Capítulo 4
“Ao entrar, Telêmaco²³ ouve gemidos de uma sombra inconsolável. — Qual é — perguntava-lhe ele — a vossa desgraça? Quem fostes na Terra? — Nabofarzan — responde a sombra — rei da soberba Babilônia; só de ouvirem o meu nome, todos os povos do Oriente tremiam; fazia-me adorar pelos babilônios num templo de mármore, representado por uma estátua de ouro, a cujos pés se queimavam noite e dia os preciosos perfumes da ­Etiópia; jamais alguém ousou contradizer-me sem ser logo punido; inventavam-se diariamente prazeres novos para tornar-me a vida mais e mais deliciosa. Moço e robusto, oh! quantos prazeres me restavam ainda por usufruir no trono! Mas certa mulher, a quem eu amava e que não me correspondia, fez-me sentir que eu não era um deus: envenenou-me, e... nada mais sou. As minhas cinzas foram ontem encerradas com pompa em uma urna de ouro; choraram, arrancaram cabelos; fingiram atirar-se às chamas da minha fogueira, a fim de morrerem comigo; vão ainda gemer junto do túmulo das minhas cinzas, mas ninguém me deplora; a minha memória horroriza a própria família, enquanto aqui embaixo já sofro horríveis suplícios. “Comovido diante de tal espetáculo, diz-lhe Telêmaco: — Éreis verdadeiramente feliz durante o vosso reinado? Sentíeis porventura essa doce paz sem a qual o coração se conserva opresso e abatido em meio das delícias? — Não — respondeu o babilônio —, não sei mesmo o que quereis dizer. Os sábios exaltam essa paz como bem único; quanto a mim, nunca a senti; meu coração agitava-se continuamente por novos desejos de temor e de esperança. Procurava aturdir-me com o abalo das próprias paixões, tendo o cuidado de entreter essa embriaguez para torná-la permanente, contínua; o menor intervalo de razão, de calma, ser-me-ia muito amargo. Eis a paz que fruí; qualquer outra me parece antes uma fábula, um sonho. São esses os bens cuja perda deploro. “Assim falando, o babilônio chorava como um homem pusilânime, que se deixou debilitar pelas prosperidades, desabituado de suportar resignadamente uma desgraça. Havia junto dele alguns escravos que mandaram matar para honrar seus funerais. Mercúrio²⁴ os entregara a Caronte²⁵ com o seu rei, concedendo-lhes poder absoluto sobre esse rei, a quem tinham servido na Terra. Essas sombras de escravos não temiam a sombra de Nabofarzan, que retinham encadeada, infligindo-lhe as mais cruéis afrontas. Uma lhe dizia: — Não éramos homens iguais a ti? Como pudeste ser tão insensato a ponto de te julgares um deus, esquecendo tua origem comum a todos os homens? — Outra sombra, para insultá-lo, dizia: — Tinhas razão em não querer que te tomassem por homem, porque na verdade eras um monstro desumano. — Outra, ainda, lhe dizia: — Então?! onde estão agora os teus bajuladores? nada mais tens a dar, infeliz! Não podes nem mesmo fazer o mal, como antes; eis-te reduzido a escravo dos teus escravos. A justiça dos deuses tarda, mas não falha. “A essas frases duras Nabofarzan se lançava por terra, arrancando os cabelos em acesso de raiva e desespero, mas Caronte dizia aos escravos: — Arrastem-no pela corrente, levantem-no contra a vontade; ele não terá nem mesmo o consolo de esconder a sua vergonha; é preciso que todas as sombras do Estige²⁶ a testemunhem como justificativa aos deuses, que por tanto tempo sofreram enquanto esse ímpio reinava na Terra. “E ele avista logo, bem perto de si, o negro Tártaro,²⁷ de onde saía escura e espessa fumaça, cujo odor empestado provocaria a morte, caso se espalhasse pela morada dos vivos. Essa fumaça cobria um rio de fogo, um turbilhão de chamas, cujo ruído, semelhante às torrentes mais caudalosas quando se precipitam de altos rochedos em profundos abismos, concorria para que nada se ouvisse nesses lugares tenebrosos. “Secretamente animado por Minerva,²⁸ Telêmaco entra sem medo nesse abismo. Viu primeiramente um grande número de homens que tinham vivido nas mais humildes condições e que eram punidos por haverem procurado riquezas por meio de fraudes, traições e crueldades. Aí notou muitos ímpios hipócritas que, simulando amar a religião, dela se tinham servido como de um belo pretexto para satisfazerem ambições e zombarem das pessoas crédulas. Tais homens, que haviam abusado da própria virtude, o maior dom dos deuses, eram punidos como os mais celerados de todos os homens. Os filhos que haviam degolado seus pais; as esposas que mancharam as mãos no sangue dos maridos; os traidores que venderam a pátria, violando todos os juramentos, sofriam penas menos cruéis do que aqueles hipócritas. Os três juízes infernais assim o queriam, por esta razão: os hipócritas não se contentam em ser maus como os demais ímpios, porém querem passar por bons e concorrem, por sua falsa virtude, para que os homens não ousem mais confiar na verdade. Os deuses, que eles zombaram e desprezaram diante dos homens, empregam com prazer todo o seu poderio para se vingarem de tais insultos. “Perto destes, aparecem outros homens, que as pessoas comuns julgam pouco ou nada culpados, mas que a vingança dos deuses persegue impiedosamente: são os ingratos, os mentirosos, os aduladores que louvaram o vício, os críticos perversos que procuraram manchar a mais pura virtude; enfim aqueles que, julgando temerariamente as coisas, sem as conhecer a fundo, prejudicaram por isso a reputação dos inocentes. “Telêmaco, vendo os três juízes sentados a condenarem um homem, ousou perguntar-lhes quais eram os seus crimes. O condenado, tomando a palavra, logo bradou: — Nunca fiz mal algum; todo o meu prazer consistia em praticar o bem; fui sempre generoso, liberal, justo e compassivo; de que podem, pois, censurar-me? — Minos²⁹ então lhe disse: — Não te fazemos nenhuma acusação quanto aos homens, porém, não devias menos a eles do que aos deuses? Que justiça, pois, é essa de que te vanglorias? Para com os homens, que nada são, não faltaste jamais a qualquer dever; foste virtuoso, é certo, mas só atribuíste essa virtude a ti próprio, e não aos deuses, virtude que eles te deram porque querias gozar do fruto de tua própria virtude e te fechar em ti mesmo: foste a tua divindade. Mas os deuses, que tudo fizeram, e o fizeram apenas para si, não podem renunciar aos seus direitos; tu os esqueceste e eles também te esqueceram; eles te entregarão a ti mesmo, pois quiseste pertencer-te e não a eles. Procura agora, se podes, o consolo em teu próprio coração. Eis-te agora para sempre separado dos homens, aos quais querias agradar; eis-te só contigo, tu que eras o teu ídolo; fica sabendo que não há verdadeira virtude sem respeito e amor aos deuses, a quem tudo é devido. A tua falsa virtude, que por muito tempo deslumbrou os homens ingênuos, vai ser confundida. Os homens, por não julgarem o vício e a virtude senão pelo que lhes agrada ou incomoda, são cegos quanto ao bem e quanto ao mal. Aqui, uma luz divina derroga seus julgamentos superficiais, condenando muita vez o que eles admiram, e outras vezes justificando o que condenam. “A estas palavras, o filósofo, como que fulminado por um raio, mal podia suster-se. A complacência que tivera outrora em rever a sua moderação, a coragem, as inclinações generosas, transformavam-se em desespero. A visão do próprio coração, inimigo dos deuses, promove-lhe suplícios; vê, e não pode deixar de se ver; vê a vaidade dos julgamentos humanos, aos quais buscava lisonjear em todas as suas ações. Opera-se uma revolução radical em todo o seu íntimo, como se lhe revolvessem todas as entranhas; já não é o mesmo; não encontra apoio no coração; sua consciência, cujo testemunho lhe fora tão agradável, revolta-se contra ele, censurando-lhe amargamente o desvario, a ilusão de todas as virtudes, que não tiveram por princípio e por fim o culto da divindade; está perturbado, consternado, preso da vergonha, do remorso, do desespero. As Fúrias³⁰ não o atormentam, porque lhes basta o terem entregado a si próprio, para que expie pelo coração a vingança dos deuses desprezados. Procura os lugares mais sombrios para se ocultar dos outros mortos, mas é incapaz de esconder-se de si mesmo. Procura as trevas e não as pode encontrar; uma luz importuna o segue por toda parte; de todos os lados os raios penetrantes vingam a verdade que ele desdenhou seguir. Tudo que amava se lhe torna odioso como fonte dos seus males infindáveis. Murmura consigo: — Ó insensato! Não conheci, pois, nem os deuses, nem os homens, nem a mim mesmo! Não; porque jamais amei o verdadeiro e único bem; todos os meus passos foram tresloucados; a minha sabedoria não passava de loucura; a minha virtude mais não era que o orgulho impiedoso e cego: eu era, enfim, o meu próprio ídolo! “Finalmente Telêmaco avistou os reis condenados por abuso de poder. De um lado, vingadora Fúria apresentava-lhes um espelho que lhes mostrava toda a monstruosidade de seus vícios; aí viam, sem poder desviar os olhos, a vaidade grosseira e ávida de ridículos louvores; a crueldade para com os homens, a quem deveriam ter feito felizes; a insensibilidade para com as virtudes, o temor da verdade, a predileção pelos covardes e bajuladores, a falta de aplicação, a inércia, a indolência; a desconfiança ilimitada; o fausto e a magnificência excessivos calcados sobre a ruína dos povos; a ambição de glórias vãs à custa do sangue dos concidadãos; a crueldade, enfim, que procura a cada dia novas delícias nas lágrimas e no desespero de tantos infelizes. Esses reis reviam-se constantemente nesse espelho, achando-se mais monstruosos e horrendos que a própria Quimera³¹ vencida pelo Belerofonte,³² que a Hidra de Lerna³³ abatida por Hércules e que o próprio Cérbero³⁴ vomitando por suas três goelas um sangue negro e venenoso, capaz de empestar toda a raça de mortais que vivem sobre a Terra.
TAG Valor
Parte Primeira
Nome do Capítulo O inferno
Tema Quadro do inferno pagão
Item 10