2ª Parte - Cap. 3: Lutas e humilhações
— Vosso silêncio fala mais que as palavras — concluiu quase com audácia. — Jesus não vos permite a prisão do servo humilde e fiel. Que a sua bênção vos ilumine o espírito na verdadeira compreensão das reali dades da vida. Assim dizendo, caminhou resoluto para a porta de saída, enqu anto o olhar assombrado da assembléia lhe acompanhava o vulto, até que, a passo firme, desapareceu em uma das ruas estreitas que desembocavam na grande praça. Como se despertasse, após o audacioso desafio, a reunião degenerou em acaloradas discussões. O a rqui-sinagogo, que parecia sumamente impressionado com as declarações do ex -rabino, não ocultava a indecisão, relutando entre as verdades amargas de Saulo e a ordem de prisão imediata. Os companheiros mais enérgicos procuraram levantar -lhe o espírito de autoridade. Era preciso prender o atrevido orador a qualquer preço. Os mais decididos puseram-se à procura imediata do pergaminho de Jerusalém e, logo que o encontraram, resolveram pedir auxílio às autoridades civis, promo vendo diligências. Daí a três hor as, todas as medidas para a prisão do audacioso pregador estavam assentadas. Os primeiros contingentes foram movimentados às portas da cidade. Em cada uma postou -se pequeno grupo de fariseus, secundados por dois soldados, a fim de burla rem qualquer tentativa de evasão. Em seguida, iniciaram a devassa em bloco, na re sidência de todas as pessoas suspeitas de simpatia e relações com os discípulos do Nazareno. Saulo, por sua vez, afastando -se da sinagoga, procurou avistar-se com Ananias, ansioso da sua palav ra amorosa e conselheira. O sábio velhinho ouviu a narração do acontecido, aprovando -lhe as atitudes. — Sei que o Mestre — dizia o moço por fim —condenou as contendas e jamais andou entre os discuti dores; mas, também, jamais contemporizou com o mal. Estou pronto a reparar meu passado de culpas. Afron tarei as incompreensões de Jerusalém, a fim de paten tear minha transformação radical. Pedirei perdão aos ofendidos pela insensatez da minha ignorância, mas, de modo algum poderei fugir ao ensejo de afirmar -me sincero e verdadeiro. Acaso serviria ao Mestre, humilhan do-me diante das explorações inferiores? Jesus lutou quanto possível e seus discípulos não poderão proceder de outro modo. O bondoso ancião acompanhava -lhe as palavras com sinais afirmativos. Depois de confortá-lo com a sua aprovação, recomendou -lhe a maior prudência. Seria razoável afastar-se quanto antes dali, do seu tugúrio. Os judeus de Damasco conheciam a parte que tivera na sua cura. Por causa disso, muita vez lhes suportara as injú rias e remoques. Certo, procurá-lo-iam, ali, para prendê-lo. Assim, era de opinião que se recolhesse à casa da consóror lavadeira, onde costumavam orar e estudar o Evangelho. Ela saberia acolhê -lo com bondade. Saulo atendeu ao conselho sem hesitar. Daí a três horas, o velho Ananias era procurado e interpelado. Atenta a sua conduta discreta, foi recolhido ao cárcere para ulteriores averiguações. O fato é que, inquirido pela autoridade religiosa, apenas respondia: — Saulo deve estar com Jesus. Nos seus escrúpulos de consciência, o generoso ve lhinho entendia que, desse modo, não mentia aos homens nem comprometia um amigo fiel. Depois de preso e incomunicável 24 horas, deram -lhe liberdade após receber castigos dolorosos. A aplicação de vinte bastonadas dei xara-lhe o rosto e as mãos gravemente feridos. Contudo, logo que se viu livre, esperou a noite e, cautamente, encaminhou-se à choupana humilde onde se realizavam as prédicas do “Caminho”. Reencontrando -se com o amigo, expôs-lhe o plano que vinha remediar a situação. — Quando criança — exclamou Ananias prazeroso — assisti à fuga de um homem sobre os muros de Jeru salém. E como se recapitulasse os pormenores do fato, na memória cansada, perguntou: — Saulo, terias medo de fugir num cesto de vime? — Por quê? — disse o moço sorridente. — Moisés não começou a vida num cesto sobre as águas? O velho achou graça na alusão e esclareceu o pro jeto. Não muito longe dali, havia grandes árvores junto dos muros da cidade. Alçariam o fugitivo num grande cesto, e depois, com insignific antes movimentos, ele po deria descer do outro lado, em condições de encetar a viagem para Jerusalém, conforme pretendia. O ex-rabino experimentou imensa alegria. Na mesma hora, a dona da casa foi buscar o concurso dos três irmãos de mais confiança. E quan do o céu se fez mais sombrio, depois das primeiras horas da meia -noite, um pequeno grupo se reunia junto a muralha, em ponto mais distante do centro da cidade. Saulo beijou as mãos de Ananias, quase com lágrimas. Despediu -se em voz baixa dos amigos, enquan to um lhe entregava volumoso pacote de bolos de cevada. Na copa da árvore frondosa e escura, o mais jovem esperava o sinal, O moço tarsense entrou na sua embarcação improvisada e a evasão se deu no âmbito silencioso da noite. Do outro lado, saiu lesto do c esto, deixando-se empolgar por estranhos pensamentos. Seria justo fugir assim? Não havia cometido crime algum. Não seria covarde deixar de comparecer perante a autoridade civil para os esclarecimentos necessários? Ao mesmo tempo, considerava que sua condu ta não provinha de sentimen tos pueris e inferiores, pois ia a Jerusalém desassom brado, buscaria avistar -se com os antigos companheiros, falar -lhes-ia abertamente, concluindo que também não seria razoável entregar -se inerme ao fanatismo tirânico da Sinago ga de Damasco. Aos primeiros raios de sol, o fugitivo ia longe. Levava consigo os bolos de cevada como única provisão, e o Evangelho presenteado por Gamaliel como lembrança de tanto tempo de solidão e de luta. A jornada foi assaz difícil e penosa. O cansaç o obrigava-o a paradas constantes. Mais de uma vez re correu à caridade alheia, no trajeto penoso. Com auxílio de camelos, cavalos ou dromedários, a viagem de Da masco a Jerusalém não exigia menos de uma semana de marchas exaustivas. Saulo, porém, ia a pé. Poderia talvez valer-se do concurso definitivo de alguma caravana, onde conseguisse os recursos imprescindíveis, mas preferiu familiarizar a vontade poderosa com os obstá culos mais duros. Quando a fadiga lhe sugeria o desejo de aguardar a cooperação even tual de outrem, buscava vencer o desânimo, punha -se novamente de pé, apoiava -se em cajados improvisados. Depois de suaves recordações no local em que tivera a visão gloriosa do Messias ressuscitado, voltou a expe rimentar carinhosas emoções ao penetrar na Palestina, atravessando vagarosamente extensas regiões da Galiléia. Fazia questão de conhecer o teatro das primeiras lutas do Mestre, identificar -se com as paisagens mais queridas, visitar Cafarnaum e Nazaré, ouvir a palavra dos filhos da região. Naquele t empo, já o ardoroso Apóstolo dos gentios desejava inteirar-se de todos os fatos referentes à vida de Jesus, ansiava por coordená los com segurança, de maneira a legar aos irmãos em Humanidade o melhor repositório de informações sobre o Emissário Divino. Quando chegou a Cafarnaum, um crepúsculo de ouro entornava maravilhas de luz na bucólica paisagem. O ex -rabino desceu religiosamente às margens do lago. Embebeu -se na contemplação das águas marulhosas. Pen sando em Jesus, no poder do seu amor, chorou, domina do por singular emoção. Queria ter sido pescador humilde para captar os ensinamentos sublimes na fonte de suas palavras generosas e imortais. Por dois dias ali permaneceu em suave embeveci mento. Sem revelar-se, procurou Levi, que o recebeu de boa -vontade. Mostrou-lhe sua dedicação e conhecimento do Evangelho, falou da oportunidade de suas anotações. O filho de Alfeu alegrou-se ao contágio daquela palavra inteligente e confortadora. Saulo viveu em Cafarnaum horas deliciosas para o seu espírito emo tivo. Fora o local das pregações do Mestre; mais adiante, a casinha de Simão Pedro; além, a coletoria onde o Mestre fora chamar Levi para o desempenho de importante papel entre os apóstolos. Abraçou homens fortes, da localidade, que tinham sido cegos e leprosos, curados pelas mãos misericordiosas do Messias; foi a Dalmanuta, onde conheceu Madalena. Enriqueceu o mundo impres alvo de suas observações colhendo informes inéditos. Daí a dias, depois de repousar em Nazaré, ei -lo às portas da cidade santa dos israelitas, extenuado de fadiga, das caminhadas penosas, das noites de vigília cujos sofrimentos muita vez lhe pareceram sem -fim. Em Jerusalém, todavia, aguardavam -no outras surpresas não menos dolorosas. Estava empolgado por ansiosas interrogações. Não mais tivera notícia dos pais, dos amigos, da irmã cari nhosa, dos familiares sempre vivos na sua retentiva. Como o receberiam os companheiros mais sinceros? Não poderia esperar amáveis recepções do Sinédrio. O episó dio de Damasco dava-lhe a perceber o estado de ânim o dos membros do Tribunal. Certo, fora sumariamente expulso do cenáculo mais conspícuo da raça. Em compensação, fora admitido pelo Cristo no cenáculo infinito das verdades eternas. Dominado por essas reflexões, atravessou a porta da cidade, recordando o tempo em que, numa biga veloz, saía, noutro local, buscando a casa de Zacarias, na direção de Jope. As reminiscências das horas mais venturosas da mocidade encheram-lhe os olhos de pranto. Os transeuntes de Jerusalém estavam longe de imaginar quem era aque le homem magro e pálido, barba grande e olhos encovados, que passava arrastando -se de fadiga. Após grande esforço, atingiu um prédio residencial do seu conhecimento, O coração palpitou-lhe apressado. Como simples mendigo, bateu à porta, em ansiosa expectativa. Um homem de semblante severo atendeu secamente. — Podeis informar, por favor — disse com humildade —, se ainda aqui reside uma senhora chamada Dalila? — Não —, respondeu o outro, ríspido. Aquele olhar duro não ensejava novas perguntas, mas, ainda as sim, aventurou: — Poderíeis dizer, por obséquio, para onde se mudou? — Ora esta! — replicou o dono da casa irrita diço — dar-se-á que tenha de prestar contas a um mendigo?
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Capítulo 3
Nome do Capítulo Lutas e humilhações
Parte Segunda Parte