1ª Parte - Cap. 6: Ante o Sinédrio
As primeiras são o trabalho dos homens, o segundo é o salário de Deus aos trabalhadores fié is. — Sois então de parecer — disse Saulo sem dissimular irritação diante de tanta firmeza — que o carpinteiro é maior que o grande legislador? — Moisés é a justiça pela revelação, mas o Cristo éo amor vivo e permanente. A essa resposta do acusado, houve um prurido de exaltação na grande assembléia. Alguns fariseus encole rizados gritavam injúrias. Saulo, porém, lhes fez um sinal imperioso e o silêncio voltou a possibilitar o inter rogatório. E, dando à voz um timbre de severidade, prosseguiu: — Sois israelita e jovem ainda. Uma inteligência apreciável serve ao vosso esforço. Temos então o dever, antes de qualquer punição, de trabalhar pelo vosso regresso ao aprisco. É imprescindível chamar o irmão desertor, com carinho, antes do extremo recurso às armas. A Lei de Moisés poderá conferir -vos uma situação de grande relevo, mas, que proveito tiraríeis da palavra insignificante, inexpressiva, do operário igno rante de Nazaré, que sonhou com a glória para pagar as esperanças loucas numa cruz de ignomínia? — Desprezo o valor puramente convencional que a Lei me poderia oferecer em troca do apoio à política do mundo, que se transforma todos os dias, considerando que a nossa segurança reside na consciência iluminada com Deus e para Deus. — Mas, que esperais do mist ificador que lançou a confusão entre nós, para morrer no Calvário? — tornou Saulo exaltadamente. — O discípulo do Cristo deve saber a quem serve e eu me honro em ser instrumento humilde nas suas mãos. — Não precisamos de um inovador para a vida de Israel. — Compreendereis, um dia, que, para Deus, Israel significa a Humanidade inteira. Diante dessa resposta ousada, a quase totalidade da assembléia prorrompeu em apupos, mostrando sua hostilidade franca ao denunciado de Neemias. Afeitos a um regionalismo intra nsigente, os israelitas não tole ravam a idéia de confraternização com os povos que consideravam bárbaros e gentios. Enquanto os mais exaltados davam expansão a protestos veementes, os romanos observavam a cena, curiosos e interessados, como se presenciass em uma cerimônia festiva. Depois de longa pausa, o futuro rabino continuou: — Confirmais a acusação de blasfêmia, enunciando semelhante princípio contra a situação do povo escolhido, a vossa primeira condenação. — E isso não me atemoriza — disse o acusado, resoluto —; às ilusões orgulhosas que nos conduziriam a tenebrosos abismos, prefiro acreditar, com o Cristo, que todos os homens são filhos de Deus, merecendo o carinho do mesmo Pai. Saulo mordeu os lábios raivosamente, e, acentuando sua atitude rigorosa de julgador, prosseguiu com aspe reza. — Caluniais Moisés, proferindo tais palavras. Aguar do vossa confirmação. O interpelado, dessa vez, endereçou -lhe significativo olhar e murmurou: — Por que aguardais minha confirmação se obede ceis a um critério arbitrário? O Evangelho desconhece as complicações da casuística. Não desdenho Moisés, mas não posso deixar de proclamar a superioridade de Jesus-Cristo. Podeis lavrar sentenças e proferir anátemas contra mim; entretanto, é necessário que alguém coopere com o Salvador no restabelecimento da verdade acima de tudo, e sem embargo das mais dolorosas conseqüências. Aqui estou para fazê -lo e saberei pagar, pelo Mestre, o preço da mais pura fidelidade. Depois de cessar o abafado vozerio da assistência, Saulo voltou a dizer: — O Tribunal reconhece-vos como caluniador, passí vel das punições atinentes a esse título odioso. E tão logo foram grafadas as novas declarações pelo escriba que anotava os termos da inquirição, acentuou sem disfarçar a ira que o dominava: — É indispensável não esquecer que sois acusado de feiticeiro. Que respondeis a semelhante argüição? — De que me acusam, nesse particular? — interrogou o pregador do “Caminho”, com galhardia. — Eu próprio vos vi curar uma jovem muda, num dia de sábado, e ignoro a natureza dos sortilégios que utilizastes nesse feito. — Não fui eu quem praticou esse ato de amor, como, certamente, me ouvistes afirmar; foi o Cristo, por intermédio de minha pobreza, que nada tem de boa. — Pensais inocentar-vos com esta ingênua declara ção? — objetou Saulo com ironia. — A suposta humildade não vos exculpa. Fui testemunha do fato e só a feitiçaria poderá elucidar seus ascendentes estranhos. Longe de se perturbar, o acusado respondeu inspi radamente: — E, contudo, o judaísmo está cheio de sses fatos que julgais não compreender. Em virtude de que sor tilégio conseguiu Moisés fazer jorrar de uma rocha a fonte de água viva? Com que feitiçaria o povo eleito viu abrirem se-lhe as ondas revoltas do mar para a necessária fuga do cativeiro? Com que talismã presumiu Josué atrasar a marcha do Sol? Não vedes em tudo isso, os recursos da Providência Divina? De nós nada temos, e, todavia, no cumprimento do nosso dever, tudo devemos esperar da divina misericórdia. Analisando a resposta concisa, revelador a de raciocínios lógicos, irretorquíveis, o doutor de Tarso quase rilhou os dentes. Um rápido relancear de olhos na assembléia deu-lhe a conhecer que o antagonista contava com a simpatia e admiração de muitos. Chegava a descon ceifar-se íntimamente. Como recuperar a calma, dado o temperamento impulsivo que o levava aos extremos emotivos? Examinando a última assertiva de Estevão, sentia dificuldade em coordenar uma argumentação de cisiva. Sem poder revelar o desapontamento próprio, incapaz de encontrar a r esposta devida, considerou a urgência de uma saída a propósito e dirigiu -se ao sumo-sacerdote, nestes termos: — O acusado confirma, por sua palavra, a denúncia de que foi objeto. Acaba de confessar, de público, que é blasfemo, caluniador e feiticeiro. Entretanto, por sua condição de nascimento, ele tem direito à defesa última, independentemente das minhas interpretações de julga dor. Proponho, então, que a autoridade competente lhe conceda esse recurso. Grande número de sacerdotes e personalidades emi nentes entreolharamse, quase com espanto, como a pre libar a primeira derrota do orgulhoso doutor da Lei, cuja palavra vibrante sempre conseguira triunfar sobre quaisquer adversários, fixando-lhe o rosto rubro de cóle ra, denunciando a tempestade que lhe rugia no coração. Aceita a proposta formulada pelo juiz da causa, Estevão passou a usar de um direito que lhe era con ferido pelo seu nascimento. Levantando-se, nobremente contemplou os rostos an siosos que o buscavam de todos os lados. Adivinhou que a maioria dos presentes presumia na sua figura um perigoso inimigo das tradições raciais, tal a sua expres são de hostilidade; mas notou, igualmente, que alguns israelitas o encaravam com simpatia e compreensão. Va lendo-se desse auxílio, sentiu consolidar -se-lhe o bom ânimo, de maneira a expor com maior serenidade os sagrados ensinos do Evangelho. Lembrou, instintivamente, a promessa de Jesus aos seus continuadores, de que estaria presente no instante em que devessem dar testemunho pela palavra, competindo -lhe não tremer ante as provocações inconscientes do mundo. Mais que nunca, sentiu a convicção de que o Mestre auxiliá-lo-ia na exposição da doutrina de amor. Passado um minuto de ansiosa expectativa, começou a falar de modo impressionante: — Israelitas! por maior que fosse nossa divergên cia de opinião religiosa, não poderíamos alterar nossos laços de fraternidade em Deus — o supremo dispensador de todas as graças. É a esse Pai, generoso e justo, que elevo minha rogativa em favor de nossa compreen são fiel das verdades santas. Outrora, nossos antepassa dos ouviram as exortações grandiosas e profundas dos emissários do Céu. Por organizar um futuro de paz sólida aos seus descendentes, nossos avós sofreram misérias e penúriaS do cativeiro. Seu pão era molhado nas lágrimas de amargura, sua sede angustiava. Viram malogradas todas as esperanças de independência, perseguições sem conto destruíram-lhes o lar, com agravo de sofrimentos nas lutas de seu roteiro. A frente de seus martírios dignificantes, andaram os santos varõ es de Israel, Como gloriosa coroa do seu triunfo. Alimentou -os a palavra do Eterno, através de todas as vicissitudes. Suas expe riências constituem poderoso e sagrado patrimônio. Delas, temos a Lei e os Escritos dos profetas. Apesar disso, não podemos iludir nossa sede. Nossa concepção de justiça é fruto de um labor milenário, em que empregamos as maiores energias, mas sentimos, por intuição, que existe algo de mais elevado, além dela. Temos o cárcere para os que se transviam, o vale dos imundos para os que adoecem sem a proteção da família, a lapidação na praça pública para a mulher que fraqueja, a escravidão para os endividados, os trinta e nove açoites para os mais infelizes. Bastará isso? As lições do passado não estão cheias da palavra “misericórdia”? A lgo nos fala à consciência, de uma vida maior, que inspira sentimen tos mais elevados e mais belos. Ingente foi o trabalho no curso longo e multissecular, mas o Deus justo respondeu aos angustiados apelos do coração, enviando -nos seu Filho bem-amado — O Cristo Jesus!... A assembléia ouvia grandemente surpreendida. No entanto, quando o orador frisou mais forte a referência ao Messias de Nazaré, os fariseus presentes, fazendo causa comum com o jovem de Tarso, prorromperam em protestos, gritando alucinadamen te: — Anátema! Anátema!... Punição ao trânsfuga! Estevão recebeu com serenidade a tormenta objur gatória e, tão logo foi a ordem restabelecida, prosseguiu com firmeza: — Por que me apupais desta forma? Toda precipi tação de julgamento demonstra fraqueza. P rimeiramente, renunciei à discussão considerando que se deve eliminar todo fermento de discórdia; mas, dia a dia o Cristo nos convoca para um trabalho novo e, certamente, o Mestre me chama hoje, a fim de palestrar convosco rela tivamente às suas verdades p oderosas. Desejais impor-me o ridículo e a zombaria? Isso, porém, deve confortar -me, porque Jesus experimentou esse tratamento em grau su perlativo.
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Capítulo 6
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