Antes de irmos adiante, proponho abrir certo espaço para algumas considerações de natureza terminológica. São bons e adequados os termos psicofonia e psicografia, que classificam manifestações psíquicas faladas ou escritas. Já o mesmo não se pode dizer de vidência (ou clarividência) e clariaudiência. A uma primeira abordagem do problema, propusemos separar o termo clarividência para caracterizar apenas os fenômenos de vidência à distância, pelo espírito encarnado em desdobramento, o que o conceitua como fenômeno anímico. Neste caso, ficaria o termo vidência reservado apenas para os fenômenos de natureza nitidamente mediúnica, quando contamos com o esquema básico de que há pouco falávamos, ou seja, quando há espírito (fonte emissora), médium (veículo) e seres encarnados (destinação). Seja como for, porém, o termo vidência, bem como clarividência, estão fora de compasso com os demais (psicofonia e psicografia). Por certo comodismo tradicional, foi adotada a primitiva expressão clarividência - visão clara - sem melhor exame das suas possibilidades e de seu conteúdo semântico. Era a palavra proposta pelos primeiros magnetizadores franceses - clairvoyance. Pelo mesmo comodismo, os ingleses a adotaram sem alterar uma só letra, dado que poderiam tê-lo feito já que dispõem, em sua língua, das palavras adequadas para traduzir tanto clair, como voyance, ou seja, clear e vision, visão clara.
Parece, contudo, que a palavra nasceu com inusitada força, se impôs e consolidou. É até compreensível que tenha servido aos seus propósitos iniciais e ainda possa servir para caracterizar os fenômenos anímicos de visão à distância, mas para fenômenos mediúnicos é inadequada. A maneira correta de rotular a chamada mediunidade clarividente é o termo psicovidência, coerente com as demais já pouco citadas. Por extensão, em vez de clariaudiência, igualmente imprópria para o fenômeno da audição mediúnica, o termo desejável teria de ser psicoaudiência. E, assim mesmo, com algumas concessões à mistura de grego (no prefixo) com o latim, o que não ocorre com psicofonia e psicografia.
Digamos, pois, que as quatro modalidades básicas de mediunidade de efeito intelectual são psicofonia, psicografia, psicovidência e psicoaudiência. Isto, porém, voltamos a lembrar, quando entra em ação o esquema estrutural já conhecido, isto é, espírito manifestante, médium e ser encarnado. E mais: estamos no pressuposto de que o espírito manifestante (como está implícito na conceituação kardequiana) é um ser desencarnado. Se, porém, esse espírito é o do próprio médium - e ele inegavelmente pode comunicar-se por intermédio do seu próprio corpo -, então teremos a comunicação anímica. O exemplo mais comum disso é o da regressão da memória, na qual o ser encarnado desdobrado assume a sua condição de espírito, com acesso à sua memória integral e fala, psicofonicamente, pelo seu próprio corpo. Acho possível, por analogia, admitir que a comunicação seja mediúnica quando o espírito encarnado desdobrado transmite uma mensagem psicofônica ou psicográfica através de outro médium pois, neste caso, ele está funcionando como um desencarnado, como assinala Kardec ao dizer que, se o espírito desencarnado pode dar a sua comunicação, também o encarnado pode fazê-lo, e o faz, como espírito.
Da mesma forma, se o médium reproduz, por psicografia, um texto de autoria de um espírito desencarnado, está produzindo uma mensagem mediúnica, de vez que funciona como intermediário entre um espírito e seres encarnados. Se, porém, o texto provém de seu próprio espírito, por escrita automática, como tão bem estudou Gabriel Delanne em Recherches Sur Ia mediumnitê, então, estará produzindo um fenômeno anímico.
Vejamos, agora, esse mesmo conceito aplicado à vidência e à audiência. Se o sensitivo vê - visão normal ou diencefálica - uma cena no mundo espiritual e não a transmite a ninguém, falta o termo final da equação mediúnica ou seja, os seres encarnados. Não está, portanto, produzindo uma comunicação mediúnica, e sim, observando um fenômeno com seu próprio espírito. Se ouve ruídos, música ou frases pronunciadas por espíritos desencarnados, também não se caracteriza nenhuma comunicação mediúnica, a não ser ele as reporte a alguém, com algum objetivo.
Há médiuns, por exemplo, que pela psicovidência contemplam figuras espirituais invisíveis às demais pessoas presentes e lhe transmitem suas impressões ou recados.
Assim, por hipótese: - Vejo, ali uma mulher, vestida desta ou daquela maneira. Ela tem os cabelos longos e claros, presos por uma fita azul no alto da cabeça. Diz ela que se chama Aurora e manda dizer a Fulano, aqui presente, que está bem, apenas muito saudosa de todos deixou na Terra.
Trata-se, portanto, de uma comunicação mediúnica por psicovidência combinada com psicoaudiência, pois o médium viu e ouviu o espírito transmitindo as informações pertinentes a pessoas encarnadas que lhe são vinculadas por laços de amizade ou de família.
Divaldo Franco transmitiu-me, certa vez, um desses recados mediúnicos psicovidentes e psicoaudientes. Apresentou-se à sua visão espiritual uma senhora, que ele descreveu com precisão, pedindo-lhe para dizer que estava presente - que agora entendia bem a carta que eu lhe escrevera. Havia contudo, uma dúvida na curta mensagem: ela me apontava, mas dizia a ele que transmitisse o recado a João.
Só eu mesmo poderia ter entendido essa mensagem cifrada. É que pouco depois de iniciar a tarefa da divulgação pela escrita, que se desdobraria em mais de uma dúzia de livros, eu escrevera e publicara em Reformador, um pequeno artigo intitulado Carta à mãe Católica, no qual fazia minha profissão de fé espírita, mas em total respeito pelas convicções de minha mãe e com muito carinho pela sua maravilhosa personalidade.
Além do meu nome e das iniciais HCM, usava eu, àquela época, o pseudônimo João Marcus, e a carta fora assinada simplesmente João. Só após essas explicações, Divaldo pôde entender a enigmática comunicação mediúnica psicovidente e psicoaudiente.
Essas distinções me parecem fundamentais ao bom entendimento dos mecanismos da mediunidade, bem como à exata conceituação de fenômeno mediúnico, em contraste com fenômeno anímico. Este último não constitui nenhum fantasma assustador que é preciso combater tenazmente a ponto de inibir médiuns e espíritos manifestantes. É certo que precisam ser corretamente identificados, um e outro, e isso não é difícil de ser feito se aplicarmos ao exame de cada caso, como recomenda a doutrina, os critérios aferidos do bom-senso, instruído por um conhecimento seguro, convicto e profundo do espiritismo e dos fenômenos que ocorrem no seu contexto. Suponhamos que o médium escreva uma mensagem psicográfica que o dirigente atento imagina ser de autoria de seu próprio espírito. Ou melhor, que seja uma comunicação anímica, recebida segundo a técnica que os ingleses chamam de escrita automática. Qual o problema? O espírito do médium também não terá, que dizer, só porque está encarnado? Kardec observa sutilmente que alguns dos seus comunicantes eram espíritos que, naquele momento, poderiam estar encarnados e falavam como espíritos.
O que se tem a fazer num caso desses é aplicar a mesma recomendação de sempre: examinar cuidadosamente o conteúdo da mensagem e julgá-la na base de um texto como outro qualquer, isto é, pelo seu valor intrínseco, não pela sua origem. Tem algo aproveitável? está coerente com os postulados fundamentais da doutrina espírita?
Oferece sugestões razoáveis? Chama atenção para aspectos interessantes? Traz uma contribuição construtiva? Faz uma advertência necessária?
É o que importa. Além do mais, podem textos como esses servir como elementos auxiliares no estudo da própria personalidade do médium e trazer contribuições que venham resultar em benefício para o seu trabalho.
Se a comunicação é psicofônica, ou seja, se o médium transmite uma mensagem como espírito e não como ser encarnado, nada de apavoramento. Examinemos o que ele tem a dizer. É o que ocorre, por exemplo, no fenômeno de regressão da memória, casos em que o sensitivo tem coisas da maior importância a dizer. Observamos, em A memória e o tempo, que o espírito de uma empregada doméstica inculta (Josephine), uma vez desdobrada pelo coronel de Rochas, transmite a ele observações e orientações de incontestável valor. Na vida normal, de vigília, contudo, era astronômica a distância cultural entre ela e o eminente cientista. Acho mesmo que algumas mediunidades embotadas ou inibidas poderiam até ser desobstruídas e postas a funcionar com melhor aproveitamento, após algumas sessões de desdobramento consciente e regressão, conduzidas por pessoas devidamente preparadas para isso.
Quanto a mim, tenho casos concretos a respeito para corroborar a tese.
Se, por outro lado, o médium tem uma crise espontânea de regressão em plena sessão mediúnica e fala como espírito, é preciso ouvi-lo com a mesma atenção que daríamos a um espírito desencarnado nele manifestado. O que terá a dizer? E por quê? O que se pode fazer para ajudá-lo? Tais regressões ocorrem, às vezes, sem que os circunstantes percebam, provocadas pela presença de espíritos desencarnados vinculados aos médiuns por antigos episódios ainda não solucionados satisfatoriamente.
Animismo não é sinônimo de fraude ou mistificação. Se ocorre, tem sua razão de ser e é preciso investigar que razões são essas e como resolver eventuais problemas suscitados. E se ocorrer fraude ou mistificação, também será preciso pesquisar o problema e não investir contra o médium.
Além do mais, é preciso insistir e reiterar, incansavelmente, que o fenômeno mediúnico só existe acoplado ao fenômeno anímico. Sem espírito encarnado (anima) funcionando como médium, não há fenômeno mediúnico. Todo fenômeno mediúnico tem, por conseguinte, uma coloração anímica, um componente anímico, uma colaboração óbvia e indispensável do espírito encarnado, que os espíritos definiram como alma.