XVI
No caso do sr. Drake, por exemplo, o espírito teria formulado a seguinte programação: - Para que ele tome conhecimento de que me chamo Drake, preciso transmitir-lhe a idéia de que tenho um pato (drake) seguro pelas mãos. Em vez de chegarem, porém, a essa conclusão, que poderia ter sido ajudada pelo filho encarnado, os médiuns ficavam a imaginar explicações outras: que ele fora um fazendeiro, um criador ou caçador de patos, que gostava de pato assado, ou, ainda, simplesmente que gostava do bicho por qualquer razão pessoal não-específica. Se fosse no Brasil, seria bem possível elaborar- se logo uma interpretação que levasse ao jogo do bicho. Como, ao que eu saiba, não existe pato na escala zoológica dos bicheiros, é provável que a interpretação fosse mais elaborada. O leitor de bom-humor deve ler o complicado raciocínio de dona Angelina, mãe de Zélia Gattai - em Anarquistas graças a Deus -, para identificar, com acerto, o palpite que lhe estava sendo proporcionado pelo sonho de uma das suas filhas, irmã da autora. É uma delícia ... Comentando este aspecto, lembra Regina que nos livros de André Luiz todo mundo fala! É verdade. Duas razões existem a meu ver para que assim seja. Primeira: os livros de André são narrativas dramatizadas, escritas em linguagem didática, na qual o pensamento já aparece convertido em palavras que o nosso Chico psicografou. Segunda: os diálogos reproduzidos pelo autor espiritual não são comunicações mediúnicas, mas conversações entre espíritos desencarnados. Acrescenta Regina que, usualmente, os espíritos lhe dizem o nome para se identificarem, especialmente os que comparecem como 'visitantes' ao grupo em que ela serve. Outros conversam normalmente com ela. Também isto é certo. É preciso lembrar, contudo, que ela dispõe de recurso mediúnico adequado a receber, pela audição coclear (psicoaudiência), os nomes e os diálogos mentais, usualmente, senão sempre, realizados em estado de transe mais profundo ou mais superficial. Por outro lado, observo com muita freqüência a dificuldade que encontram certos espíritos em transmitir nomes, datas, aspectos geográficos e outros dados concretos e objetivos. Drake, por exemplo, dizia ao médium que seu filho deveria saber do que se tratava, mas não conseguia, ou não queria, simplesmente transmitir o seu nome, a não ser através da imagem do pato. Mais de uma vez se pôde observar, portanto, que clarividência é uma palavra bastante inadequada para rotular o fenômeno que leva esse nome. Só porque alguns aspectos da comunicação assumem feição visual, não quer dizer que o sensitivo seja clarividente ou psicovidente. Ele percebe, ao que parece, uma realidade global, via pensamento, e só depois de conhecida, processada pela unidade central do cérebro e distribuída pelos respectivos sentidos, então, sim, torna-se imagem, som ou palavra. Entram em jogo, então, variados sentidos, como supõe Boddington. Realmente, uma vez que a idéia do pato, para servir de identificação, foi transmitida pelo espírito e captada pelo médium, ele acaba 'vendo' um pato na visão diencefálica, e, com alguma ajuda, descobre afinal que o espírito apenas desejou transmitir o seu nome. Somente nesse estágio final é que a visão diencefálica se torna palavra - drake. O espírito, contudo, não a pronunciou, pois ele não se utiliza de palavra nem usou patos para isso, mas a idéia (pensamento) de um pato. Vimos, por outro lado, nas instruções de Kardec, que o espírito manifestante recorre à condição mais flexível que encontra no arcabouço psíquico do médium. Digamos que o médium tenha melhor inclinação e desembaraço para a psicografia. O espírito comunicante emite um pensamento - comando que vai ativar centros motores da palavra escrita. Basta ao médium apanhar o lápis, papel e escrever, não o que está pensando por sua própria conta, pois ele pode até distrair-se com outra coisa, como acontece a muitos psicógrafos, mas o que outra mente, ligada no momento à sua, está pensando. Ele apenas assiste, portanto, à sua mão que escreve. O pensamento do espírito comunicante está atuando sobre centros nervosos incumbidos de movimentar a mão do médium. A sua visão, no caso da psicovidência, ou o seu aparelho fonador no caso da psicofonia. Na fase em que a comunicação flui entre o espírito e o médium, o problema da palavra ou da visão ou do som ainda não surgiu; ele só ocorre e é resolvido na etapa seguinte, entre o médium e os destinatários da mensagem ou comunicação. Observamos, portanto, que há três etapas distintas na comunicação mediúnica. 1ª - Primeira: transmissão do pensamento do espírito manifestante para o médium; 2ª - segunda: recepção desse pensamento e processamento dessa informação na unidade central sensorial do médium, que a converte em imagem, som ou palavra: e, finalmente. 3ª - a terceira: quando o médium emite para o destinatário não mais um pensamento, mas a palavra, escrita ou falada qual procura descrever a 'imagem' ou o 'som' recebido do espírito sob a forma de pensamento puro. Quando a parapsicologia quebrou o tabu filosófico de que tudo quanto vai ao intelecto (à mente) tem de vir necessariamente por um dos sentidos apenas confirmou essa realidade, ou seja, a de que o pensamento se transmite puro, de mente a mente, e só se torna expressão sensorial depois de devidamente processado pela unidade central de comando dos sentidos. Por isso é que Rowan Vincent descrevia com minúcias espíritos que ela não via. 4. O PROBLEMA LINGÜÍSTICO "Os nossos pensamentos não precisam da vestidura da palavra para serem compreendidos pelos espíritos e todos os espíritos percebem os pensamentos que lhes desejamos transmitir, sendo suficiente que lhes dirijamos esses pensamentos, e isto em razão de suas faculdades intelectuais". (Kardec. Allan. 1975.) O problema lingüística não ocorre nesse nível, portanto; quando, porém, se torna indispensável vestir o pensamento com a palavra para que o destinatário (encarnado) o compreenda, cabe ao médium fazê-lo. "Essa a razão por que, seja qual for a diversidade dos espíritos que se comunicam com um médium, os ditados que este obtém, embora procedendo de espíritos diferentes, trazem, quanto à forma e ao colorido, o cunho que lhe é pessoal. Com efeito, se bem o pensamento lhe seja de todo estranho, se bem o assunto esteja fora do âmbito em que ele habitualmente se move, se bem o que nós queremos dizer não provenha dele, nem por isso deixa o médium de exercer influência, no tocante à forma, pelas qualidades e propriedades inerentes à sua individualidade". (Idem) Aí está a teoria do nosso modesto esquema das cores, proposto páginas atrás. Imaginando que o ser encarnado somente perceba a cor verde e que o espírito só disponha do azul, torna-se necessário o amarelo do médium para produzir o melhor verde possível. Não deixará este, contudo, de apresentar manchas ou tonalidades amarelas na contextura do verde azulado. O espírito comunicante, como diz Kardec, "compreende, sem dúvida, todas as línguas, pois que as línguas são expressão de um pensamento". Muitos nem percebem a tolice que dizem, ao tentarem ridicularizar o espiritismo, porque Sócrates, Galileu ou Paulo, o Apóstolo, se expressaram em francês, junto de Allan Kardec, através dos médiuns da época. A tola tentativa de ridicularização somente pode demonstrar a ignorância de quem a propõe, pois os espíritos não falam línguas, eles apenas pensam. Tive mais de uma demonstração experimental dessa verdade no decorrer das inúmeras experiências de regressão da memória em seres encarnados, como ficou registrado no livro A Memória e o Tempo. Num dos casos, a sensitiva via, diante de si (visão diencefálica), um texto em árabe, que, em estado de vigília, ela não conhecia, e por isso declarou-se incapaz de lê-lo para mim. Disse-lhe eu, então, que de fato ela não podia ler uma língua que lhe era desconhecida, mas o texto era a expressão gráfica ou visual de um pensamento no sentido ela podia captar, o que realmente aconteceu. Em caso semelhante - chamei-os de fenômenos de xenótica, visão de um texto em língua estranha à do sensitivo -, a pessoa via nomes em caracteres gregos, língua que não conhecia em vigília. Neste caso, porém, ela descreveu a forma das letras (um triângulo=delta; um K=kapa, e assim por diante), tornando possível decifrar nomes. Também relacionada com o problema lingüístico foi a experiência na qual o sensitivo, desdobrado e regredido no tempo, a uma experiência na França, não falava francês como seria de esperar. Perguntado a respeito, disse ele que falava, sim, "aqui em cima", ou seja, com o corpo perispiritual, mas lá embaixo, no corpo físico, não 'saía' em francês. É que recuado no tempo em que fora francês, ele julgava falar francês, quando apenas pensava. Ao chegar aos seus próprios centros nervosos, no corpo físico, aquele pensamento era convertido não em termos da língua francesa mas em português, sua língua materna nesta vida, para a qual estava programada sua personalidade. Sustentei, a propósito disso, uma correspondência com o eminente prof. Stevenson que, embora à época mantivesse seu ponto de vista de que a pessoa recuada a esta ou àquela existência deveria falar a língua correspondente acabou convencido ao longo dos anos de que realmente o espírito parece prescindir da língua e apenas emitir pensamento puro. 5. PONTO CRÍTICO: A MENTE DO MÉDIUM De tudo isso se depreende a responsabilidade do médium e o seu envolvimento no processo da comunicação mediúnica. É ele que 'veste' o pensamento dos espíritos e os converte de uma linguagem sem som, em imagens e sem palavras em sinais ou códigos que permitam o entendimento de tais mensagens por aqueles que não têm como captar o pensamento por via direta.
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Nome do Capítulo Semiologia da comunicação