Capítulo 6
Imaginemos um rapaz de 20 anos, como tantos que existem, ignorante, viciado por índole, negando sua alma e Deus, entregue à desordem e cometendo toda sorte de malvadeza. Encontrando-se depois num meio favorável, esse rapaz instrui-se, corrige-se gradualmente e acaba por tornar-se crente e piedoso. Não é esse um exemplo palpável do progresso da alma durante a vida, exemplo que se reproduz todos os dias? Esse homem morre em idade avançada, como um santo, e certamente a sua salvação está assegurada. Qual, no entanto, seria a sua sorte se um acidente o levasse à morte 40 ou 50 anos mais cedo? Ele estava nas condições exigidas para ser condenado e, se o fosse, todo progresso se lhe tornaria impossível. Eis, pois, segundo a doutrina das penas eternas, um homem salvo somente pela circunstância de ter vivido mais tempo, circunstância, aliás, muito frágil, visto que um acidente qualquer poderia interromper bem mais cedo a sua vida. Desde que sua alma pôde progredir em dado tempo, por que razão não mais poderia progredir depois da morte, se uma causa alheia à sua vontade a tivesse impedido de fazê-lo durante a vida? Por que Deus lhe recusaria tais meios? Neste caso, o arrependimento veio, embora tardio. Mas se desde o momento da morte se impusesse a ele uma condenação irrevogável, esse arrependimento seria infrutífero por toda a eternidade e sua aptidão para progredir estaria anulada para sempre.
TAG Valor
Parte Primeira
Nome do Capítulo Doutrina das penas eternas
Tema Impossibilidade material das penas eternas
Item 20