IX
Não sei bem se isso é velocidade mesmo, Regina tem às vezes tal sensação quando algum espírito deseja transmitir-lhe uma informação ou um relato mais longo. É como se 'despejassem' em sua mente, de uma só vez, todo o relato. Mozart experimentava sensação semelhante quando 'ouvia' por antecipação toda uma sonata ou sinfonia, ainda a compor, resumida num só acorde. Não parece, pois, que o relato, as imagens ou sons sejam projetados com velocidade e, sim, que o ritmo no plano de onde provêm tais fenômenos é diferente do nosso aqui, no mundo material. Aliás, discutimos ligeiramente esse aspecto ao especular acerca de penetração no futuro. Dizíamos, então, que as coisas ocorrem lá, em ritmo muito mais acelerado e se, por um mecanismo qualquer de 'viagem' no tempo, conseguirmos acelerar momentaneamente o nosso próprio ritmo, vamos ao futuro, vemos as coisas que estão acontecendo lá e, em seguida, recaímos no nosso passo lento de tartarugas cósmicas. Voltemos, porém, à psicometria, pois esses assuntos de tempo me deixam usualmente em órbita... Outro aspecto que assinala o prof. Fodor é o de que as visões psicométricas podem ser reduzidas em tamanho ou sobrepor-se a todo o ambiente onde se encontra o sensitivo, o que nos faz lembrar a 'janela psíquica' de Regina, Na psicometria ou em qualquer faculdade, as técnicas e os métodos de cada sensitivo podem variar, mas o resultado é sempre o mesmo e sempre fascinante. Alguns, mal tocam o objeto a ser psicometrado, são imediatamente transportados ao local desejado; outros parecem demorar-se um pouco mais. Há os que rasgam um pedaço do papel, por exemplo, se esse for o caso, e o colocam na boca; há os que tomam o objeto e o colocam sobre a testa ou sobre o plexo solar. Há os que o tomam nas mãos e ficam a acariciá-lo ou a apalpá-lo. Alguns entram numa espécie de transe (desdobramento:), outros não, conservam a sua lucidez. O traço mais comum é o relaxamento de corpo e mente, um estado de passividade. Outros parecem ficar tensos. Um dos grandes sensitivos do passado, o engenheiro polonês Stephan Ossoviecki, escreveu: Começo por parar de pensar e dirijo todo recurso interior no sentido da percepção espiritual. Afirmo que essa condição é alcançada pela minha fé inabalável na unidade espiritual de toda a humanidade. (Fodor, Nandor 1969). Prossegue o famoso sensitivo descrevendo suas sensações até que, de repente, vê a pessoa que escreveu a carta (se é esse o caso). Se se trata de um objeto perdido, ele vê, com todos os pormenores, em que condições foi perdido. 4. UM POUCO DE TEORIZAÇÃO Ernesto Bozzano colocou a psicometria entre os fenômenos de telestesia, como se vê no subtítulo de seu valioso estudo Os enigmas da psicometria. Logo de início, conceitua ele a psicometria como "uma das modalidades da clarividência" e, por isso, também envolvida dos enigmas da outra. Entende, ainda, que os objetos são meros 'estimulantes' à produção do fenômeno, destinados a estabelecer uma relação entre o sensitivo e as pessoas envolvidas, encarnadas ou desencarnadas. Com o devido respeito pelo eminente e competente estudioso, tenho certas dúvidas sobre isso. É que vejo o objeto mais como uma espécie de 'sintonizador' do que como 'estimulante' e nem sempre há pessoas envolvidas no fenômeno. Aliás, o próprio Bozzano com o cuidado que o caracteriza, apresenta fenômenos bem-documentados em que o sensitivo não ficou 'ligado' a ninguém em particular, mas a objetos inertes, plantas ou animais irracionais. Vimos, ainda há pouco, a sra. Denton acompanhar a trajetória cósmica de um meteorito, desde a sua formação. Em outro ponto deste livro lembramos as experiências feitas, no México, com a sra. Maria Reyes de Zierold que se identificou com uma pedra, uma concha marinha, e com uma semente de planta tropical. O prof. Bozzano recorre à hipótese semelhante à de Ossoviecki há pouco mencionada, ou seja, a de que há uma "lei de afinidade eletiva" que une as pessoas aos objetos. Ainda que o termo fluido seja um tanto vago, há por certo, uma ligação magnética qualquer, acho eu, não apenas entre pessoas e objetos, mas, também e principalmente, entre as pessoas como nos propõe Ossoviecki. Como diziam os antigos místicos e ocultistas, toda a vida é solidária entre si. A vida é uma coisa só, proclamava Silver Birch, partilhada por tudo quanto vive sobre a terra. Emmanuel diz que o ser humano, dorme na pedra, sente na planta, sonha no animal e pensa no ser humano. Se dorme é porque já está lá mesmo, na pedra. O dr. Albert Schweitzer pregou a doutrina da reverência pela vida, por entender também una, embora partilhada por todos, cada qual com a sua fagulha pessoal, doação divina que nos faz indestrutíveis e imortais, com tudo o potencial da perfeição. Se somos filhos da luz não há como fugir à evidência de que somos também luz, ainda que não realizada. Sobre isto, certo espírito nos ensinou, certa vez, belíssima lição. 5. PAUSA PARA UMA HISTORINHA INSTRUTIVA Vinha de séculos e séculos de equívocos lamentáveis. Sua experiência ou, pelo menos, a que mais fundamente se gravara no seu psiquismo, fora num convento a que fora recolhida contra a sua vontade porque a mãe a consagrara, ao nascer, à Virgem Maria. Não era, porém, o convento que ela queria e, sim, a vida normal de uma jovem de seu tempo. Além do mais, era dotada de faculdades mediúnicas. Via espíritos, conversava com eles e até os deixava incorporarem-se nela. E, o que é mais grave, em momentos absolutamente impróprios. Seja porque não tivesse controle de sua mediunidade, seja porque os espíritos se aproveitavam da oportunidade para produzir certas manifestações no convento, foi um desastre total a sua vida em termos de comportamento conventual. Saiu dali para o mundo espiritual ainda perturbada e revoltada com aquilo tudo, odiando pessoas que a haviam submetido a verdadeiras torturas morais e algumas até físicas. Viveu esse ódio irracional e exerceu o quanto pôde a sua vingança sobre aquelas que, em vida, a fizeram sofrer. Com isto, perturbava-se cada vez mais. Um dia, reunindo alguma fé encontrada entre os escombros das suas vidas, orou por um momento e foi socorrida, esclarecida e retirada daquela condição aflitiva em que vivera tanto tempo, em desatino. Começou a refazer suas idéias e a buscar novos caminhos rumo à paz. Num desses momentos, orando novamente, teve uma visão extraordinária: via-se como que envolvida em um manto escuro, numa atmosfera densa de sombras que ia com ela a toda parte. Estranhamente, porém, tudo o mais a sua volta estava mergulhado em plena luz. Percebeu imediatamente a lição. O universo era todo luz e para que ela se integrasse naquela luminosidade bastava eliminar, por um esforço de vontade, as sombras que a envolviam. É nessa atmosfera de luz que vivemos todos. Cada um o diz à sua maneira, mas é tudo uma só realidade. Paulo declarou que "vivemos e nos movemos em Deus e nele temos o nosso ser"; os ocultistas falam da solidariedade da vida; Bozzano declara sua convicção no fluido universal, tal como os espíritos o disseram a Kardec: André Luiz chama isso de "plasma divino" e acrescenta: "Nesse elemento primordial, vibram e vivem constelações e sóis, mundos e seres, como peixes no oceano." Há, portanto, um vínculo entre tudo e todos e tem de haver mesmo porque é o amor que sustenta o universo. Através desse fluido, vínculo ou plasma, os seres e as coisas se entendem na linguagem inarticulada das imagens, dos sons, das emoções. Bozzano acrescenta mesmo que a existência dessa ligação seres/coisas é "conclusão corroborada por tantas circunstâncias, tendentes todas a demonstrá-la, que a podemos considerar como definitivamente adquirida pela ciência". Vamos, porém, a alguns casos do fichário de Bozzano, a fim de podermos esboçar algumas conclusões próprias a ver se enxergamos as coisas da mesma maneira e pelo mesmo ângulo. 6. Dos ARQUIVOS DE BOZZANO As suas primeiras transcrições dizem respeito à faculdade psicométrica da srta. Edith Hawthorne, "criatura bexigosa e enfermiça", de precário estado de saúde, anjo de bondade para muita gente, especialmente para as crianças. Fundou uma instituição para cuidar de crianças com problemas de fala. Nesses trabalhos era de uma paciência sem limites, a fim de conseguir um tratamento eficaz e tão suave, e tão carinhoso, a ponto de o transformar em distração alegre para os pequeninos enfermos. (Bozzano. Ernesto. 1930) Pois bem. Um cavalheiro por nome Samuel Jones, com quem se correspondia Hawthorne, mandava-lhe regularmente vários objetos para serem psicometrados por ela. Certa vez, foi-lhe remetido um pedaço de carvão. Naturalmente que ela não sabia do que se tratava, pois o material sempre ficava dentro de invólucros invioláveis (caixas, envelopes, pacotes etc.). Não vamos reproduzir toda a narrativa, que foi publicada na revista Light de 1903, na página 214. A moça tomou o pacote nas mãos e foi anotando suas impressões, posteriormente remetidas por carta ao sr. Jones, para análise. Hawthorne começou a ver dois ou três homens a examinarem uma parede negra. Um deles trazia uma lanterna acesa na mão. Estavam, evidentemente, fazendo uma pesquisa cuidadosa e emitiam suas opiniões cautelosamente. (Eram inspetores da mina, acrescenta Jones. O embrulho continha um pedaço de carvão de muito boa qualidade, arrancado a grande profundidade (certo). Vários homens trabalhavam ali, nas profundezas da terra, onde não chegava nem o ruído das carretas, lá em cima. Um dos homens trabalhava sozinho, numa gruta apertada, na qual ele tinha de manter-se deitado. Hawthorne sente-se aflita e ora para que não lhe aconteça nada, (Jones informa, em nota, que há muito tempo não morria ninguém ali). Hawthorne acrescenta este curioso comentário: - Coisa singular! Os pensamentos desse homem não se prendem à sua tarefa. Ele está pensando na esposa e no filho de tenra idade.
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Nome do Capítulo Psicometria