Daqui a pouco o senhor me perguntará se comprei esta casa; depois me pedirá o preço, exigirá datas, reclamará novas informações sobre os antigos moradores, tomará meu tempo com mil interrogações ociosas. E, fixando em Saulo os olhos impassíveis, rematou de chofre: — Nada sei, está ouvindo? Ponha -se na rua!... O fugitivo de Damasco voltou serenamente para a via pública, enquanto o homenzinho dava expansão aos nervos doentes, batendo a porta com estrondo. O ex-discípulo de Gamaliel refletiu na realidade amarga daquela primeira recepção simbólica. Jerusalém, certamente, nunca mais poderia con hecê-lo. Não obstante a impressão dolorosa, não se deixaria empolgar pelo desânimo. Resolveu procurar Alexandre, parente de Cai fás e seu companheiro de atividades no Sinédrio e no Templo. Cansadíssimo, bateu -lhe à porta, com minguadas esperanças. Um servo da casa, depois da primeira per gunta, vinha trazer-lhe a alvissareira notícia de que o amo não se demoraria a atender. Com efeito, daí a pouco, Alexandre recebia o des conhecido com indisfarçável surpresa. Satisfeito por conseguir a atenção de um velho a migo, Saulo adiantou-se, cumprimentando-o com efusão. O israelita ilustre não conseguiu ocultar o desa pontamento e sentenciou com alguma generosidade nas palavras: — Amigo, a que vindes a esta casa? — Será possível que me não reconheças? — interrogou bem-humorado, apesar da imensa fadiga. — Vossa fisionomia não me é de todo estranha, en tretanto... — Alexandre! — exclamou por fim, prazenteiro —não te recordas mais de Saulo? Um grande abraço foi a resposta do amigo, que per guntava solícito, modificando o tratamento: — Muito bem! Até que enfim! Graças a Deus vejo que estás curado! Não me enganei esperando que vol tasses! Grande é o poder do Deus de Moisés! Saulo compreendeu de pronto a ambigüidade da quelas expressões. Sentindo dificuldade em fazer -se entendido, procurava o melhor meio de explicar-se com êxito, enquanto o amigo prosseguia: — Mas que aspecto é este? Olha que mais pareces um beduíno do deserto... Dize-me: quanto tempo durou a enfermidade pertinaz? Saulo encheu-se de coragem e acentuou: — Mas, há engano com certeza, ou estarás mal informado, porque nunca estive doente. — Impossível! — disse Alexandre visivelmente de sapontado depois de tantas demonstrações afetuosas. — Jerusalém anda repleta de lendas a teu respeito. Sadoc veio até aqui, há trê s anos, pedir providências enérgicas do Sinédrio para que se esclarecesse tua situação e, depois de longos debates, levou uma ordem de prisão contra ti. Desde essa época, lutei desesperadamente para que se modificassem as disposições da peça con denatória. Provei que, se havias adotado uma atitude simpática para com a gente do “Caminho”, certo, essa decisão obedecia a fins que não estávamos habilitados a compreender de pronto, como, por exemplo, o de sondar melhor a extensão de suas atividades revolucionári as. Saulo não pôde conter -se e revidou, antes que o amigo continuasse: — Mas, nesse caso, seria um hipócrita refalsado e indigno do cargo e de mim mesmo. O outro, contrafeito, carregou o sobrolho. — Aliás, ponderei todas as hipóteses e como não podia tomar -te por hipócrita — acentuou Alexandre procurando emendar a mão — consegui provar que tua atitude em Damasco provinha de transitória demência. Não era justo pensar de outro modo, mesmo porque, do contrário, serias também insincero, conosco, na esfera do fa risaísmo. O ex-rabino sentiu a delicadeza do impasse. Havia renovado as concepções religiosas, mas estava diante de um amigo. Quando muitos o abandonavam, aquele o recebia fraternalmente. Era necessário não magoá -lo. Todavia, era impossível mascarar a verd ade. Sentiu os olhos úmidos. Impunha -se-lhe testemunhar o Cristo, a qualquer preço, embora tivesse de perder as maiores afeições do mundo. — Alexandre — disse humildemente —, é verdade que iniciei o grande movimento de perseguição ao “Ca minho”; mas, agora, é indispensável confessar que me enganei. Os Apóstolos galileus têm razão. Estamos no limiar de grandes transformações. Às portas de Damasco, Jesus me apareceu na sua gloriosa ressurreição e exortou -me ao serviço do seu Evangelho de amor. A palavra saía-lhe tímida, lavada no desejo de não ferir as crenças do amigo, que, não obstante, deixava transparecer profunda decepção no rosto lívido. — Não digas tais absurdos! — exclamou irônico e sorridente — desgraçadamente, vejo que o mal con tinua minando-te as forças físicas e mentais. A Sinagoga de Damasco tinha razão. Se não te conhecesse da infân cia, dar-te-ia agora o título de blasfemo e desertor. O moço tarsense, não obstante a energia viril, estava desapontado. — Aliás — prosseguiu o outro, assumindo ares de protetor —, desde o início de tua viagem não concordei com o mísero cortejo que levavas. Jonas e Demétrio são quase boçais, e Jacob vive de caduquices. Com seme lhante companhia, qualquer perturbação da tua parte ha veria de acarretar grandes desastres morais para a nossa posição. —No entanto, Alexandre — dizia o ex-rabino um tanto humilhado —, devo insistir na verdade. vi com estes olhos o Messias de Nazaré; ouvi -lhe a palavra de viva voz. Compreendendo os erros em que vivia, na minha defeituosa concep ção da fé, demandei o deserto. Lá estive três anos em serviço rude e longas meditações. Minha convicção não é superficial. Creio, hoje, que Jesus é o Salvador, o Filho do Deus Vivo. — Pois tua enfermidade — repetia Alexandre alta neiro, modificando o diapasão da intimidade — transtornou a vida de toda a tua família. Envergonhados com as notícias chegadas da Síria, Jaques e Dalila mu daramse de Jerusalém para a Cilícia. Quando soube da ordem de prisão lavrada pelo Sinédrio contra a tua pes soa, tua mãe faleceu em Tarso. Teu pai, que te educou com esmero, esperando da tua inteligência os maiores galardões de nossa raça, vive acabrunhado e infeliz. Teus amigos, cansados de suportar as ironias do povo, em Jerusalém, vivem esquivos e humilhados depois de te procurarem em vão. Não te doerá a visão deste qua dro? Uma dor como esta não bastará para refazer -te o equilíbrio mental? O ex-doutor da Lei tinha o coração ralado de angús tia. Tantos dias ansiosos, tantas amarguras vividas no intuito de lograr alguma compre ensão e repouso junto dos seus, via, agora, era tudo ilusão e rumaria. A família desorganizada, a mãe morta, o pai infeliz; os amigos execravam -no; Jerusalém lançava-lhe ironias. Vendo-o em tal atitude, o amigo regozijava -se íntimamente, esperando ansioso o efeito de suas palavras. Depois de concentrar-se um minuto, Saulo acentuou: —Lamento ocorrências tão tristes e tomo a Deus por testemunha de que não cooperei intencionalmente para Isso. No entanto, mesmo aqueles que ainda não aceitaram o Evangelho dever iam compreender, segundo a antiga Lei, que não devemos ser orgulhosos. Moisés, nada obstante a energia das recomendações, ensinou a bondade. Os profetas, que lhe sucederam, foram emissários de mensagens profundas para o nosso coração, que se perdia na iniqüidade. Amós nos concitou a buscar Jeová para conseguirmos viver. Lastimo que os meus afeiçoados se julguem ofendidos; mas é preciso consi derar que, antes de ouvir qualquer julgamento ocioso do mundo, devemos buscar os juízos de Deus. — Quer dizer que persistes nos teus erros? — perguntou Alexandre quase hostil. — Não me sinto enganado. Dada a incompreensão geral — comentou o exrabino dignamente —, também me encontro em penosa situação; mas o Mestre não me faltará com o seu auxílio. Lembro -me dele e experimento grande conforto. Os afetos da família e a consideração dos amigos eram no mundo minha única riqueza. Con tudo, encontrei nas anotações de Levi o caso de um moço rico, que me ensina a proceder nesta hora (1). Desde a infância procurei cumprir rigorosamente meus deveres; mas, se é preciso lançar mão da riqueza que me resta, para alcançar a iluminação de Jesus, renunciarei à pró pria estima deste mundo!... Alexandre pareceu comover -se com o tom melancó lico das últimas palavras. Saulo dava a impressão de alguém que estivesse prestes a chorar. — Estás fundamente transtornado — objetou Alexandre —, só um demente poderia proceder assim. — Gamaliel não era um louco e aceitou Jesus como o Messias prometido — acrescentou o ex-doutor invocando a venerável memória do grande rabino. — Não creio! — disse o outro com ar superior. Saulo baixou a fronte silencioso. Grande a humi lhação daquela hora. Depois de havido como demente, era tido por mentiroso. Apesar disso, no auge da perplexidade, considerou que o amig o não estava em condições (1) Mateus, capítulo 19º, versículos 16 a 23. de compreendê-lo integralmente. Refletia na situa ção embaraçosa, quando Alexandre voltou a dizer: — Infelizmente, preciso convencer -me do estado precário do teu cérebro. Por enquanto, poderás ficar em Jerusalém à vontade, mas será justo não multiplicar o escândalo da tua enfermidade, com falsos panegíricos do carpinteiro de Nazaré. A decisão do Sinédrio, que consegui com tantos sacrifícios, poderia modificar -se. Quanto ao mais — terminava como a despedi lo —, sabes que continuo às tuas ordens para uma retificação defi nitiva de atitudes, a qualquer tempo. Saulo compreendeu a advertência; não era preciso dilatar a entrevista. O amigo expulsava-o com boas maneiras. Em dois minutos achou-se novamente na via pública. Era quase meio -dia, um dia quente. Sentiu sede e fome. Consultou a bolsa, estava quase vazia. Um resto do que recebera das mãos generosas do irmão de Gamaliel, ao deixar Palmira definitivamente. Procurou a pensão mais modes ta de uma das zonas mais pobres da cidade. Em seguida a frugal refeição e antes que caíssem as sombras cariciosas da tarde, encaminhou -se esperançado para o velho casarão reformado, onde Simão Pedro e companhei ros desenvolviam toda a atividade em prol da causa de Jesus. No trajeto, recordou-se de quando fora ouvir Estevão em companhia de Sadoc. Como tudo, agora, se passava inversamente!