1. A LINGUAGEM DO PENSAMENTO
"Os espíritos só têm a linguagem do pensamento, não dispõem da linguagem articulada, pelo que só há para eles uma língua." (Kardec, Allan, 1975.)
Para explicitar essa idéia básica, os instrutores da codificação acrescentaram a Kardec mais adiante que, ao se dirigirem ao médium, ser encarnado, não o fazem em francês, inglês, árabe ou grego, mas pela "língua universal que é a do pensamento". Convém enfatizar o relevante aspecto dessa inforrmação que nos assegura, em termos inequívocos, que os espíritos só têm uma linguagem - a do pensamento.
Antes de prosseguir, vamos recorrer novamente ao nosso esquema básico do processo da comunicação, figurado na página seguinte.
O espírito (esquerda I, transmite seu pensamento ao médium (direita), ligeiramente desdobrado. Este o processa, converte e o retransmite ao encarnado.
Se o espírito manifestante pudesse transmitir o seu pensamento diiretamente ao ser encarnado com o qual desejasse comunicar-se, não precisaria recorrer a nenhum intermediário (médium) e, por conseguinte, nem ao recurso da linguagem humana, utilizando-se diretamente da única linguagem de que dispõe, ou seja, a do pensamento. O problema é que ele não encontra, na grande maioria das pessoas encarnadas, as condições necessárias e suficientes para assim proceder. Precisa valer-se de alguém que lhe sirva de intermediário e que possa captar o seu pensamento, convertendo-o em palavras escritas ou faladas inteligíveis à pessoa ou às pessoas às quais a mensagem se destina.
Logo, a comunicação mediúnica é a resultante de um entendimento telepático (de mente a mente), entre o espírito manifestante e o médiuns e deste para o destinatário, já convertido no sistema de linguagem articulada, isto é, palavra escrita ou falada. Não é difícil, portanto, concluir que o ponto crítico da comunicação mediúnica está na conversão do pensamento alheio em linguagem articulada. O processo como um todo, por isso mesmo, está sujeito a algumas complicações significativas, que precisam ser levadas em conta a fim de que possam ser contornadas e superada, se é que temos por meta uma comunicação confiável. O médium não apenas precisa interpretar corretamente o pensamento do espírito comunicante, como convertê-lo em palavras suas, adequadas e fiéis aos conceitos que recebe, passados, e não falados nesta ou naquela língua. Se já existe dificuldade em traduzir uma língua ouvida em outra falada, maior será a de falar ou escrever sobre conceitos que não ouvimos nem lemos, mas recebidos, por meio da linguagem inarticulada do pensamento.
Duas condições vitais são, portanto, exigidas do bom médium: sua capacidade de interpretação e a sua capacidade de conversão do pensamento em palavras, especialmente nos fenômenos de psicovidência.
Afirma Boddington: "A capacidade de interpretar é, às vezes, mais valiosa do que a literal do que é percebido na vidência, porque é principalmente pelo símbolismo que os espíritos alcançam o nosso entendimento. Usualmente, uma forte impressão ou apreensão intuitiva ajuda o vidente na elaboração de suas descrições. Quando isso não ocorrer, mantenha o cérebro em estado de passividade de modo calmo e firme, e mentalmente busque o sentido da visão. (Boddington, Harry, 1948)" A sugestão é reconbecidamente difícil de ser posta em prática, dado que a mente tem de estar, ao mesmo tempo, apassivada e ativa, na busca do sentido da visão.
Recorrendo ao nosso esquema, podemos observar que tais visões são de natureza diencefálica, ou seja, o espírito comunicante excita, pela força do seu pensamento, o núcleo cerebral que controla a visão, e não o sistema ocular propriamente dito.
Podemos corroborar esta hipótese com um exemplo citado por Boddington, o da médium inglesa Rowan Yincent, que deixava seus amigos perplexos ao declarar que, "a despeito de descrever os espíritos, ela não os via". Ou seja, não os contemplava como seres objetivos, diante de seus olhos físicos, mas os tinha tão nítidos na mente que era capaz de descrevê-los com minúcias que positivamente os identificavam.
2. O CASO DO SR. DRAKE
A propósito da dificuldade de interpretação, Boddington tem a relatar um episódio ilustrativo e até um tanto divertido. Em visita a vários médiuns confiáveis, certo cavalheiro obteve comunicações convincentes de seu 'falecido' pai. Irritava-se, porém, com os verdadeiros 'palpites' que os médiuns lhe davam acerca da profissão ou dos gostos pessoais de seu pai.
Insistiam em dizer que o pai fora um fazendeiro, ou criara patos, ou adorava patos.
Isso durou algum tempo. Certa vez, um vidente lhe perguntou se seu pai costumava vender patos, - Certamente que não, respondeu o nosso amigo, já um tanto irritado. - Por que, então, ele insiste em me mostrar o pato? É um pato macho. Como você chama a um pato macho? Seu pai está rindo e disse que você tinha de saber do que se trata.
Foi, então, que se esclareceu o mistério de tanto pato nas vidências: os palmípedes machos chamam -se, em inglês, drake, e o espírito somente queria dizer que o nome dele era esse, ou seja, que ele era o velho sr. Drake!
O incidente nos suscita interessantes especulações. Observamos que o médium percebe o espírito a rir e a 'dizer' que o filho encarnado, ali presente, devia saber muito bem o que aquilo significava. Por que razão, então, não dizia logo o seu nome? Assim: - Diga-lhe que sou o sr. Drake, seu pai.
É simples a explicação: o fenômeno era de psicovidência. O espírito não estava 'falando' ou escrevendo, pelo médium, e sim, mostrando-se a ele pela vidência diencefálica. Ora, se a única linguagem do desencarnado é o pensamento, ele só poderia transmitir a palavra drake, 'mostrando' um animal com esse nome, ou seja, projetando, com a força do seu pensamento, uma ave conhecida pelo nome que ele queria transmitir, mas não tinha como dizer ou escrever, pelo menos com aquele médium. Lembram-se de que os espíritos usam a faculdade mais flexível que o médium lhes oferece?
Episódios como esses são prontamente agarrados pelos negadores profissionais para invalidar o fenômeno mediúnico. É fácil criticar, mas é também arriscado para quem não tem a mínima idéia do que realmente se passa na dinâmica do processo de comunicação. A verdade é que os espíritos, como vimos há pouco, não se utilizam de palavras, mas do pensamento puro. Sem poder articular a palavra Drake, para identificar-se através da vidência, serve-se de uma imagem, exibindo-se com um drake (pato) para expressar o que deseja, ou seja, sua identificação como sr. Drake.
É fácil mostrar-se à psicovidência rindo, ou transmitir ao médium via telepática, a idéia de que ele, o espírito manifestante, é o pai do Drake mais jovem, mas como dizer que ele é sr. Drake, se não dispõe de linguagem específica para falar e se não encontra no médium os recursos necessários para expressar-se de outra maneira? Ainda bem que existe na língua inglesa, um termo que servia como sobrenome do espírito para designar um palmípede. Mesmo assim, foi difícil fazer chegar entendimento do médium e do filho que o pato figurava na história não para indicar preferências ou a ocupação do espírito em vida, mas o sobrenome.
Imagino a dificuldade que teria eu, se tivesse de transmitir a alguém esse sistema, o meu nome, para o qual não vejo pato ou ganso que sirva...
3. CAPTAÇÃO E PROCESSAMENTO DA MENSAGEM
Se, porém, a comunicação é psicofônica ou psicográfica, a coisa na mais fácil. O espírito manifestante manipula os dispositivos psicos apropriados do médium e lhe dita, por audição coclear, o seu nome, escreve-o no papel ou faz o médium pronunciá-lo, enviando um comando ao apropriado. Como fazê-lo, porém, se somente dispõe da vidência e dos recursos telepáticos, mas não tem nas mãos o 'painel' que o liga com o do médium, nos centros que controlam a palavra (escrita ou falada)?
Boddington encontra algumas complexidades aqui: "Clarividência é considerada visão ampliada, mas os videntes ficam freqüentemente perplexos para explicar o processo pelo qual eles percebem informações que lhes são transmitidas. É difícil dizer se elas chegam pela audição, pelo controle psicofonial, pela impressão vocal que flui do desencarnado ou pela telepatia, vinda de pessoas do auditório. Cada um desses fatores entra ocasionalmente na comunicação. Quando a mixagem é perfeita, pode suscitar a idéia de que o médium não é uma entidade individualizada, mas parte da consciência universal que se manifesta. É claro que uma percepção ou compreensão abrangente figura nas melhores formas de clarividência."
(Idem).
Como podemos observar, o que está em jogo no mecanismo da captação de uma comunicação espiritual não são os sentidos, individualmente - visão, audição, tato etc. - , mas o dispositivo central que comanda e integra os sentidos numa percepção global, onde a mensagem captada não é visão, nem audição e, por conseguinte, não é também palavra e, sim, uma idéia, de vez que os instrutores foram taxativos e enfáticos ao declarar que os espíritos não têm linguagem articulada; apenas a do pensamento.
Logo, eles não impressionam os sentidos um por um, mas o núcleo central, no cérebro, onde as impressões sensoriais são analisadas, processadas e convertidas em imagens, sons, ou palavras faladas e escritas, ou permanecem como meras impressões que jamais atingem o estágio sensorial. A tradução sensorial do pensamento recebido do espírito manifestante já é elaboração do médium, e não emissão do espírito.