IX
Vamos resumi-lo, sem prejuízo do seu entendimento. Dois filhos de Brown, um de dezoito anos e outro de vinte, saíram a passear de barco em companhia de um empregado da firma dos próprios Brown, por nome Munay. Estariam de volta, segundo estimativas, aí pelo dia 14 de dezembro, uma segunda- feira. Isto ocorreu em 1884. Dia 15, já aflito com a demora dos filhos, Brown procurou um sensitivo por nome George Spriggs, pedindo-lhe que fosse visitar sua mulher, que caíra enferma ante a tensão, mesmo porque se opusera tenazmente ao passeio dos meninos, presa de algum pressentimento. Spriggs mergulhou logo no transe e perguntou à senhora se ela havia feito um passeio marítimo. Estava já na pista, mas ainda não acertara com o caminho. O Sr. Brown fez uma referência vaga ao problema que os preocupava, perguntando ao sensitivo se, por acaso, percebia algum sinistro: "Não posso distinguir se eles se acham no mundo espiritual mas, se me trouxer algum objeto utilizado por eles, poderei servir-me disso para os encontrar" . Sabemos que Bozzano sugere - e comprova - que alguns desses contatos por via psicométrica têm a óbvia colaboração de espíritos desencarnados e que até produzem mensagens coerentes e probantes. Mesmo esses contatos, não obstante, somente são estabelecidos depois que o sensitivo tem em seu poder um objeto sintonizador. Queria objeto pessoal precisamente para encontrar os meninos, ainda encarnados ou já desencarnados. Para encurtar a história: - foi -lhe dada uma carteira de dinheiro de um dos rapazes. Prontamente o sensitivo Sintonizou-se com o caso. Começa ele: Vejo, num pequeno barco à foz de um rio, duas velas desfraldadas ao vento, uma grande, outra menor ... (certo). Descem o rio e parecem preocupados com a entrada no mar... Vejo uma espécie de torre com um molhe de pedras à distância" (provavelmente, escreve Brown à parte, o farol de Willianstown). Agora, estão navegando em pleno mar, com terra à esquerda; nuvens pesadas, precursoras de tempestade, acumulam-se no horizonte. Ei-los que se dirigem para outro quebra-mar. (certo). Foram vistos em Bristol, no dia 14). Neste momento, esforçam-se para voltar atrás, mas o vento lhes é contrário. (Brown, Hugh Junior 1908). Os destaques são meus para evidenciar que não se trata de uma narrativa de evento passado, de quem se lembra e reconta, mas de alguém que está ali, presente, assistindo a tudo, no momento em que as coisas acontecem, embora isto seja passado enquanto o sensitivo fala. Ele está, literalmente, acompanhando a aventura vivida pelos rapazes. Em suma, o barco naufragou e morreram todos. No dia 17, em nova sessão, desta vez mediúnica, um dos meninos conseguiu, com muita dificuldade, dirigir-se à mãe, pedindo-lhe perdão e acrescentando que a culpa foi realmente sua. De fato, ele que comprara o barco e saíra contra a vontade dela. Não creio, pois, que esses espíritos estivessem em condições de lucidez suficiente para desdobrar toda aquela narrativa que o sensitivo captou com a sua clarividência diencefálica, para usarmos o termo proposto páginas atrás. No dia seguinte, contudo, estavam em melhores condições e puderam se comunicar com maiores detalhes. Mas, este caso, como se diz de maneira coloquial, é demais... No dia 31 foi visto o cadáver de um dos rapazes. Faltavam-lhe o braço esquerdo e parte do direito. E tem mais, dado que, à, vezes, a realidade é mais fantástica do que a ficção. Dia 27, em Frankstone a 27 milhas de Melbourne, um tubarão foi pescado. No estômago do animal encontraram parte do braço direito de William, um pedaço de colete, ainda com o relógio de ouro, as chaves, seu cachimbo e doze xelins em dinheiro. O relógio estava parado às nove horas, momento indicado pelo sensitivo com sendo a hora do sinistro. Para encerrar este relato, em que a realidade foi muito além da fantasia, convém acrescentar - e isto não está em Bozzano - que, anos depois, Arthur Conan Doyle, espírita convicto, e pregador incansável, discorria sobre estes fenômenos na própria Austrália, quando alguém, no auditório, o confirmou. Era o homem que havia capturado o tubarão ! 10. COMO SE PASSAM AS COISAS? Bem. Vamos ver se podemos tirar disso tudo algumas conclusões. Observa Bozzano que o sensitivo somente pode dar início às suas relações depois que apanhou a carteira de dinheiro de um dos rapazes. Tentara obter esse 'rapport' segurando as mãos da senhora, mas não o consegue. Confirmando sua tese de que não é o objeto que 'conta' a história - ele serve apenas de estimulante - Bozzano lembra que a tragédia foi posterior, isto é, somente após ter-se utilizado da carteira pela última vez é que houve o acidente. A informação, por conseguinte, não estava na carteira. O pesquisador italiano, contudo, acha que ela serviu para estabelecer o contato com espíritos desencarnados dos rapazes. O leitor já sabe do meu respeito pelo brilhante estudioso, mas, sem negar que houve esse contato, continuo a achar que o sensitivo não dependia dos espíritos dos rapazes para a sua narrativa, pois essa é a lição de outros casos, especialmente quando não há espíritos envolvidos - pelo menos aparentemente - como na dramática narrativa do pombo-correio. Certamente, Bozzano explora alternativas a essa hipótese, como a do eterno presente, mas não é nada do seu agrado esta. Aliás, ao justificar sua rejeição a essa tese, também não estou muito afinado com ele. Diz ele que essa "confusão de tempo" deve- se a causa menos transcendental, e explica: ...nos fenômenos de clarividência, em geral, é sempre o EU integral subconsciente (ou espiritual), que percebe; e nestas condições não podendo ele transmitir ao EU consciente (ou encarnado) as suas percepções, porque elas são de natureza espiritual, recorre à forma sensorial das imagens pictográficas, que, por sua mesma natureza, não podem sugerir aos sensitivos, qualquer idéia de localização no tempo. (idem). É certo que a percepção vem do espírito, e tem de ser 'traduzida' para se tornar inteligível aos circunstantes e ao próprio sensitivo. Acho, porém, que elas já se apresentam ao que Bozzano chama de "EU integral subconsciente" sob forma de imagens. O que me parece é que, estando ali a ver objetivamennte todo o episódio desenrolar-se ante sua visão diencefálica, o sensitivo não cuida de saber se aquilo é presente, passado ou futuro. Ele está apenas descrevendo o que presencia, como se estivesse assistindo a um filme ou a uma cena de teatro, ao mesmo tempo em que narra o que vê a um cego. O filme é um documento do passado, quando foi produzido. Está sendo visto através da frincha do presente, mas, para aqueles que ainda não o viram, ele é futuro, ou seja, ainda será visto. De certa forma, portanto, um filme torna- se intemporal. Nas cenas presenciadas por Gissing, que viu os soldados de Aníbal sendo massacrados, o autor inglês estava lá, naquele passado que, para ele, era presente. Se os soldados mortos naquele trágico momento fossem dotados de alguma percepção, ainda desconhecida, poderiam estar vendo Gissing, no futuro, a assistir ao massacre. O que acontece aqui, a meu ver, é que, uma vez deslocados das rígidas cadeias que nos amarram ao corpo físico e ao ambiente tridimensional em que vivemos, também nos libertamos do contexto de tempo acoplado e esta realidade de encarnados. Os consistentes depoimentos dos espíritos nos indicam que, para eles, presente, passado e futuro são uma só realidade. Se isto se chama eterno presente ou não, acaba sendo irrelevante; o que importa é que estamos em face dessa realidade, por mais fantástica que pareça. Gissing, aliás, não foi o único a assistir a cenas do passado em determinados lugares. Dois meses depois da batalha de Edge Rill, nas proximidades de Keinton, Nothamptonshire, Inglaterra, ocorrida em 22 de outubro de 1624, houve algo parecido com um moderno replay de video-tape no mesmo local. Pastores e gente da vila assistiram a todo o espetáculo, que se projetava no ar, não apenas com as imagens, mas o estrondo das armas de fogo, o relinchar dos cavalos e o gemido dos feridos. A visão durou horas e, como se repetiu durante vários dias subseqüentes, foi assistida por muita gente, alguns com melhores qualificações como observadores. A notícia chegou ao conhecimento do rei Charles I, que designou prontamente uma comissão para investigar o acontecimento. A comissão foi e viu duas vezes o fenômeno, e seus membros até reconheceram amigos entre os que se batiam, entre estes, sir Edmund Varney. O dr. Nandor Fodor lembra que Pausânias também informa que, quatro séculos depois da batalha de Maratona, ouviam-se com freqüência o fragor do conflito, o relincho dos cavalos, os gritos dos vitoriosos e os lamentos dos derrotados. Patrick Walker é citado na Biographia presbyteriana, publicada em Edimburgo em 1827, ao declarar que, em 1686, a cerca de duas milhas abaixo de Lanark, "muita gente se reuniu por várias tardes" para assistir a confrontos bélicos ali ocorridos no passado. Segundo esse depoimento, dois terços das pessoas viam e ouviam a batalha fantasmal, enquanto o restante nada percebia. O testemunho de Walker é atestado por Andrew Lang, que o classifica de "triumphantly honest" e seu relato, como a peça mais singular da psicologia, jamais escrita. Bem sabemos que muitos espíritos permanecem presos ao local onde lhes terminou a vida física, mas seria inconcebível que ali ficasse todo o efetivo de dois exércitos, repetindo, indefinidamente, os mesmos gestos, ferindo e matando as mesmas pessoas, emitindo os mesmos gritos. Quando uma pessoa assiste ao fenômeno uma só vez e sozinha, ainda se pode invocar a tese da alucinação, mas quando as cenas se repetem e são assistidas por pequenas multidões, em diferentes oportunidades, não temos como escapar de admitir que elas estão gravadas no ambiente e que, de repente, sem sabermos com, nem por que, elas se reproduzem, como se funcionasse um dispositivo de video-tape em replay. 11. A MEMÓRIA DE DEUS
TAG Valor
Nome do Capítulo Psicometria