“De outro lado, outra Fúria lhes repetia injuriosamente todos os louvores que os lisonjeiros lhes dispensavam em vida e mostrava-lhes ainda outro espelho em que se viam tais como a lisonja os havia pintado. Da antítese dos dois quadros tão contrários brotava o suplício do amor-próprio. Notava-se que os piores dentre esses reis foram os que tiveram maiores e mais fulgentes louvores durante a vida, porque os maus são mais temidos que os bons e exigem sem pudor as vis adulações dos poetas e oradores do seu tempo.
“Seus gemidos são ouvidos nas profundezas dessas trevas, onde só se veem insultos e escárnios. Nada os cerca que não os repila, contradiga e confunda em contraste ao que supunham na vida, zombando dos homens e convictos de que tudo era feito para servi-los. No Tártaro, entregues a todos os caprichos de certos escravos, os quais, por sua vez, lhes faz provar a mais cruel servidão; humilhados dolorosamente, não lhes resta esperança alguma de modificar ou abrandar o cativeiro. Qual bigorna sob as marteladas dos Ciclopes,³⁵ quando Vulcano³⁶ os encoraja nas fornalhas incandescentes do Monte Etna,³⁷ assim permanecem, mercê das pancadas desses escravos transformados em verdugos.
“Aí, Telêmaco viu pálidos semblantes, hediondos e consternados. Terrível tristeza que consome estes criminosos, horrorizados de si próprios, sem poderem dela desligar-se como da própria natureza; não precisam de outro castigo às suas faltas senão as mesmas faltas; veem incessantemente toda a sua enormidade, apresentando-se a eles sob a forma de espectros horríveis que os perseguem. Procurando livrar-se dessa perseguição, buscam morte mais potente do que a que os separou do corpo. No desespero em que se acham, invocam uma morte capaz de lhes extinguir a consciência; pedem aos abismos que os absorvam, a fim de se furtarem aos raios vingadores da verdade que os persegue, mas continuam votados à vingança que sobre eles destila gota a gota e que jamais estancará. A verdade que temem ver lhes constitui o suplício; veem-na, contudo, e só têm olhos para vê-la erguer-se contra eles, ferindo-os, despedaçando-os, arrancando-os de si mesmos, tal como o raio que, sem nada lhes destruir exteriormente, penetra-lhes o âmago das entranhas.
“Entre os seres que lhe eriçavam os cabelos, Telêmaco viu vários reis, antigos reis da Lídia³⁸ punidos por haverem preferido ao trabalho as delícias de uma vida inativa, quando aquele deve ser o consolo dos povos, inseparável da realeza.
“Esses reis lastimavam-se reciprocamente a cegueira. Um dizia a outro, que fora seu filho: — Não vos tinha eu recomendado tantas vezes durante a vida e antes da morte que reparásseis os males ocorridos por negligência minha? — Ah! infeliz pai! — dizia o filho — fostes vós que me perdestes! Foi o vosso exemplo que me inspirou o fausto, o orgulho, a voluptuosidade e a crueldade para com os homens! Vendo-vos governar com tanta incúria, cercado de aduladores infames, habituei-me a prezar a lisonja e os prazeres. Acreditei que os homens eram para os reis o que os cavalos e outros animais de carga são para os homens, isto é, animais que só se consideram enquanto proporcionam serviços e comodidades. Acreditei-o e fostes vós que mo fizestes crer; sofro agora tantos males por vos haver imitado.
“A estas recriminações aliavam as mais acerbas blasfêmias, como que possuídos de raiva suficiente para se despedaçarem mutuamente. Quais notívagos mochos,³⁹ em torno desses reis corvejavam as suspeitas cruéis, os vãos receios e desconfianças que vingam os povos da dureza de seus reis, a ganância insaciável das riquezas, a falsa glória sempre tirânica e a moleza displicente que redobra os sofrimentos sem a compensação de prazeres duráveis. Viam-se muitos desses reis severamente punidos, não por males que tivessem feito, mas por terem negligenciado o bem que poderiam e deveriam fazer. Todos os crimes dos povos, provenientes da desídia na observância das leis eram imputados aos reis, que não devem reinar senão para que as leis exerçam seu ministério. A eles se imputavam também todas as desordens oriundas do fausto, do luxo e dos demais excessos que impelem os homens à violência e à tentação de desprezar as leis para a aquisição de bens. O rigor recaía principalmente sobre os reis que, em vez de serem bons e vigilantes pastores dos povos, só cuidavam de devastar o rebanho, quais lobos rapaces.
“O que mais consternou Telêmaco, porém, foi ver nesse abismo de trevas e males um grande número de reis que, tendo passado na Terra como os melhores, condenaram-se às penas do Tártaro por se terem deixado guiar por homens ardilosos e maus. Eram punidos pelos males que tinham deixado que outros praticassem em nome da sua autoridade. Além disso, a maior parte desses reis não foram nem bons nem maus, tal a sua fraqueza; não os atemorizava a ignorância da verdade; como não experimentaram o prazer da virtude, jamais poderiam fazê-lo consistir na prática do bem.”