O trabalho do grupo mediúnico se desdobra simultaneamente nos dois planos da vida, num intercâmbio tanto mais proveitoso quanto melhor for a afinização entre os diversos componentes encarnados e desencarnados.
Estaria completamente equivocado aquele que julgasse que o trabalho se realiza apenas durante a sessão propriamente dita; é ocupação que toma vinte e quatro horas por dia. Muito do que conseguimos obter, em hora e meia ou duas horas de sessão, depende de inúmeras tarefas preparatórias, desenvolvidas em desdobramento, durante a noite, e complementadas posteriormente. Além do mais, não podemos esquecer-nos de que os Espíritos dispõem de maior liberdade de ir e vir, do que nós. Eles nos vigiam, nos observam, nos seguem por toda parte, na intimidade do lar, no escritório, na rua, nos restaurantes, nos cinemas. Nosso procedimento é minuciosamente analisado, com espírito crítico, e, quase sempre, impiedosamente, pelos companheiros invisíveis que, ainda desarmonizados, procuram, por todos os meios, descobrir os nossos pontos fracos, para nos mostrarem que somos tão imperfeitos e pecadores quanto eles mesmos, e que, no entanto, nos arvoramos em santarrões de fachada, durante as duas horas da sessão.
Por isso, o procedimento diário precisa ser correto, mas não apenas por isso. É que a “atmosfera” psíquica que carregamos conosco resulta do nosso pensamento. Somos aquilo que pensamos, como dizia tão bem o sensitivo americano Edgar Cayce. E isto, que era apenas uma afirmativa de caráter teórico, está hoje perfeitamente documentada através da câmara de Kirlian, que capta na chapa fotográfica o espetáculo colorido e movimentado que se desdobra na aura dos seres vivos. Ainda não estamos, ao escrever esta página, em condições de conferir cientificamente e documentadamente as observações dos videntes do passado, quanto à interpretação dos fenômenos luminosos produzidos na aura, ou na região perispiritual do ser. Lá chegaremos, não obstante, e haveremos de nos certificar de que a aura do ser pacificado difere muito, em forma, cor e movimento, da que circunda a pessoa desequilibrada, colérica, ciumenta, sensual, agressiva.
Cada atitude mental imprime à aura suas características, da mesma forma que a gradação espiritual é facilmente identificável pela aparência “visual” do Espírito desencarnado.
Um amigo meu, e confrade muito inteligente, certa vez escandalizou seus ouvintes, numa palestra pública, declarando que tinha medo de morrer. Ao terminar sua exposição, a palavra foi franqueada, para perguntas e comentários, e um senhor idoso, no auditório, declarou seu espanto, ao verificar que um espírita esclarecido, como ele, tivesse medo de desencarnar.
O amigo confirmou e justificou:
— Meu caro confrade: a gente, aqui, na carne, vai levando a vida escondido, disfarçado, como se estivesse atrás de uma espessa máscara. Do lado de lá, isto é impossível: mostramo-nos em toda a nudez da nossa imperfeição.
É claro, pois, que aquele que resolver dedicar-se ao trabalho mediúnico, especialmente no que se convencionou chamar de desobsessão, precisa convencer-se de que deve estar em permanente vigilância consigo mesmo, com seus pensamentos, com o que diz e faz.
Principalmente com os pensamentos. É preciso desenvolver um mecanismo automático interior, que acenda uma luzinha vermelha a qualquer “fuga” ou distração maior. Não quer isto dizer que temos de nos transformar em santos da noite para o dia, mas significa que devemos policiar-nos constantemente. Não vamos deixar de ter as nossas falhas, mas estaremos sempre prontos a advertir-nos interiormente e a reajustar a mente que, com a maior facilidade, pode levar-nos a escorregões de imprevisíveis consequências.
Exemplos? Há muitos: o envolvimento numa conversa maledicente; o distraído olhar de cobiça para uma mulher atraente, na rua; uma piada grosseira e pesada; um pensamento de rancor ou de revolta, em relação ao chefe ou companheiro de trabalho, ou de inveja, com relação a alguém que se destacou por qualquer motivo; a leitura de livro pornográfico; a assistência a um filme pernicioso. Há milhões de motivos, diante de nós, a cada momento, pois vivemos num mundo transviado, exatamente porque reflete o transviamento da massa de seres desajustados que vivem na sua psicosfera.
Toda atenção é pouca. A vigilância dispara o sinal de alarme: a prece, a defesa e a correção. Ninguém precisa chegar, porém, aos extremos do misticismo, a ponto de viver rezando pelos cantos, de olhos baixos pela rua, temendo o “contágio” com os pecadores. Também somos pecadores, no sentido de que todos trazemos feridas não cicatrizadas, de falhas clamorosas, no passado mais distante e no passado recente. Por outro lado, a Providência Divina vale-se precisamente dos imperfeitos para ajudar os mais imperfeitos. Quem poderia alcançar estes, senão aqueles que ainda estão a caminho com eles? A distância entre nós e os que já se redimiram é tão grande, em termos vibratórios — para usar uma palavra mais ou menos aceita — que dificilmente conseguem eles alcançar-nos, para um trabalho direto, junto ao nosso espírito. O mesmo princípio opera, aliás, nos fenômenos de efeito físico. A doutrina explica-nos que tais fenômenos são usualmente realizados por espíritos de condição vibratória compatível com a nossa. Os espíritos elevados não participam diretamente de tarefas desta natureza, embora a supervisionem cuidadosamente, como se vê em André Luiz.
Como seres imperfeitos, temos, pois, de viver com o semelhante, também imperfeito. Não há como fugir de ninguém e isolar-se em torres de marfim, mosteiros inacessíveis, grutas perdidas na solidão. Nosso trabalho é aqui mesmo, com o homem, a mulher, o velho, a criança, seres humanos como nós mesmos, com as mesmas angústias, inquietações, mazelas e imperfeições. O que enxerga um pouco mais, ajuda o cego, mas, talvez, este disponha de pernas para caminhar e pode, assim, amparar o coxo. E quem sabe se o aleijado dispõe de conhecimento construtivo que possa transmitir ao mudo? Este, um dia, no futuro, voltará a falar, para ensinar e construir. Somos, pois, uma tremenda multidão de estropiados espirituais, e a diferença evolutiva entre nós, aqui na Terra, não é lá grande coisa. Vivemos num universo inteiramente solidário, no qual uns devem suportar e amparar os outros, ou, na linguagem evangélica: amar-nos uns aos outros. Não é difícil.
E é necessário. E como!...
Daí a recomendação da vigilância. Não é que tenhamos que nos isolar, numa redoma ou numa couraça, para nos defender dos párias, que nos cercam por toda parte. Será que ainda não descobrimos que somos párias também? A vigilância é para que fiquemos apenas com os males que nos afligem intimamente, e façamos um esforço muito grande para nos livrarmos deles. Ai de nós, porém, se, às deficiências que carregamos, somarmos as que recebermos por “contágio espiritual”. Isto se dará, certamente, se, em vez de cuidarmos, por exemplo, de aniquilar a nossa
arrogância, passarmos a imitar a avareza do irmão que segue ao nosso lado, ou a irresponsabilidade de outro, ou o egoísmo de um terceiro. É nesse sentido que deve funcionar o mecanismo de advertência. Já bastam as nossas mazelas. Para que captar outras que infelicitam os companheiros de jornada?
*
Estas recomendações e sugestões nada têm de puramente teórico ou acadêmico. São essenciais, especialmente se o grupo mediúnico se envolver em tarefas de desobsessão. Os Espíritos trazidos às reuniões, para tratamento, apresentam-se hostis, agressivos, irônicos. Que não se cometa, a respeito deles, a ingenuidade de pensar que são ignorantes. Com frequência enorme são inteligentes, e mais bem informados do que nós, encarnados. Geralmente são trazidos porque foram incomodados na sua atividade lamentável. Chegam impetuosos e dispostos a fazer qualquer coisa, para continuar a proceder como acham de seu direito e até de seu dever. No desespero em que vivem mergulhados, não hesitarão em promover qualquer medida defensiva, e essa defesa, geralmente, consiste em atacar aqueles que interferem com seus planos. Cuidado, pois. Se em lugar de vigilância e prece, lhes oferecemos o flanco desguarnecido, sintonizamo-nos com as suas vibrações agressivas e acabaremos por ser envolvidos.
Daí a advertência de que o trabalho mediúnico, nesse campo especializado, é tarefa para todas as horas do dia e da noite. As recomendações de comportamento adequado são particularmente rígidas para o dia em que as sessões se realizam.
“No dia marcado para as tarefas de desobsessão” — escreve André Luiz —, “os integrantes da equipe precisam, a rigor, cultivar atitude mental digna, desde cedo”.2
Resguardarem-se todos na prece, na vigilância. Fugiremos ao envolvimento em discussões e desajustes de variada natureza. Alimentação sóbria, leve.
Não custa muito, pelo menos nesse dia, abster-se de carne; e é necessário prescindir do álcool e do fumo. Sempre que possível, durante o dia ou nas horas que precedem a reunião, um pouco de repouso físico e mental, com relaxamento muscular e pacificação interior.