Depois da visão de grande quantidade de água na mina de carvão, (posteriormente confirmada), ela percebe que o homem está morrendo, a sangrar pela boca, pelo nariz e pelos ouvidos. Uma visão que a deixa arrasada que para Jones é reveladora. Ele se lembrou, então, de que realmente morrera um homem naquelas condições, cerca de vinte anos atrás, vitimado por uma inundação. Foi retirado ainda com vida, mas morreu quatro semanas depois. O filho nasceu horas antes de ele morrer. A família guarda o pedaço de carvão como lembrança. Fora retirado por ele.
Como é que tudo isso pode resultar do simples contato com um fragmento de carvão?
Como pode um pedaço de carvão revelar a tragédia de um homem vivida vinte anos antes? Como poderia saber Hawthorne que os pensamentos dele se voltavam, naquele momento, para a mulher e a criança prestes a nascer?
Compulsando uma pequena amostra de terra colhida perto de um velho muro com uma colher e posta numa caixinha que lhe foi remetida, a srta. Hawthorne vê arqueólogos estudando as ruínas de um castelo que ela identifica como o de Dudley.
Bozzano acha que ela poderia ter colhido essas imagens telepaticamente do próprio mr. Jones. É possível, mas há casos em que esta explicação não se aplica.
No exemplo seguinte, ocorre a interferência de um espírito desencarnado. Bozzano, usualmente discreto, usa uma palavra forte para caracterizar o caso: prodígio. Tudo é possível aqui, até mesmo a admissão "do mistério dos 'clichês astrais' dos ocultistas, ou das impressões do ákasa, dos teósofos".
Como se observa, isto vai dar muito perto das fotografias da natureza de que há pouco nos falava o prof. Denton.
7. O POMBO PENSANTE
Apelo para a paciência do leitor a fim de estudarmos juntos o caso do pombo-correio, uma das coisas mais estranhas do livro.
A história começou assim: o sr. Jones separou um pombo-correio, remeteu-o, dentro de uma cestinha, de trem, a uma cidade distante e lá a ave foi solta. Ao chegar de volta ao seu pombal, tiraram-lhe uma pena e a enviaram à srta. HawThorne, com as precauções de praxe, para que ela não viesse a saber do que se tratava.
Ela percebe logo que se trata de uma pena. Observem, a seguir, a inexplicável penetração da mente da moça nas emoções do pequenino ser alado. Escreve ela: Esta pena esteve encerrada num ambiente muito apertado - um cesto! O pequeno corpo de seu dono é qual feito de nervos, cujas vibrações o fazem parecer trêmulo: mas a verdade é que ele não treme de medo. E se bem que esteja encerrado no cesto, parece ter compreensão de que será sem demora libertado. Viaja por estrada de ferro, pois estou sentindo as trepidações do trem. (Idem) Percebem? A moça está viajando com o animal e sabendo o que se passa na cabecinha dele! Quando o soltam, ela o vê voar e subir, subir, descrevendo círculos, em busca de orientação. (Era de uma raça de pombos que tem por hábito subir mais do que as outras). E ela continua como que a voar com ele, acompanhando-lhe as emoções.
A voar sempre mais alto, não sabe ainda onde paira e tudo que o rodeia parece-lhe novidade, (Atenção, leitor, para o que vem a seguir). Nessa trepidação nervosa, vai ele subindo sempre, até entrar de repente em contato com uma força sutil, ou corrente magnética, que o põe em correspondência com o seu pombal. (Idem) Ou seja, há uma trilha magnética que ele é capaz de captar com sua sensibilidade o que o liga com a sua casa à distância de muitos quilômetros, Prossegue Hawthorne: Ele percebe a corrente magnética mas, enquanto não se julga seguro do contato dessas vibrações sutis, parece experimentar como que uma ansiedade nervosa.
Desde, porém, que o contato se estabeleceu, vai-se-lhe aquela ansiedade, readquire confiança, executa algumas evoluções e voa em flecha na direção do pombal. (Idem) Dificuldades de orientação ocorrem quando ele sobrevoa cidades, das quais parecem subir vibrações desarmônicas que baralham a sua rota, mas ele consegue vencê-las.
Se o leitor está pensando que tudo não passa de imaginação da moça pode desistir, porque não é. Quando o pombo se aproxima do final da sua jornada, novas tensões o aguardam. Primeiro, é o seu receio perante uns meninos que, ele teme, desejam agarrá-lo.
Hawthorne observa: Não há dúvida de que isto já lhe tenha ocorrido, pois de outra forma não se explicaria esse temor de ser enclausurado noutra casinha que não a sua.
Mr. Jones confirma. Esse pombo foi certa vez agarrado fora de casa ficou prisioneiro por algumas semanas.
E novamente Hawthorne comprova que não é a sua imaginação que está solta, mas a sua sensibilidade é que está ligada no pombinho: Haverá, nas proximidades do pombal, dois gatos, um de pêlo rajado outro de focinho preto com malhas brancas? É que ambos infundem grande ansiedade ao pobre pombo.
Há, sim, "Um gato rajado, cinzento e outro preto e branco" - esclarece Jones - "ambos vivendo da pilhagem em torno dos pombais".
Como todas as demais impressões verificáveis são confirmadas, Bozzano é levado a concluir que as não-verificáveis são, também, dignas de crédito com a curiosa observação acerca da trilha magnética que o leva de volta ao pombal.
E ficamos confundidos ante o caso misterioso dessa sensitiva que tifica com a débil mentalidade de um pombo, a ponto de viver a sua vida e experimentar as sensações, percepções e sentimentos emocionais ou afetivos que angustiavam aquela minúscula personalidade na trajetória do seu retorno ao pombal. (Idem) E veja bem o leitor: tudo isso a partir de algo recebido dentro de um envoltório inviolável que, em princípio, ela não sabia que continha uma simples pena de ave!
8. PSICOMETRIA AMBIENTAL
Do livro By the ioniam sea, do escritor inglês George Gissing, Bozzano extrai interessante relato em que o autor experimenta visões de um vaso ornamental e de uma belíssima pedra tumular e, em seguida: Sucederam-se, então, outras visões desdobradas e desenvolvidas em dimensão e complexidade: presenciei cenas da existência social dos antepassados, vi ruas cheias de gente, cortejos triunfais, procissões religiosas, salões festivos e campos de batalha.
O que mais me admirava era o colorido maravilhoso dos ambientes. Impossível dar uma idéia do esplendor desbordante das cores que tonalizavam cada cena! (Idem) Uma dessas visões fantásticas foi a do episódio em que Aníbal, em Crotona, na Itália, após a segunda guerra púnica, fez massacrar todos os seus soldados, na praia.
O drama daquela carnificina se desenrolou a meus olhos nas suas mínimas particularidades. E tudo aquilo resplandecia à luz de um sol maravilhoso, sob a cúpula de um céu transparente e de tal modo fascinante que, só de evocar, ainda me sinto deslumbrado de tanta luz e tanta cor. (Idem) Neste episódio, fico em dúvida se se trata de uma psicometria do ambiente ou de uma regressão da memória espontânea do próprio escritor, que teria participado de tais eventos.
Não há dúvida, contudo, de que é possível tanto uma coisa como outra. O médium brasileiro Divaldo Pereira Franco contou-me, certa vez, suas dificuldades ao dormir em hotéis, porque fica a ouvir pela noite afora, diálogos ocorridos ali, como que comunicados a ele através dos travesseiros. Os fenômenos eram tão freqüentes que ele passou a levar, na mala, seu próprio travesseiro.
Da revista Light (1904, p, 131), Bozzano extrai caso semelhante ao de Divaldo. Era uma senhora Katherine Bates, escritora espírita que também dispunha dessa faculdade de psicometrar - praticamente à sua revelia - os ambientes em que repousava.
Escreve ela: Aconteceu-me mais de uma vez ter de deixar um quarto de hotel, belo e confortável, por outro pequeno e escuro, isto por se me tornar insuportável a atmosfera mental ou moral gravada no ambiente por qualquer dos seus ocupantes anteriores.
(Bozzano,1904).
Certa vez, em casa de uma amiga, experimentou tal sensação num belo quarto que lhe foi destinado. Era a influência de um homem, diz ela.
O que me revelava essa influência era uma forte sensualidade, de criatura não má, mas fraca e inteiramente entregue às circunstâncias e aos seus pendores hereditários, à falta de poderes inibitórios. (Idem) Sutilmente, ela começou a investigar a situação, pois a amiga tinha dois filhos homens.
Um deles ela conhecia e nada tinha daqueles traços. O mais velho ela não conhecia pessoalmente. Sem dizer, de início, a razão, pediu para ver o seu retrato e logo viu (ou sentiu) que não era aquele homem que deixara suas vibrações no quarto. Ela explicou à amiga o porquê das suas pesquisas, já aliviada de que aquilo nada tinha a ver com os filhos dela. Esta contudo, inteiramente avessa a tais fenômenos, taxou logo de fantasias as experiências da outra: Então, disse-lhe: Agora que vive a prova de que não se trata do seu filho, vou descrever minuciosamente o caráter do individuo que ocupou este quarto.
Ao cabo da descrição, a outra olhou-a perplexa, retirou-se por um momento e voltou com o retrato de um homem: Confesso que você acabou de descrever exatamente este meu cunhado, que, de tato, muitas vezes ocupou esse quarto, se bem que meus filhos o fizessem depois dele.
Estava esclarecido o mistério, era o cunhado.
9. PSICOMETRIA E MEDIUNIDADE
O difícil nestes relatos é escolher os casos, dentre os muitos que temos à disposição, mas se o leitor tiver mais um pouco de paciência, vou resumir um deles, um clássico do tipo psicométrico e que nos servirá de apoio, juntamente com os dois antecedentes, para algumas conclusões que convém antecipar.
A narrativa é de Hugh Junior Brown, rico banqueiro de Melbourne, Austrália, em cuja família passou-se o caso. É preciso acrescentar que Brown é também autor de um excelente livro sobre os problemas da mediunidade, a que deu o título de The holy truth (A verdade sagrada) que teve a honra de ser muito bem acolhido e citado por Frederico W. Myers na sua obra-prima. A sobrevivência humana à morte corporal, um dos clássicos da literatura psíquica. O trabalho de Brown foi publicado na revista Light em 1908, na página 117.