Eduquei-o com desvelado carinho e, por mais de uma vez, enviei-o à Europa, ansioso por elevar-lhe o padrão intelectual e cioso de nossa superioridade financeira. Ambos, porém, cometemos graves erros, mormente no trato direto com os descendentes de africanos escravos. Meu filho era sensível e generoso, mas excessivamente austero para com os servidores das tarefas mais duras. Congregava-os na senzala, com severidade rigorosa, e perdemos grande número de cooperadores em virtude do ar viciado pela construção deficiente que Fábio conservou inalterável, simplesmente para manter ponto de vista pessoal. Os olhos do narrador brilharam mais intensamente. Pareceu menos bem, ao contato das recordações, e acentuou com melancolia:
— O romance é longo e peço-lhes permissão para interrompê-lo. Senti remorsos por haver provocado a dificuldade, mas Jerônimo interveio em meu socorro.
— Não pensemos mais nisso, — exclamou o Assistente, bem humorado, — nunca me conformo com a exumação de cadáveres… E enquanto a alegria tornava ao ambiente, meu orientador acrescentou:
— Prestemos ao enfermo a assistência possível. Nesta noite, afastá-lo-emos definitivamente do corpo carnal. Levantamo-nos e penetramos o quarto. Fábio, fundamente abatido, respirava a custo, acusando indefinível mal-estar. Junto dele, a esposa velava, atenta. Através da janela aberta, o doente reparou que a cidade acendia as luzes. Ergueu os tristes olhos para a companheira e observou:
— Interessante verificar como a aflição se agrava à noite… — É fenômeno passageiro, Fábio, — afirmou a esposa, tentando sorrir. Entre nós, todavia, iniciaram-se providências para socorro imediato. O pai do enfermo dirigiu-se a Jerônimo:
— Sei que a libertação de Fábio exige grande esforço. Entretanto, desejava auxiliá-lo no derradeiro culto doméstico em que tomará parte fisicamente ao lado da família. Regra geral, as últimas conversações dos moribundos são gravadas com mais carinho, pela memória, dos que ficam. Em razão disso, ser-me-ia sumamente agradável ajudá-lo a endereçar algumas palavras de aviso e estímulo à companheira.
— Com muita satisfação, — aquiesceu o Assistente, — colaboraremos também na execução desse propósito. É mais conveniente que a família esteja a sós.
— Bem lembrado! — Disse o genitor, agradecido. Reparei que Jerônimo e Aristeu passaram a aplicar passes longitudinais no enfermo, observando que deixavam as substâncias nocivas à flor da epiderme, abstendo-se de maior esforço para alijá-las de vez. Finda a operação, indaguei dos motivos que os levavam a semelhante medida.
— Está muito enfraquecido, agonizando quase, — informou o meu dirigente, — e fazemos o possível por beneficiá-lo, sem lhe aumentar o cansaço. As substâncias retidas nas paredes da pele serão absorvidas pela água magnetizada do banho, a ser usado em breves minutos. Efetivamente, atendendo à influenciação dos amigos espirituais, que lhe davam intuições indiretamente, Fábio dirigiu-se à esposa, expressando o desejo de leve banho morno, no que foi atendido em reduzidos instantes. Jerônimo e Aristeu ministraram à água pura certos agentes de absorção e ampararam a dedicada senhora, que, por sua vez, auxiliou o marido a banhar-se, como se estivesse satisfazendo o desejo de uma criança. Notei, admirado, que a operação se fizera acompanhar de salutaríssimos efeitos, surpreendendo-me, mais uma vez, ante a capacidade absorvente da água comum. A matéria fluídica prejudicial fora integralmente retirada das glândulas sudoríparas. Terminado o banho, o enfermo voltou ao leito, em pijama, de fisionomia confortada e espírito bem disposto. Algumas fricções de álcool, levadas a efeito, completaram-lhe a melhora fictícia. O relógio marcava alguns minutos além das dezenove horas. Silveira, que se havia ausentado, voltou à pressa, falando particularmente a Jerônimo, a quem informou:
— Tudo pronto. Conseguiremos a reunião exclusiva da família. O Assistente mostrou satisfação e salientou a necessidade de acelerar o ritmo do trabalho. O bondoso pai desencarnado movimentou-se. A tecla mais sensível à nossa atuação foi quando Fábio se dirigiu à esposa, ponderando:
— Creio não devermos adiar o serviço da prece. Sinto-me inexplicavelmente melhor e desejaria aproveitar a pausa do repouso. Dona Mercedes, a abnegada senhora, trouxe ambas as crianças, que se sentaram na posição respeitosa de ouvintes. E enquanto a esposa se acomodava ao lado dos pequenos, o enfermo, auxiliado pelo pai, abriu o Novo Testamento, na e leu o versículo quarenta e quatro do capítulo quinze:
— “Semeia-se corpo animal, ressuscitará corpo espiritual. Há corpo animal, e há corpo espiritual.” Fez-se curto silêncio, que o doente interrompeu, iniciando a prece, comovido:
— Rogo a Deus, nosso Eterno Pai, me inspire na noite de hoje, para conversarmos intimamente e espero que a Divina Providência, por intermédio de seus abençoados mensageiros, me ajude a enunciar o que desejo, com a facilidade necessária. Enquanto possuímos plena saúde física, enquanto os dias e as noites correm serenos, supomos que o corpo seja propriedade nossa. Acreditamos que tudo gira na órbita de nossos impulsos, mas… ao chegar a enfermidade, verificamos que a saúde é tesouro que Deus nos empresta, confiante. Sorriu, calmo e conformado. Até ali, via-se bem que era Fábio o expositor exclusivo das palavras. Expressava-se em voz correntia, mas sem calor entusiástico, dada a sua situação de extrema fraqueza. Findo intervalo mais longo, o genitor descansou a destra em sua fronte, mantendo-se na atitude de quem ora com profunda devoção. Reparei, surpreso, que luminosa corrente se estabelecera no organismo débil, desde a massa encefálica até o coração, inflamando as células nervosas, então semelhando a minúsculos pontos de luz condensada e radiante. Os olhos de Fábio, pouco a pouco, adquiriram mais brilho e a sua voz fez-se ouvir, de novo, com diferente inflexão. Dirigindo à esposa e aos filhinhos o olhar terno, agora otimista e percuciente, passou a dizer, inspirado:
— Estou satisfeito pela oportunidade de trocarmos ideias a sós, dentro da fé que nos identifica. É significativa a ausência dos velhos amigos que nos acompanham as orações familiares, desde muitos anos. Não é sem razão. Precisamos comentar nossas necessidades, cheios de bom ânimo, dentro da noção da próxima despedida. A palavra do apóstolo dos gentios é simbólica na situação presente. Assim como há corpos animais, há também corpos espirituais. () E não ignoramos que meu corpo animal, em breve tempo, será restituído à terra acolhedora, mãe comum das formas perecíveis, em que nos movimentamos na face do mundo. Algo me diz ao coração que esta será talvez a última noite em que me reunirei com vocês, neste corpo… Nos momentos em que o sono me abençoa, sinto-me nas vésperas da grande liberdade… Vejo que amigos iluminados me preparam o coração e estou certo de que partirei na primeira oportunidade. Acredito que todas as providências já foram levadas a efeito, em benefício de nossa tranquilidade, nestes minutos de separação. Em verdade, não lhes deixo dinheiro, mas conforta-me a certeza de que construímos o lar espiritual de nossa união sublime, ponto indelével de referência à felicidade imorredoura… Fitou particularmente a esposa, tomado de maior emoção, e prosseguiu:
— Você, Mercedes, não tema os obstáculos da sombra. O trabalho digno ser-nos-á fonte bendita de realização. Creia que a saudade edificante estará sempre em meu espírito, seja onde for, saudade de sua convivência, de sua afetuosa dedicação. Isto, porém, não constituirá algema pesada, porque nós dois aprendemos na escola da simplicidade e do equilíbrio que o amor legítimo e purificado não prescinde da compreensão santificante. Decerto, necessitarei de muita paz, a fim de readaptar-me à vida diferente e, por isso, pretendo deixá-los com tranquilidade suficiente para que todos nos ajustemos aos desígnios de Deus. Conheço-lhe a nobreza heroica de mulher afeiçoada ao trabalho, desde muito cedo, e entendo a pureza de seus ideais de esposa e mãe. Entretanto, Mercedes, releve-me a franqueza neste instante expressivo da experiência atual: sei que minha ausência se fará seguir de problemas talvez angustiosos para o seu espírito sensível. A solidão torna-se aflitiva, para a mulher jovem, sem a vizinhança dos carinhosos laços de pais e irmãos consanguíneos, que já não possuímos neste mundo, quando não é possível conservar a mesma vibração de fé, através das diversas circunstâncias do caminho… Não posso exigir de você fidelidade absoluta aos elos materiais que nos unem, porque seria exercer cruel opressão a pretexto de amor. Além disso, nada quebrará nossa aliança espiritual, definitiva e eterna. Observei que Fábio arquejava, fortemente emocionado. Transcorridos alguns segundos de breve pausa, continuou, irradiando seus olhos verdadeira afeição e sinceridade fiel:
— Por isso, Mercedes, embora tenhamos providenciado sua posição futura no trabalho honesto, quero dizer a você que ficarei muito satisfeito se Jesus enviar-lhe um companheiro digno e leal irmão. Se isso acontecer, querida, não recuse. Felizmente, para nós, cultivamos a ligação imperecível da alma, sem que o monstro do ciúme desvairado nos guarde o castelo afetivo… Não sabemos quantos anos lhe restam de peregrinação por este mundo. É provável que a Vontade Divina prolongue por mais tempo a sua permanência na Terra, e, se me for possível, cooperarei para que não fique sozinha.