O processo da regressão da memória como instrumentação auxiliar da mediunidade nos permite, assim, mostrar ao perseguidor de hoje o argumento irrespondível, fornecido por ele mesmo, para convencê-lo de que ele pode, claro, exercer sua vingança, mas não lhe convém fazê-lo porque se expõe a outra reviravolta, em futuro imprevisível, mas inevitável.
Ora, em nossa prática mediúnica, observamos que os passes magnéticos dados no corpo do médium alcançam o espírito manifestante que a ele se acha ligado pelo respectivo perispírito, através de suas auras. Uma vez adequadamente saturado de fluidos magnéticos - e nesse caso alguém precisa dispor de tais faculdades no grupo mediúnico - o espírito mergulha na sonolência e pode ser, com relativa facilidade, ser regredido no tempo em busca das suas memórias bloqueadas, mas não perdidas, porque tudo se grava em cassetes invisíveis da mente.
O leitor poderia perguntar que efeitos teria uma regressão dessa no médium. É certo que ele recebe, também, a sua quota de magnetização produzido pelos passes que são aplicados, afinal de contas, em seu corpo também ele fica um tanto sonolento, mas ao retomar o corpo físico, o espírito manifestante é desligado, é fácil reconduzi-lo à normalidade por meio de passes dispersivos, aplicados transversalmente, em vez de longidunais como os passes indutivos.
Feita essa digressão, voltemos ao exame das diversas modalidades de corporação experimentadas por Regina, no exercício da sua mediunidade.
Percebe ela, por exemplo, que às vezes a entidade reluta em incorporar-se, e mesmo estando ali, ao seu lado, ainda se mostra indecisa ou mesmo disposta a recuar. Ela diz sentir os entrechoques da luta que se passa na intimidade do espírito sob forma de pressão indefinível que, se durar muito tempo, causa-lhe enorme canseira. Em certas ocasiões, ela precisa mesmo pedir a ajuda do doutrinador para que a ligação se faça com o auxílio de passes magnéticos. Em tais casos, o impacto do choque elétrico que ela costuma experimentar é bem mais forte. Parece que o espírito chega com uma carga superior à sua. Não há como ligar suavemente os dois campos magnéticos vivos, em situações como essa. Como na eletricidade, o circuito está aberto ou fechado, ligado ou desligado; não pode estar meio aberto ou meio fechado.
De outras vezes, ela vê a entidade à sua frente, antes da incorporação, a fazer-lhe ameaças dizendo, entre outras 'amenidades', que vai 'acabar' com ela. Também em tais situações ela pede ajuda, mesmo porque já se encontra, naquela etapa da incorporação, com a sua sensibilidade um tanto exacerbada como se estivesse com 'os nervos à flor da pele'. Como ainda se acha no seu próprio corpo e condicionada às suas limitações, acaba por registrar uma tendência à intimidação. Cabe ao doutrinador, nesse momento, proporcionar-lhe o conforto de sua presença e de sua confiança, assegurando-lhe que nada poderá acontecer àquele que está a serviço do bem, o que é estritamente verdadeiro.
9. ATIVIDADE MEDIÚNICA EM DESDOBRAMENTO, À DISTÂNCIA
Há casos em que a entidade a ser tratada não se encontra no recinto da reunião, e sim no seu reduto. Regina percebe logo, ou é informada pelos amigos espirituais responsáveis pelo trabalho, que terá de ser desdobrada e levada até onde se encontra a entidade com a qual se deseja o diálogo. É lá, onde o espírito tem suas instalações e o seu grupo, que é promovida a ligação perispírito a perispírito, e é de lá que a comunicação é transmitida ao corpo físico, junto à mesa de trabalho mediúnico.
Como esses casos são, usualmente, muito marcantes, ela guarda alguns episódios na lembrança.
Terminados os preparativos para a reunião, o orientador espiritual coomunicou-lhe que iriam 'sair', que Regina o acompanhasse. Ela informou o doutrinador, perguntando-lhe se devia ir. A resposta foi pronta, sumária, e positiva: - Sim. Regina desligou-se do corpo e saiu. Retirou-se da sala de trabalhos por uma porta lateral - que ela informa não ser a que existe no plano físico e, sim, outra invisível - e, após caminhar algum tempo, chegaram a uma região onde o terreno era bastante acidentado. O amigo espiritual trazia uma pequena lanterna semelhante a um lampião a querosene ou gás com uma alça por cima e o foco luminoso dentro de uma campânula de vidro.
Desceram por um barranco, percorrendo uma trilha estreita e barrenta. Era possível divisar pequenas cavernas, mais abaixo, simples buracos abertos no barranco. O amigo espiritual caminhava à frente e Regina a um ou dois passos atrás. Entraram numa das cavernas. Era exíguo o espaço lá dentro e havia símbolos e apetrechos de magia por toda a parte. Foi pelo menos a impressão que ela teve daquele estranho instrumental. Ao fundo, um pequeno altar ou coisa parecida. No centro, sentava-se, imóvel, uma figura humana de aspecto assustador. Era um homem de nariz adunco, expressão fadal indescritível, vestindo um manto indefinível.
Dormitava, no alto da sua cabeça, um corvo negro e soturno. Tranqüilizada pela presença do amigo espiritual. Regina não se sentiu apavorada e manteve-se calma.
Foi daquele sinistro cenário de pesadelo que a comunicação se transmitiu.
De outra vez, ela foi levada ao encontro de uma entidade que fora, 'em vida', um homem terrível, cujo nome a história registrou precisamente pelo vulto das suas façanhas bélicas e suas conquistas territoriais. Ele estava com que plantado em pleno deserto, sozinho, à sua espera. Sua primeira impressão foi aterradora, mas logo percebeu - provavelmente os dirigentes espirituais do grupo lhe transmitiram algo a respeito - que todo aquele aparato não passava de uma 'fachada' para impor respeito.
Aparentemente, o atrabiliado guerreiro estava já esvaziado de seus impulsos. O simples fato de poder ser abordado por um grupo mediúnico, em trabalho, já servia para dar o tom seu estado de espírito. Embora ainda resistam e reajam, os espíritos em tais condições já estão começando a ceder ao cansaço, ao enfado, ao desencanto, e dispostos a dar uma parada para pensar e até reiniciar a marcha renovadora, em busca de outros horizontes.
Mas, lá estava ele, ainda impressionante, de pé, espada à cinta, desafiador. Um dos olhos estava coberto por uma tira de pano escuro, como os artistas costumam figurar os piratas. Foi dali, daquele remoto ponto na sua 'geografia' pessoal que a ligação foi feita para que o doutrinador, lá na mesa de trabalho, pudesse falar com o antigo líder.
Outra experiência assustadora para Regina foi seu encontro, em desdobramento, para servir de médium junto a uma comunidade de bruxos. Saíra a caminhar, sempre sob a proteção do orientador espiritual do grupo, até que se encontrou numa clareira, em plena floresta densa e escura. Chegaram a um ajuntamento de espíritos de aparência soturna, vestidos de maneira estranha, mascarados ou encapuzados. Um deles empunhava um estandarte de cor amarelada, no qual se desenhava uma caveira. A curiosa "procissão" caminhava sob uma luz baça que mal permitia distinguir certos detalhes, de repente, eles começaram a dançar um ritual com a óbvia intenção de intimidá-la.
Desse ponto em diante - até aí ela descreveu todas as peripécias ao doutrinador - ela não se lembra de mais nada. É que o chefe daquela fantástica confraria das sombras acabara de 'incorporar-se', isto é, estabelecer com ela as ligações perispirituais para dialogar com o doutrinador.
Em outra oportunidade, Regina foi levada a um 'campo' onde o espírito com o qual estava programado o contato havia 'enterrado' dezenas de pessoas que ele assassinara, quando encarnado. Só esta incrível façanha é suficiente para evidenciar o vigor de sua mente e a relativa facilidade com a qual manipulava os recursos da hipnose. Não só conseguiu arrebanhar suas próprias vítimas - certamente comprometidas, também gravemente, perante a lei - como reduzi-las à inação, convencendo-as a se deixarem 'enterrar'. A terrível entidade estava de plantão debaixo de uma árvore e dali não concordava em arredar o pé. Feita a ligação, pôde ser doutrinada. Já na reunião seguinte, foi possível levá-lo à sala mediúnica, obviamente indignado, porque o haviam afastado - segundo ele, pela violência - de seus domínios.
Por motivos inteiramente diversos, também os contatos com alguns mentores ocorrem por incorporação ou ligação à distância, como já vimos. Uma dessas entidades, por quem a médium tem uma ternura muito especial e antiga - Regina foi sua filha em agitado período da civilização egípcia -, certa vez comunicou-se dessa maneira.
Encerrara-se o atendimento da noite aos espíritos necessitados, quando Regina divisou, ao longe, através de um cone luminoso, a figura da entidade. Foi de lá mesmo que ela começou a transmitir-lhe seu pensamento, mas não por incorporação ou contato espiritual e, sim, por palavras, via telepática. Ela parecia 'falar' e Regina repetia o que ouvia, como uma intérprete.
A entidade, porém, preferiu modificar o processo para que a comunicação fosse mais nítida, logo Regina sentiu-se desdobrada e levada até o espírito. Via-se, ela própria, como uma adolescente, com cerca de quinze anos de idade, vestida com uma túnica leve e esvoaçante, à moda egípcia, que lhe descia até os joelhos. A entidade estava num local à beira mar, em frente a um lindo bosque. Sentou-se em um banco e Regina sentou-se ao seu lado, não feliz que não conseguia articular uma só palavra. O espírito puxou-a para si, deitou-lhe a cabeça em seu colo e começou a acariciá-la mansamente. A partir desse momento, ela percebeu que, através de seu corpo, lá na sala mediúnica, a comunicação chegava aos demais companheiros. Foi um momento nesquecível para ela. De volta ao corpo, foi vencida pelas emoções e começou a chorar, sufocada.