2ª Parte - Cap. 3: Lutas e humilhações
O crítico, de oútrora, voltava para ser criticado. O juiz, transformado em réu, mergulhava o coração em singulares ansiedades. Como o receberiam na igreja do “Caminho”? Parou à frente da habitação humilde. Pensava em Estevão. mergulhado no passado, de alma opressa. Ante os colegas do Sinédrio, entestando as autoridades, do judaísmo, outra era a sua atitude. Conhecia -lhes as fraquezas peculiares. passara também pelas máscaras farisaicas e podia aquilatar de seus erros clamorosos. No entanto, defrontando os Apóstolos galileus, sagrada veneração se lhe impunha à consciência. Aqueles homens poderiam ser rudes e simples, podiam viver distanciados dos valores intelectuais da época, mas tinham sido os primeiros colaboradores de Jesus. Além disso, não pode ria aproximar-se deles sem experimentar profundo re morso. Todos haviam sofrido vexames e humiliações por sua causa. Não fosse Gamaliel, talvez o próprio Pedro teria sido lapidado... Precisava consolidar as noções de humildade para manifestar seus desejos arden tes de cooperação sagrada com o Cristo. Em Damasco, lutara na sinagoga contra a hipocrisia de antigos com panheiros; em Jerusalém, enfrentara Alexandre com todo o desassombro; entretanto, parecia -lhe que outra deveria ser sua atitude ali, onde tinha necessidade de renúncia para alcançar a reconciliação com aqueles a quem havia ferido. Assomado de profundas reflexões, bateu à po rta quase trêmulo. Um dos auxiliares do serviço interno, de nome Prócoro, veio atender solicitamente. — Irmão — disse o moço tarsense em tom humil de —, podeis informar se Pedro está? — Vou saber — respondeu o interpelado, amistoso. — Caso esteja — acrescentou Saulo algo indeciso —, dizei-lhe que Saulo de Tarso deseja falar-lhe em nome de Jesus. Prócoro gaguejou um “sim”, com extrema palidez, fixou no visitante os olhos assombrados e afastou -se com dificuldade, sem dissimular a enorme surpresa. Era o perseguidor que voltava, depois de três anos. Lembra va-se, agora, daquela primeira discussão com Estevão, em que o grande pregador do Evangelho sofrera tantos insultos. Em poucos momentos alcançava a câmara onde Pedro e João confabulavam sobre os problemas inte rnos. A notícia caiu entre ambos como uma bomba. Ninguém poderia prever tal coisa. Não acreditavam na lenda que Jerusalém enfeitava com detalhes desconhecidos, em cada comentário. Impossível que o algoz implacável dos discípulos do Senhor estivesse convert ido à causa do seu Evangelho de amor e redenção. O ex-pescador do “Caminho”, antes de recambiar o portador ao inesperado visitante, mandou chamar Tiago para resolverem os três a decisão a tomar. O filho de Alfeu, transformado em rígido asceta, arregalou os olhos. Depois das primeiras opiniões que traduziam re ceios justos e emitidas precipitadamente, Simão excla mou com grande prudência: — Em verdade, ele nos fez o mal que pôde; entre tanto, não é por nós que devemos temer e sim pela obra do Cristo que nos está confiada. — Aposto em que toda essa história da conversão se resume numa farsa, a fim de que venhamos a cair em novas ciladas — replicou Tiago um tanto displicente. — Por mim — disse João —, peço a Jesus nos esclareça, embora me recorde dos açoites que Saulo mandou aplicar-me no cárcere. Antes de tudo, é indispensável saber se o Cristo, de fato, lhe apareceu às portas de Damasco. — Mas saber como? — dizia Pedro com profunda compreensão. — Nosso material de reconhecimento é o próprio Saulo. Ele é o ca mpo que revelará ou não a planta sagrada do Mestre. A meu ver, tendo a zelar um patrimônio que nos não pertence, somos obrigados a proceder como aconselha a prudência humana. Não é justo abrirmos as portas, quando não lhe conhecemos o intuito. Da primeira vez que aqui esteve, Saulo de Tarso foi tratado com o respeito que o mundo lhe consagrava. Busquei-lhe o melhor lugar para que ouvissse a palavra de Estevão. Infelizmente, sua atitude desres peitosa e irônica provocou escândalo, que culminou na prisão e m orte do companheiro. Veio espontaneamente e voltou para prender -nos. Ao carinho fraternal, que lhe oferecemos, retribuiu com algemas e cordas. Assim me externando, também não devo esquecer a lição do Mestre, relativamente ao perdão, e por isso reafirmo que não penso por nós, mas pelas responsabilidades que nos foram conferidas. Ante considerações tão justas, os outros calaram, enquanto o ex -pescador acrescentava: — Por conseguinte, não me é permitido recebê -lo nesta casa, sem maior exame, ainda que me não f alte sincera boa-vontade para isso. Resolvendo o assunto por essa forma, convocarei uma reunião para hoje à noite. O assunto é muito grave. Saulo de Tarso foi o primeiro perseguidor do Evangelho. Quero que todos cooperem comigo nas decisões a tomar, pois, de mim mesmo, não quero parecer nem injusto, nem imprevidente. E depois de longa pausa, dizia para o emissário: — Vai, Prócoro. Dize-lhe que volte depois, que não posso deixar os quefazeres mais urgentes. — E se ele insistir? — perguntou o diâcono preo cupado. — Se ele de fato aqui vem em nome de Jesus, saberá compreender e esperar. Saulo aguardava ansiosamente o mensageiro. Era -lhe preciso encontrar alguém que o entendesse e lhe sentisse a transformação. Estava exausto. A igreja do “Caminho” era a derradei ra esperança. Prócoro transmitiu-lhe o recado com grande inde cisão. Não era preciso mais para que tudo compreen desse. Os Apóstolos galileus não acreditavam na sua palavra. Agora examinava a situação com mais clareza. Percebia a indefinível e grandiosa mi sericórdia do Cristo visitando -o, inesperadamente, no auge do seu abismo espiritual às portas de Damasco. Pelas dificuldades para ir ter com Jesus, avaliava quanta bondade e compaixão seriam necessárias para que o Mestre o acolhesse, ende reçandolhe sagradas exortações, no encontro inesque cível. O diácono fixou-o com simpatia. Saulo recebera a resposta altamente desapontado. Ficou pálido e trêmulo, como que envergonhado de si mesmo. Além disso, tinha aspecto doentio, olhos encovados, era pele e osso. — Compreendo, irmão — disse de olhos molha dos — Pedro tem motivos justos.. Aquelas palavras comoveram a Prócoro no mais íntimo da alma e, evidenciando seu bom desejo de am pará-lo, exclamou a demonstrar perfeito conhecimento dos fatos: — Não trazeis de Damas co alguma apresentação de Ananias? — Já tenho comigo as do Mestre. — Como assim? — perguntou o diácono admirado. — Jesus disse em Damasco — falou o visitante com serenidade — que mostraria quanto me compete sofrer por amor ao seu nome. Intimamente, o ex-doutor da Lei sentia imensa sau dade dos irmãos de Damasco, que o haviam tratado com a maior simplicidade. Entretanto, considerou, simultaneamente, que semelhante proceder era justo, porqüanto dera provas na sinagoga e junto de Ananias, de que sua atitude n ão comportava simulação. Ao refletir que Jerusalém o recebia, em toda parte, como vulgar mentiroso, sentiu lágrimas quentes lhe afluirem aos olhos. Mas, para que o outro não lhe visse a sensibili dade ferida, exclamou justificando -se: — Tenho os olhos cansados pelo sol do deserto! Podereis fornecer -me um pouco de água fresca? O diácono atendeu prontamente. Daí a instantes, Saulo mergulhava as mãos num grande jarro, lavando os olhos em água pura. — Voltarei depois — disse em seguida, estendendo a mão ao auxi liar dos apóstolos, que se afastou impres sionado. Amargando a fraqueza orgânica, o cansaço, o aban dono dos amigos, as desilusões mais acerbas, o moço de Tarso retirou -se cambaleante. À noite, consoante deliberara, Simão Pedro, eviden ciando admirável bomsenso, reuniu os companheiros de mais responsabilidade para considerar o assunto. Além dos Apóstolos galileus, estavam presentes os irmãos Ni canor, Prócoro, Pármenas, Timon, Nicolau e Barnabé, este último incorporado ao grupo de auxiliares mais dire tos da igreja, por suas elevadas qualidades de coração. Com permissão de Pedro, Tiago iniciou as conversa ções, manifestando-se contrário a qualquer espécie de auxílio imediato ao convertido da última hora. João ponderou que Jesus tinha poder para transformar os espíritos mais perversos, como para levantar os mais infortunados da sorte. Prócoro relatou suas impressões a respeito do pertinaz perseguidor do Evangelho, ressal tando a compaixão que seu estado de saúde despertava nos corações mais insensíveis. Chegada a sua vez, Barnabé esclareceu que, ainda em Chipre, antes de transferir-se definitivamente para Jerusalém, ouvira alguns levitas descreverem a coragem com que o convertido falara na Sinagoga de Damasco, logo após a visão de Jesus. O ex-pescador de Cafarnaum solicitou pormenores do companheiro, impressionado com a sua opinião. Bar nabé explicou quanto sabia, manifestando o desejo de que resolvessem a questão com a maior benevolência. Nicolau, percebendo a atmosfera de boa -vontade que se formava em torno da figura do ex-rabino, objetava com a sua rigidez de princípios: — Convenhamos que não é justo esquecer os alei jados que se encontram nesta casa, vítimas da odiosa truculência dos asseclas de Saulo. Ë das escrituras que se exija cuidado com os lobos que penetram no redil sob a pele das ovelhas. O doutor da Lei, que nos fez tanto mal, sempre deu preferência às grandes expressões espe taculares contra o Evangelho, no Sinédrio. Quem sabe nos prepara atualmente nova armadilha de grande efeito? A tal pergunta, o bondoso Barnabé curvou a fronte, em silêncio. Pedro notou que a reunião se dividia em dois grupos. De um lado estavam ele e João chefiando os pareceres favoráveis; do outro, Tiago e Filipe enca beçavam o movimento contrário. Acolhendo a admoesta ção de Nicolau, exprimiu-se com brandura: — Amigos, antes da enunciação de qualquer ponto de vista pessoal, conviria refletirmos na bondade infi nita do Mestre. Nos trabalhos de minha vida, anteriores ao Pentecostes, confesso que as faltas de toda sorte aparecem no meu caminho de homem frágil e pecador.
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Capítulo 3
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