpretação sobre a Doutrina dos Anjos Decaídos
O Cristo pronunciou uma frase notável que, como muitas outras tomadas ao pé da letra, não foi compreendida, pois ele quase sempre falava por imagens e parábolas. Anunciando as grandes transformações no mundo físico e no mundo moral, disse Ele: Em verdade vos digo que não passará esta geração sem que tudo isto aconteça 3. Ora, a geração do tempo do Cristo passou há mais de dezoito séculos sem que essas coisas tivessem acontecido. Disso devemos concluir que o Cristo ou se enganou – o que não é admissível – ou que suas palavras tinham um sentido oculto e foram mal interpretadas. Se agora nos reportarmos ao que dizem os Espíritos, não apenas a nós, mas pelos médiuns de todos os países, chegamos ao cumprimento dos tempos preditos, a uma época de renovação social, isto é, a uma época de uma dessas grandes emigrações dos Espíritos que habitam a Terra. Deus, que os havia enviado para se melhorarem, os deixou aqui o tempo necessário para progredirem. Fez-lhes conhecer suas leis, primeiro por Moisés, depois pelo Cristo; advertiu-os pelos profetas; em suas reencarnações sucessivas puderam aproveitar esses ensinos; agora os tempos são chegados e aqueles que não aproveitaram a luz, que violaram as leis de Deus e ignoraram o seu poder deixarão a Terra, onde, doravante, estariam deslocados do meio pelo progresso moral que se realiza e ao qual não poderiam trazer senão obstáculos, quer como homens, quer como Espíritos. A geração a que o Cristo se referia, não podendo ser a dos homens que viviam em seu tempo, corporalmente falando, deve ser entendida pela geração dos Espíritos que na Terra percorreram os diversos períodos de suas encarnações e que irão deixá-la. Serão substituídos por uma nova geração de Espíritos que, mais avançados moralmente, farão reinar entre si a lei de amor e de caridade ensinada pelo Cristo e cuja felicidade não será perturbada pelo contato dos maus, dos orgulhosos, dos egoístas, dos ambiciosos e dos ímpios. Pareceria mesmo, no dizer dos Espíritos, que entre as crianças que nascem atualmente, muitas são a encarnação de Espíritos dessa nova geração. Quanto aos da antiga geração, que houverem bem merecido, mas que, no entanto, não tiverem ainda atingido um grau de depuração suficiente para alcançarem os mundos mais adiantados, poderão continuar a habitar a Terra e aqui passar ainda algumas encarnações; mas, ao invés de ser isto uma punição, será uma recompensa, visto que serão mais felizes por progredirem. O tempo em que desaparece uma geração de Espíritos para dar lugar a outra pode ser considerado como o fim do mundo, isto é, do mundo moral. Em que se tornarão os Espíritos expulsos da Terra? Os próprios Espíritos nos dizem que aqueles irão habitar mundos novos, onde encontrarão seres ainda mais atrasados que os daqui, aos quais estão encarregados de fazer progredir, transmitindo-lhes o produto dos conhecimentos que já adquiriram. O contato do meio bárbaro em que se acham ser-lhes-á uma cruel expiação e uma fonte de incessantes sofrimentos, físicos e morais, dos quais terão tanto mais consciência quanto mais desenvolvida for a sua inteligência; mas essa expiação será, ao mesmo tempo, uma missão que lhes oferecerá os meios de resgatar o passado, conforme a maneira pela qual a desempenharem. Aí sofrerão uma série de encarnações, durante um período de tempo mais ou menos longo, no fim do qual os que tiverem merecimento serão retirados para mundos melhores, talvez a Terra, que, então, será uma morada de felicidade e de paz, enquanto os da Terra, por sua vez, ascenderão gradualmente até o estado de anjos ou puros Espíritos. É muito demorado, dirão alguns. Não seria mais agradável ir diretamente da Terra ao Céu? Sem dúvida, mas com esse sistema tendes a alternativa de ir, de uma só tacada, da Terra para o Inferno, e pela eternidade das eternidades; ou, então, admitir que a soma das virtudes necessárias para ir diretamente da Terra ao Céu, sendo muito rara, poucos homens estarão seguros de as possuir. Disso resulta que maior é a probabilidade de se ir para o inferno do que para o paraíso. Não é preferível fazer uma caminhada mais longa e estar seguro de chegar ao fim? No estado atual da Terra ninguém se preocupa de a ela voltar, e nada a isso obriga, pois depende de cada um, enquanto aqui se encontra, progredir de tal modo que possa merecer ascender a orbes mais adiantados. Nenhum prisioneiro, saindo da prisão, preocupa-se em voltar para ela; o meio é muito simples: apenas não cair em nova falta. Também o soldado acharia muito cômodo tornar-se marechal de um só golpe; todavia, conquanto houvesse sido alçado ao mais alto posto, nem por isto estaria dispensado de conquistar as esporas. Remontemos agora ao curso dos tempos; e do presente, como ponto conhecido, procuremos deduzir o desconhecido, ao menos por analogia, se não tivermos a certeza de uma demonstração matemática. A questão de Adão, como tronco único da espécie humana na Terra é, como se sabe, muito controvertida, porque as leis antropológicas lhe demonstram a impossibilidade, sem falar dos documentos autênticos da história chinesa, que provam que a população do globo remonta a uma época muito anterior à atribuída a Adão pela cronologia bíblica. Então a história de Adão é pura invencionice? Não é provável; é uma imagem que, como todas as alegorias, deve encerrar uma grande verdade, cuja chave só poderá ser dada pelo Espiritismo. Em nossa opinião, a questão principal não é saber se a personagem de Adão realmente existiu, nem em que época viveu, mas se a raça humana, designada como sua posteridade, é uma raça decaída. A solução dessa questão não é destituída de conteúdo moral, porque, esclarecendo-nos quanto ao passado, pode orientar a nossa conduta para o futuro. Antes de mais, notemos que, aplicada ao homem, a idéia da queda, sem a reencarnação, é um contra-senso, assim como a responsabilidade que carregássemos pela falta de nosso primeiro pai. Se a alma de cada homem é criada ao nascer, é que não existia antes; não terá, desse modo, nenhuma relação, nem direta, nem indireta, com a que cometeu a primeira falta, o que nos leva a indagar como poderia ser responsável por sua própria queda. A dúvida sobre este ponto conduz naturalmente à dúvida ou, mesmo, à incredulidade sobre muitos outros, porquanto, se falso o ponto de partida, igualmente falsas devem ser as conseqüências. Tal o raciocínio de muita gente. Pois bem! esse raciocínio cairá se considerarmos o espírito, e não a letra do texto bíblico, e se nos reportarmos aos princípios mesmos da Doutrina Espírita, destinados, conforme já foi dito, a reavivar a fé que se extingue. Notemos, ainda, que a idéia dos anjos rebeldes, dos anjos decaídos e do paraíso perdido se acha em quase todas as religiões e, como tradição, entre quase todos os povos. Deve, pois, fundamentar-se numa verdade. Para compreender o verdadeiro sentido que se deve ligar à qualificação de anjos rebeldes, não é necessário supor uma luta real entre Deus e os anjos, ou Espíritos, desde que o vocábulo anjo é aqui tomado numa acepção geral. Admitindo-se sejam os homens Espíritos encarnados, o que são os materialistas e os ateus senão anjos ou Espíritos em revolta contra a Divindade, pois que negam a sua existência e não reconhecem seu poder, nem suas leis? Não é por orgulho que pretendem que tudo aquilo de que são capazes vem deles mesmos, e não de Deus? Não é o cúmulo da rebelião pregar o nada depois da morte? Não são muito culpados os que se servem da inteligência, de que se ufanam, para arrastar os semelhantes ao precipício da incredulidade? Até certo ponto não praticam também um ato de revolta os que, sem negar a Divindade, desconhecem os verdadeiros atributos de sua essência? Os que se cobrem com a máscara da piedade para cometer más ações? Os que a fé no futuro não os desliga dos bens deste mundo? Os que em nome de um Deus de paz violentam a primeira de suas leis: a lei de caridade? Os que semeiam perturbação e ódio pela calúnia e pela maledicência? Enfim aqueles, cuja vida, voluntariamente inútil, se escoa na ociosidade, sem proveito para si próprios, nem para os seus semelhantes? A todos serão pedidas contas, não só do mal que tiverem feito, mas do bem que tiverem deixado de fazer. Pois bem! todos esses Espíritos, que tão mal empregaram as suas encarnações, uma vez expulsos da Terra e enviados a mundos inferiores, entre hordas ainda na infância da barbárie, o que serão, senão anjos decaídos, remetidos à expiação? A terra que deixam não será para eles um paraíso perdido, em comparação ao meio ingrato onde ficarão relegados durante milhares de séculos, até o dia em que tiverem merecido a libertação?
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Mês Janeiro
Ano 1862