De outra dessas comunicações também ela se lembra. Fora levada até determinado local por um caminho iluminado. Subitamente, aproximou-se venerável entidade que parou a poucos passos dela. O espírito ergueu o braço direito e começou a transmitir o seu pensamento enquanto o 'alto falante' do corpo físico, junto aos companheiros encarnados, reproduzia o teor da mensagem.
10. DESLIGAMENTO E RETORNO À NORMALIDADE
A desincorporação dos companheiros em tratamento sempre causa certo choque, como no início, ao serem feitas as ligações perispirituais. De volta ao corpo físico, Regina, como outros médiuns, pode necessitar de alguns momentos para reassumir a consciência de sua própria identidade, do local onde se encontra e coisas assim. É como se, subitamente acordada por uma explosão, ela precisasse tomar conhecimento do que se passa. A intensidade dessas dissonâncias depende, obviamente, do estado de desarmonia do espírito que acaba de servir-se de seu corpo físico. Alguns deles, mesmo que causando choque inicial ao se incorporar, desligam-se sem grandes problemas porque conseguem tranqüilizar-se durante o longo diálogo mantido em função dos passes que receberam e das preces que foram pronunciadas em seu favor.
O mais comum, no entanto, é o desligamento algo traumático. Traumatismo, aliás, que dura pouco, pois ela costuma ser atendida prontamente com passe" transversais de dispersão e, em seguida, passes longitudinais tranqüilizadores ou imposição de mãos sobre a testa e a nuca, por exemplo, sobre a garganta quando particularmente afetada, ou ainda sobre o plexo solar.
Algumas situações específicas podem ocorrer entre as muitas variáveis possíveis. Às vezes, por exemplo, o espírito ameaça continuar incorporado. Embora nunca o tenham conseguido, é certo que a luta que se trava deixa Regina exausta, quando, afinal, a entidade se desliga.
De outras vezes, ela própria reluta em reassumir os controles de seu corpo, dado que a sensação de euforia e liberdade ou a convivência, por alguns momentos, com entidades muito amadas e carinhosas acabam por gerar sua mente a passageira idéia de que seria preferível 'ficar lá', naquele mundo melhor, onde as pessoas são tão maravilhosas. Mas isto também é passageiro, logo, logo, o canário que voou pelo espaço livre e cantou a melodia do amor universal volta, abre a porta da sua própria gaiolinha, fecha atrás de si e vai cantar o cântico melancólico da saudade do futuro, quando um dia, estará livre para sempre.
Acontece, ainda, ela reassumir o corpo mas ficar, por alguns momentos debruçada sobre a mesa, um tanto inerte. Ouve o doutrinador que lhe pede que volte, mas, a princípio, não consegue mover-se. Só após uma série de passes de dispersão, ela reage, afinal, ao estado de lassidão e reassume os controles mentais.
Após certas incorporações mais traumatizantes - quando os espírito despertam, em desespero, para uma realidade dolorosa -, ela 'volta' com uma terrível sensação de 'vazio' na mente, como se não tivesse mais cérebro, fosse incapaz de pensar e nem mesmo soubesse da sua identidade. É uma sensação angustiante e aflitiva. Ela percorre com o olhar o ambiente, observa as pessoas em torno da mesa, rostos familiares, afinal de contas, mas nada daquilo faz sentido para ela. Onde está? Quem é aquela gente ali? Que estão fazendo? E quem é ela própria? É hora de o doutrinador interferir mais uma vez com os passes para dispersar fluidos que ainda envolvem e com palavras que lhe assegurem que ela é Regina, que tudo está bem e em paz. De repente, ela descobre que é ela mesma. (É a mesma sensação que experimentava quando voltava de suas 'ausências', durante a fase de fenômenos já relatados alhures, neste livro, sob o título "Condomínio Espiritual", o que parece comprovar a nossa teoria de que, durante tais 'ausências', ela, provavelmente desdobrada, tinha seu corpo controlado e dirigido por outra(s) entidade(s)).
É claro que, ao retornar, o médium pode encontrar no corpo os resíduos magnéticos deixados pela entidade que acaba de ser desligada. Durante algum tempo - às vezes, mais de uma hora - viveram naquele corpo pessoas atormentadas por mil problemas aflitivos: dores físicas e morais, estados de angústia, rancor, ansiedade, insegurança e temor. Enquanto em desdobramento tais sensações lhe chegam por via indireta, por reflexo e, portanto, atenuadas, de volta ao corpo, reintegrado a todos os seus dispositivos sensoriais, ele sente uma realidade física, a presença da dor concreta, pessoal, como se fosse própria.
Pode encontrar, ainda, como eco visual, imagens que se projetaram da lente da entidade tratada, ou seja, ele continua vendo cenas que parecem ter ficado, por um momento, retidas no seu psiquismo, ou na atmosfera psíquica que o envolve. Talvez o cérebro físico capte a criação mental das entidades, que persiste, em vista da dramática intensidade com a qual as imagens foram disparadas e sustentadas.
Algumas dessas vidências a posteriori são revestidas de trágico realismo. Regina se lembra de uma delas, particularmente chocante: um homem amarrado a um cepo, com a cabeça esfacelada por sucessivas arremetidas de um daqueles infernais instrumentos de agressão medieval constituído por uma bola cheia de pontas de ferro por toda a superfície e que gira, presa por uma corrente, também de ferro, a um cabo como o de um chicote. Foi uma cena inesquecível.
O realismo de tais vidências é impressionante. Quando o grupo cuidou de uma comunidade de judeus que morreram vitimados por atrocidades promovidas por oficiais nazistas, ela foi ao encontro de um deles que ainda se via detido num dos tenebrosos campos de concentração da época. Lá ela ficou depois que entidade foi desligada - um jovem ainda perplexo, sem entender sequer o que acontecera com ele. Estudava na França quando, em visita à Alemanha, fora agarrado e levado para o campo de concentração onde acabou trucidado como os outros. Só que ele não sabia que já estava 'morto'. Recusava-se a aceitar aquela realidade dura que ceifara, de um só golpe, todas as suas esperanças. Terminada a manifestação. Regina não conseguia voltar para o corpo e despertar, embora pudesse ouvir a voz do doutrinador a chamá- la. Sentia-se encerrada num espaço cercado de arame farpado, finamente tecido e eletrificado. Tinha receio de atravessar a cerca. Só depois de ouvir palavras de confiança e tranqüilização do doutrinador, conseguiu vencer sua inibição e atravessá- la. Daí se pode ter uma idéia de como estava a pobre entidade fixada naquele terrível ambiente onde a sua vida física se extinguira e onde ainda se mantinha mentalmente aprisionada, ignorando sua condição de ser desencarnado.
Se a entidade se apresenta com algum defeito 'físico' - como paralisia, dor localizada em algum órgão, um membro decepado ou coisa semelhante, ela encontra o local ainda sensível ou com uma sensação de desconforto. Quando necessário, alguns passes são dados e ela retoma logo a normalidade. Certa vez, ao retomar o corpo, não conseguia mover as pernas e nem as sentia. A entidade que acabava de se retirar era paralítica da cintura para baixo.
Outro espírito a deixou com resíduos de seus problemas circulatórios, dado que desencarnara de um infarto. Durante a conversa com o doutrinador, levado por forte emoção, começou a passar mal. Ao reassumir o corpo, Regina estava sentindo dores precordiais.
Alguns médiuns se queixam de mal-estar depois das reuniões. Se o médium nos primeiros momentos, ao retornar ao corpo físico, sofre repercussões dos resíduos ali deixados pela entidade manifestante, bastam-lhe alguns passes para que se refaça com relativa presteza.
Terminado o atendimento da noite, às vezes, tem-se a palavra de algum amigo espiritual, quando há tempo disponível para isso, pois há um respeito severo ao horário.
A prece final encerra os trabalhos. É possível que Regina ainda tenha algum breve recado a transmitir ao doutrinador, mas não por incorporação. Ou, então, ela pode identificar (ou não) certos espíritos que comparecem por motivos diversos: vêm participar do trabalho, têm qualquer vínculo com o companheiro encarnado ou se mostram interessados no trabalho que vem sendo desenvolvido junto aos companheiros em tratamento. Raramente se comunicam esses 'visitantes', que se portam com irrepreensível discreção. Regina os vê, por vezes, aproximarem-se de um ou outro companheiro encarnado e envolvê-lo num abraço fraterno e carinhoso.
11. QUATRO FACULDADES BÁSICAS
O problema da clarividência foi abordado no local próprio deste em conexão com a fenomenologia anímica. Vamos retomá -la, a seguir com enfoque algo diferente a fim de estudá-lo no seu aparente envolvimento com os fenômenos mediúnicos.
Iniciemos, pois, com uma ligeira recapitulação.
Partindo do conceito formulado por Allan Kardec de que médium é a "pessoa que pode servir de intermediária entre os espíritos e os homens", não há como deixar de concluir que somente há fenômeno mediúnico quando entra em ação essa estrutura básica, na qual figuram o espírito desencarnado, o intermediário e os seres encarnados. A comunicação mediúnica é o seu prooduto. Por isso, estamos propondo um reexame em certos aspectos da fenomenologia psíquica que estão sendo indevidamente tomados por mediunidade quando são manifestações anímicas.
Tomemos, para objetivar tais aspectos, quatro das mediunidades básicas: psicofonia, psicografia, vidência e clariaudiência.