Capítulo 15
Tentei ampliar as minhas observações, mas o servidor chamou-me a outras zonas, de onde partiam gemidos estridentes. — São vários infelizes, na vigília da loucura, — disse calmo. E designando um velhote desencarnado, de cócoras sobre a própria campa, acrescentou: — Venha e escute-o. Acompanhando meu novo amigo, reparei que o sofredor mantinha-se igualmente em ligação com o fundo. — Ai, meu Deus! — Dizia, — quem me guardará o dinheiro? Quem me guardará o dinheiro? Observando-nos a aproximação, rogava, súplice: — Quem são? Querem roubar-me! Socorram-me, socorram-me!… Debalde enderecei-lhe palavras de encorajamento e consolação. — Não ouve, — informou o sentinela, obsequioso, — a mente dele está cheia das imagens de moedas, letras, cédulas e cifrões. Vai demorar-se bastante na presente situação e, como vê, não podemos em sã consciência facilitar-lhe a retirada, porque iria castigar os herdeiros e zurzi-los diariamente. Porque não pudesse dissimular o espanto que me tomara o coração, o servidor otimista acentuou: — Não há motivo para tamanho assombro. Estamos diante de infelizes, aos quais não falecem proteção e esperança, porquanto outros existem tão acentuadamente furiosos e perversos que, do fundo escuro do sepulcro, se precipitam nos tenebrosos despenhadeiros das Esferas subcrostais, tal o estado deplorável de suas consciências, atraídas para as trevas pesadas. Sem fugir ao padrão de tranquilidade do colaborador cônscio do serviço a realizar, acrescentou: — Segundo concluímos, se há alegria para todos os gostos, há também sofrimento para todas as necessidades. Nesse instante, Jerônimo chamou-me a postos. Agradeci ao amável informante, profundamente emocionado pelo que vira, e despedi-me incontinente. Esvaziara-se de companheiros encarnados a necrópole e o próprio coveiro dirigia-se à saída. Foi comovente o adeus entre Dimas e a genitora, que prometeu visitá-lo, sempre que possível. Após agradecimentos mútuos e recíprocos votos de paz, sentimo-nos, enfim, em condições de partir por nossa vez. Antes, porém, minha curiosidade inquiridora desejava entrar em ação. Como se sentiria Dimas, agora? Não seria interessante consultar-lhe as opiniões e os informes? Testemunho valioso poderia fornecer-me para qualquer eventualidade futura de esclarecer a outrem. Em minha esfera pessoal de observação, não pudera colher pormenores, uma vez que a morte me surpreendera em absoluto alheamento das teses de vida eterna e minha inconsciência, no derradeiro transe carnal, fora completa. Nosso dirigente percebeu-me o propósito e falou, bem humorado: — Pode perguntar a Dimas o que você deseja saber. Manifestei-lhe reconhecimento, enquanto o recém-liberto aquiescia, bondoso, aos meus desejos: — Sente, ainda, os fenômenos da dor física? — Comecei. — Guardo integral impressão do corpo que acabei de deixar, — respondeu ele, delicadamente. — Noto, porém, que, ao desejar permanecer ao lado dos meus, e continuar onde sempre estive durante muitos anos, volto a experimentar os padecimentos que sofri; entretanto, ao conformar-me com os superiores desígnios, sinto-me logo mais leve e reconfortado. Apesar da reduzida fração de tempo em que me vejo desperto, já pude fazer semelhante observação. — E os cinco sentidos? — Tenho-os em função perfeita. — Sente fome? — Chego a notar o estômago vazio e ficaria satisfeito se recebesse algo de comer, mas esse desejo não é incômodo ou torturante. — E sede? — Sim, embora não sofra por isso. Ia continuar o curioso inquérito, mas Jerônimo, sorridente, desarmou-me a pesquisa, asseverando: — Você pode intensificar o relatório das impressões, quanto deseje, interessado em colaborar na criação da técnica descritiva da morte, certo, porém, de que não se verificam duas desencarnações rigorosamente iguais. O plano impressivo depende da posição espiritual de cada um. Sorrimos todos, ante meus impulsos juvenis de saber, e, amparando Dimas, carinhosamente, efetuamos, satisfeitos, a viagem de volta.
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Nome do Capítulo Aprendendo sempre