De conformidade com o roteiro de serviço traçado pelo Assistente, Hipólito e Luciana ficariam na Casa Transitória, atendendo as necessidades prementes de Dimas recém-liberto, enquanto nós ambos acompanharíamos Fábio, em processo desencarnacionista.
— Fábio permanece em excelente forma, — esclareceu-nos o orientador, — e não exigirá cooperação complexa. Preparou, com relação ao acontecimento, não somente a si mesmo, senão também os parentes, que, ao invés de nos preocuparem, como acontece comumente, serão úteis colaboradores de nossa tarefa. Falava Jerônimo com sólida razão porque, em verdade, mostrava-se Dimas em lastimável abatimento. Apesar da fé que lhe aquecia o espírito, as saudades do lar infundiam-lhe inexprimível angústia. Às vezes, finda a conversação serena em que se revelava calmo e seguro nas palavras, punha-se a gemer doridamente, chamando a esposa e os filhos, inquieto. Em tais momentos, tornava aos sintomas da moléstia que lhe vitimara o corpo denso e, com dificuldade, conseguíamos subtraí-lo à estranha psicose, fazendo-o regressar à posição normal. Tentava desvencilhar-se de nossa influência amiga, como se houvera enlouquecido repentinamente, no propósito de fugir sem rumo certo. Gritava, gesticulava, afligia-se, como sonâmbulo inconsciente. Não pude dissimular a surpresa que me assaltou diante da ocorrência. Se estivéssemos tratando com criatura alheia aos serviços da espiritualidade superior, compreensível seria o quadro que se desenrolava aos nossos olhos; mas Dimas fora instrumento dedicado do Espiritismo evangélico, consagrara a existência às benditas realizações da consoladora doutrina do túmulo vazio pela vida eterna. De antemão, sabia na Esfera carnal que seria submetido às lições da morte e que não lhe faltariam ricas possibilidades de continuar junto da parentela, já dele separada, aparentemente, segundo o simples ponto de vista material. Porque semelhantes distúrbios? Não merecera ele excepcional atenção de nossos superiores hierárquicos? Vali-me de momento adequado e expus ao nosso dirigente as indagações que me absorviam o raciocínio. Sem qualquer nota admirativa, Jerônimo respondeu-me, bem humorado:
— Você deve saber, André, que cada qual de nós é, por si mesmo, todo um mundo. Esclarecimentos e consolações são dádivas de Deus, Nosso Pai, mas convicções e realizações constituem obra nossa. Cada servidor tem a escala própria de edificações, na tábua de valores imortais. A assembleia de aprendizes receberá a mesma bagagem de ensinamentos, de modo geral, organizada para todos os indivíduos que a integram. Diferenciam-se, porém, os alunos, na série do aproveitamento particular. O mérito não é patrimônio comum, embora seja a glória do cume, a desafiar todos os caminheiros da vida para a suprema elevação. Dimas foi destacado discípulo do Evangelho, principalmente no setor de assistência e difusão, mas, quanto a si mesmo, não fez aproveitamento integral das lições recebidas. Espalhou as sementes da luz e da verdade, dedicou-se largamente à causa do bem, merecendo, por isso mesmo, socorro especialíssimo. Contudo, no campo particular, não se preparou suficientemente. Qual ocorre à maioria dos homens, prendeu-se demasiadamente às teias domésticas, sem maior entendimento. Conferiu excessivo carinho à roda familiar, sem noção de equidade, no caminho terrestre. Certamente, sob o ponto de vista humano, consagrou-se o necessário à companheira e aos rebentos do lar; mas, se lhes prodigalizou muita ternura, não lhes proporcionou todo o esclarecimento de que dispunha, libertando-os da esfera pesada de incompreensão. E agora, muito naturalmente, sofre-lhes o assédio. A inquietude dos parentes atinge-o, através dos fios invisíveis da sintonia magnética. Sorriu, benévolo e continuou:
— Nosso irmão, inegavelmente, fez por merecer o auxílio de nosso Plano, pois conseguiu enfileirar amigos prestigiosos que lhe dedicam valiosos serviços intercessórios, mas não se preparou, interiormente, considerando-se as necessidades do desapego construtivo. Gastará, desse modo, alguns dias para edificar a resistência. O ensinamento significava muito para mim, que via tão dedicado servidor, cercado da mais honrosa consideração, por parte das autoridades de nosso Plano, em porfiada luta consigo mesmo para restaurar seu próprio equilíbrio. E concluí, mais uma vez, que o amor pode improvisar infinitos recursos de assistência e carinho, acordando faculdades superiores do Espírito, mas que a lei divina é sempre a mesma para todos. O obséquio é ofício sublime, no culto ativo da cooperação fraterna; todavia, cada homem, por si, elevar-se-á ao Céu ou descerá aos infernos transitórios, em obediência às disposições mentais em que se prende. Atravessado curto período de proveitosas observações e marcada a libertação do novo amigo, Jerônimo e eu tornamos à Crosta, de modo a desobrigar-nos da incumbência. Acercamo-nos do bairro pobre em que Fábio situara o ninho doméstico. A casinha singela encantava. Rodeada de folhagens e flores, via-se que todo o espaço merecera a ternura dos moradores. De longe, chegava o barulho da enorme cidade. Espíritos vadios passavam de largo, em lamentável promiscuidade. Nas adjacências erguiam-se alguns bangalôs novos, que lhes ofereciam livre acesso, fazendo-nos adivinhar a triste influenciação de que eram objeto. Naquela residência pequena e humilde, havia, no entanto, paz e silêncio, harmonia e bem-estar. À nossa apreciação, parecia delicioso oásis em meio de vasto deserto. Entramos. Três amigos espirituais receberam-nos. Um deles, Aristeu Fraga, conhecido pessoal de Jerônimo, abraçou-nos, festivo, e anunciou que faziam visita ao enfermo, então nas últimas horas do corpo material. Agradeceu-nos o interesse pelo desencarnante e apresentou-nos o irmão Silveira, genitor de Fábio na Terra, que desejava colaborar conosco, em favor do filho querido. Estava satisfeito, informou. O filho arregimentara todas as medidas relacionadas com a próxima libertação, submetendo-se, dócil, aos desígnios superiores. Tivera existência modesta; limitara o voo das ambições mais nobres, no culto da espiritualidade redentora; esforçara-se suficientemente pela tranquilidade familiar; fora acicatado por dificuldades sem conto, no transcurso da experiência que terminava; deixava a esposa e dois filhinhos amparados na fé viva, e, embora não lhes legasse facilidades econômicas, afastava-se do corpo físico, jubiloso e confortado, com a glória de haver aproveitado todos os recursos que a Esfera superior lhe havia concedido. Além de haver-se afeiçoado profundamente ao Evangelho do Cristo, vivendo-lhe os princípios renovadores, com todas as possibilidades ao seu alcance, Fábio conseguira iluminar a mente da companheira e construir bases sólidas no espírito dos filhinhos, orientando-os para o futuro. Falava-se tão bem, acerca do companheiro, que, admitido à palestra, arrisquei uma pergunta:
— Fábio desencarnará na ocasião prevista?
— Sim, — elucidou Jerônimo, com gentileza, — estamos de posse das instruções. Nosso amigo desencarnará no tempo devido.
— É verdade, — confirmou o pai emocionado, — ele aproveitou todos os recursos que se lhe conferiu, malgrado o corpo franzino e doente, desde a infância. Traindo a condição de médico sempre interessado em estudar, considerei:
— É lamentável tenha renascido em semelhante organismo, quem sabe servir com tanto valor à causa do bem… O genitor sentiu-se na necessidade de esclarecer o assunto, porque prosseguiu, calmo:
— Este é, de fato, argumento humano dos mais ponderáveis. Quando na carne, frequentes vezes surpreendi-me com a saúde frágil de Fábio, em criança. Desde cedo, notei-lhe a virtude inata, o pendor para a retidão e para a justiça, as disposições congênitas para os trabalhos da fé viva. Passei longas noites na justa preocupação de pai, em vista do porvir incerto. Como poderia nascer alma tão sensível e formosa, como a dele, em vaso tão imperfeito? Aos doze anos, foi atacado de pneumonia dupla, que quase o arrebatou de nosso convívio. Clínico amigo chamou-me a atenção para a debilidade do rapazinho. Éramos, no entanto, demasiadamente pobres para tentar tratamentos caros em estâncias de repouso. Antes dos catorze anos, terminado o curso das letras primárias, conduzi-o ao serviço pela exigência imperiosa do ganha-pão. Sabia, como pai, que Fábio desejava continuar estudando, para o aprimoramento das faculdades intelectuais, em face dos seus pendores para o desenho e para a literatura, porque, não poucas vezes, surpreendi-o namorando o educandário vizinho de nossa casa, ralado de inveja ao reparar os colegiais em bandos festivos. As nossas condições de vida, no entanto, nos reclamavam esforço ingente; e meu filho, atirado à luta, desde muito cedo, não encontrou ensejo para as construções artísticas que idealizava. Segregando-se na oficina de mecânica, em ambiente pesado demais para a sua constituição física, ele não o tolerou por muito tempo, contraindo com facilidade a tuberculose pulmonar.
— Mas chegou a saber a causa determinante da posição física de Fábio, ao regressar ao Plano espiritual? — Indaguei.
— Isso representou um dos primeiros problemas que procurei elucidar. Passado algum tempo, fui devidamente esclarecido. Meu filho e eu fomos destacados fazendeiros na antiga nobreza rural fluminense. Nessa época, não muito recuada, Fábio, noutro nome e noutra forma, era igualmente meu filho.