Certamente algumas pessoas acharão esta interpretação um pouco ortodoxa. Algumas, até, poderão protestar que se trata de heresia. Mas não é um fato comprovado que muitos não vêem no relato do Gênesis, na história da maçã e da costela de Adão senão uma simples imagem? Que não podendo ligar um sentido preciso à doutrina dos anjos decaídos, dos anjos rebeldes e do paraíso perdido, consideram todas essas coisas como fábulas? Se uma interpretação lógica os leva a ver uma verdade disfarçada sob a alegoria, não é melhor que a negação absoluta? Admitindo-se que tal solução não estivesse, em todos os pontos, na mais rigorosa ortodoxia, não seria preferível acreditar nalguma coisa a não crer em coisa alguma? Se a crença no texto literal afasta o homem de Deus e a crença na interpretação o aproxima dEle, esta não vale mais que a outra? Não vimos, pois, destruir o princípio, miná-lo em seus fundamentos, como fizeram alguns filósofos; procuramos descobrir-lhe o sentido oculto e, ao contrário, vimos consolidá-lo e dar-lhe uma base racional. Seja como for, não se poderá negar a esta interpretação um caráter de grandeza que certamente não possui o texto literal. Esta teoria abarca, ao mesmo tempo, a universalidade dos mundos, o infinito no passado e no futuro; dá a tudo a sua razão de ser pelo encadeamento de todas as coisas, pela solidariedade que estabelece entre todas as partes do Universo. Não é mais conforme à idéia que fazemos da majestade e da bondade de Deus, que o entendimento que circunscreve a Humanidade a um ponto do espaço e a um instante na eternidade?