Concedem-se aos demônios faculdades transcendentes; eles nada perderam de sua natureza angélica. Possuem o saber, a perspicácia, a previdência e a clarividência dos anjos, além de astúcia, sagacidade e manha no mais alto grau. O objetivo que os move é desviar os homens do bem e, sobretudo, afastá-los de Deus e arrastá-los ao inferno, do qual são provedores e recrutadores.
Compreende-se assim que eles se dirijam de preferência aos que estão no bom caminho e nele persistem; compreende-se o emprego das seduções e simulacros do bem para atraí-los e perdê-los; mas o que não se compreende é que se dirijam aos que já lhes pertencem de corpo e alma, para os reconduzir a Deus e ao caminho do bem. Ora, quem mais estará nas garras do demônio do que aquele que blasfema contra Deus e o renega, mergulhado no vício e na desordem das paixões? Esse já não estará no caminho do inferno? Porventura se compreenderá que, seguro de sua presa, o demônio a exorte a rogar a Deus, a submeter-se à sua vontade, a renunciar ao mal? Como se haverá de compreender que exalte aos seus olhos a vida deliciosa dos Espíritos bons e que lhe descreva com horror a posição dos maus? Acaso já se viu negociante elogiar a mercadoria do vizinho em prejuízo da sua, aconselhando seus fregueses a comprar a do outro? Um recrutador de soldados falar mal da vida militar e louvar o repouso da vida doméstica? Poderá dizer aos recrutas que terão vida de trabalhos e provações com dez probabilidades contra uma de morrerem ou, pelo menos, de perderem os braços e as pernas durante os exercícios militares?
Entretanto, é justamente este o papel estúpido que atribuem ao demônio, visto ser fato notório que as instruções emanadas do mundo invisível têm regenerado incrédulos e ateus, insuflando-lhes na alma um fervor e uma crença nunca vistos. Ainda sob influência dessas manifestações têm-se visto incrédulos e ateus orando a Deus diariamente, o que jamais haviam feito; pessoas viciosas trabalhando com ardor para se tornarem melhores. Ora, atribuir ao demônio tão benéfica propaganda e salutar resultado, é conferir-lhe diploma de tolo. Não se trata aqui de mera suposição, mas de fato experimental contra o qual não há argumento possível, salvo se concluirmos que o demônio é um desastrado de primeira ordem, ou que não é tão astuto e mau como se pretende e, por conseguinte, tão temível quanto dizem, já que trabalha contra seus próprios interesses; ou, então, que nem todas as manifestações partem dele.