Assim, por linhas indiretas, Regina ficou sabendo do drama e providenciou logo um dos seus enxovais. Estávamos na quadra fria do ano e, às vezes, caía uma chuvinha fina e longa, dessas que duram dias inteiros. Além do mais, Regina sonhara, há poucos dias, com uma criança que correspondia àquela situação: tiritando de frio, nos fundos de um quintal, enrolada em trapos.
No dia seguinte, a empregada da sua amiga passou em sua casa para apanhar o enxoval para o bebê do galinheiro. E, mais uma vez, a roupinha produziu seus costumeiros milagres. A menina-mãe, ao ver o enxoval, desatou a chorar com a criança aconchegada ao seio. A dona da casa, comovida, ou porque a criança pelo menos tinha roupa suficiente, acolheu de uma vez a menina. Uma vizinha, que ouvira falar no incrível enxoval, ofereceu emprego à moça e a criança ficou com a primeira - que já cuidava mesmo de netos e não lhe faria muita diferença olhar a criança, enquanto a mãe trabalhava, ali mesmo, por perto. Com autorização da patroa, a menina ia, nas horas certas, dar de mamar à criança.
É assim a vida. Alguns retornam dentro de palácios: outros preferem um galinheiro.
Sabem por quê? É que o bebê do galinheiro provavelmente já andou pelos palácios e não deu muito certo. Talvez tenha tropeçado nas riquezas. Voltando pelo galinheiro, vai recuperar sua identidade de ser humano, como os outros, e nunca mais irá tropeçar no ouro, porque vai preferir pular por cima dele.
HISTORINHA VI
Este é o caso do bebê baiano.
Os pais de uma vizinha de Regina eram fazendeiros no interior da Bahia. A moça estava de viagem marcada para lá, em visita, quando recebeu da mãe a carta que trazia uma história. Descobrira lá uma pobre mulher, trabalhando de 'gari', grávida do décimo filho. E com as constantes de sempre: marido doente e sem emprego. O dinheirinho escasso, mal dava para enganar a fome de todos. Como pensar em comprar roupa para o décimo filho? A saúde era precária, varizes pelas pernas, alimentação deficiente, o mesmo quadro penoso de milhões e milhões de pessoas marginalizadas pela miséria.
A vizinha de Regina disse-lhe que ia levar alguns metros de flanela para ajudar a pobre criatura.
- Por que não leva um enxoval? É para isso que os temos.
Assim foi feito. Semanas depois, quando retornou da Bahia, contou-lhe a história do enxoval. Logo que chegou à fazenda, foi com a mãe levá-lo à família necessitada. A mulher parecia nem estar entendendo direito. Enxoval? Para ela? De onde vinha?
Quem mandava? Por quê? A moça abriu o pacote e começou a mostrar as diversas peças. A outra assistia muda, em evidente agitação emocional. Em seguida, desatou a chorar e, sem controle das emoções, ria também, e, à medida que ia pegando as peças, suas mãos tremiam. O pai, cego, que morava com ela, desejou saber qual o motivo de toda aquela agitação e ela queria, por força, que ele visse a roupinha que o neto estava ganhando. Quando lembrou que ele não podia ver, ela passou-lhe as roupinhas para as mãos, para que ele pudesse vê-las, pelo tato.
Também esse enxoval produziu alguns milagres menores, além da enorme alegria a um coração que, talvez, nem mais soubesse o que era sorrir. O fazendeiro, pai da moça, deu emprego ao marido da mulher necessitada para que ele pudesse gozar logo dos benefícios do Funrural e, por isso, a mulher já teve condições de ter aquele filho num hospital razoável. Com o marido empregado, ela não precisou mais varrer ruas e passou a cuidar melhor das crianças. No hospital, uma freira pediu por ela ao médico, que não apenas a livrou das varizes, mas ligou-lhe as trompas para que não tivesse mais filhos, naquelas condições de penúria e de saúde. Recebido o auxílio-natalidade, voltou para casa com mais uma criança para retomar a vida, agora com um pouco mais de esperança.
Num incidente quase despercebido, esta mulher viveu, na realidade, o papel da viúva de que fala o Cristo. Pediu à moça, que insistira em levar-lhe alguns metros de flanela, que desse aquele pano a quem precisasse mais do que ela. Afinal de contas, ela acabara de ganhar um enxoval completo. Havia gente precisando mais do que ela.
Talvez nem saiba que viveu a parábola do óbulo da viúva. Na sua pobreza extrema dera o mais rico presente. Enquanto uns dão do que sobra, ela deu quase tudo o que tinha ...
HISTORINHA VII
Neste caso, interferiu, mais uma vez, aquela faxineira da outra história. Sua vizinha de barraco estava grávida. Tinha já uma criança de dois anos e meio e o marido a abandonara por outra moça. Na aflição do primeiro momento, foi para a casa da mãe, com uma criança pelo braço e a outra em gestação. A pobre senhora, contudo, não tinha como suportar aquela carga adicional, pois vivia de lavar roupa. E reclamava. A moça resolveu, então, dar a criança que estava para nascer a uma senhora de posses.
A mulher lhe daria o enxoval, mas queria a criança antes mesmo de sair da maternidade. Iria buscá-la, no momento oportuno.
Regina pediu à moça que viesse à sua casa. Ela veio. Sentou-se, barriga enorme, já nos últimos dias, desalentada, sofrida, revoltada mesmo. Regina procurou acalmá-la, pedindo-lhe que tivesse fé em Deus, que a situação haveria de ter um jeito. Mas, o que fazer ante a realidade? O pai não iria ajudar e ela não podia trabalhar, porque ainda tinha o outro para cuidar.
- Mas, por que essa senhora não ajuda você, ao invés de pedir a criança para ela?
- Ela disse que não pode ter filhos. E como eu não tinha nem uma fralda para a criança, concordei. Como é que meu filho ia nascer assim? Mas, agora, já tinha a roupa, ponderou Regina. Quem sabe se dava um jeito? O fato, porém, é que já havia prometido a criança à senhora rica.
Regina tentou outra fórmula, propondo à moça que, em vez de entregar a criança na maternidade, a levasse para casa, vestisse-a bem bonitinha e a entregasse à moça, lá no barraco. Ela concordou com a sugestão. Obviamente, não era uma mãe insensível.
Estava apenas desesperada e, talvez, disposta à separação a fim de proporcionar futuro melhor para o seu filho.
Regina soube, depois, do ocorrido. Aconteceu o previsto. A senhora foi buscar a criança, mas a mãe recusou-se a entregá-la. Estava disposta a criar mais um, fosse qual fosse o sacrifício.
São muitas historinhas; cerca de uma centena delas. Os enxovais parecem ter uma carga mágica; e têm mesmo, porque foram feitos com amor, caprichosamente. Levam, consigo, a vibração pacificadora do amor. A mãe, quase sempre em desespero, que recebe o impacto de um enxoval 'assim', volta a acreditar na bondade, sente renascer a esperança, fica fortalecida para as lutas que continuam; parece considerar como mensageiros da paz crianças nem sempre desejadas, que se apresentavam apenas como "mais um" filho. Por isso há tanto choro e tanta emoção. São pessoas habituadas ao sofrimento e à humilhação; à penúria e à provação e, de repente, alguém lhes mostra que são gente também, e que não estão esquecidos de Deus.
Por isso tudo, os enxovais são também mensagens vindas de um mundo futuro, quando todas as mães terão enxovaizinhos e os espíritos que renascerem não precisarão mais passar pelos galinheiros ou pelos barracos sem luz e sem água, onde nem sempre há espaço para o amor, porque a dor incompreendida vira revolta.
Por tudo isso, a tarefa dos enxovais é mais do que um suporte ao exercício da mediunidade e muito mais do que um mero trabalho manual. Ela, é o capítulo 13 da Epístola de Paulo aos Coríntios. Na sua sabedoria luminosa, o caríssimo apóstolo colocou o apelo à caridade exatamente no meio de seu maravilhoso 'livro dos Médiuns', entre o capítulo 12, que fala dos dons espirituais e o 14, que discorre sobre a hierarquia dos carismas.
Ficou clara a sua mensagem: mediunidade não se resume em receber espíritos, por incorporação ou na psicografia; é também recebê-los nos braços; dar-lhes roupa, afeto, encorajamento, esperança, para que tenham fé, enquanto não estiverem convencidos da realidade espiritual. Como dizia Paulo, a fé é a substância das realidades invisíveis.
Uma vez chegados a essa realidade, em lugar da fé, a convicção assume, em nós, o seu posto. E aí, cremos porque sabemos.
- "... subsistem a fé, a esperança e a caridade, essas três " - diz Paulo ao encerrar o capítulo 13. Mas a maior de todas elas é a CARIDADE..
Por isso é que os gregos, que sabiam das coisas, criaram raízes semelhantes para caridade e para carismas. Queriam dizer, com isso, como o fez Paulo, que a caridade é também um dom mediúnico, como os demais; aliás, "o caminho mais excelente", no dizer do apóstolo.
E, se dermos mais um passo nesta meditação, descobriremos que o capítulo seguinte - o de número 15 - cuida da ressurreição, ou seja, da sobrevivência, a grande mensagem esquecida do cristianismo.
A tarefa dos enxovais foi posteriormente ampliada através de um pequeno centro espírita instalado numa das favelas cariocas, que proporcionou ao nosso grupo e a outras pessoas de boa vontade, condições de desenvolver trabalho paralelo com certa continuidade, visando a minorar necessidades mais prementes de alimentos básicos, agasalhos, roupa e calçado, bem como aulas de evangelização para crianças, de bordado para as mães e outras atividades assistenciais.
Como sempre acontece em situações assim, os recursos começaram a aparecer. São pessoas que trazem mantimentos, roupas, cobertores, donativos em dinheiro, bem como a doação valiosa de seu próprio tempo e trabalho.