Não obstante vossa repulsa, honra-me em proclamar as glórias inexcedíveis do profeta nazareno, cuja grandeza veio ao encontro de nossas ruínas morais, le vantando-nos para Deus com o seu Evangelho de re denção. Nova saraivada de apóstrofes cortou -lhe a palavra. Ditos mordentes e ásperos baldões eram-lhe atirados a esmo, de todos os lados. Estevão não esmoreceu. Voltando-se, sereno, fixou nobremente os circunstantes, guar dando a intuição de que os mais exaltados seriam os fariseus, os mais fundamente atingidos pelas verdades novas. Esperando que recobrassem a calma, falou nova mente: — Fariseus amigos, por que teimais em não compreender? Porventura temeis a realidade das minhas afirmações? Se vossos protestos se fundam nesse receio, calai-vos para que eu continue. Lembrai -vos de que me refiro aos nossos erros do passado e quem se associa na culpa dá testemunho de amor, no capítulo das reparações. Apesar de nossas misérias, Deus nos ama e, reconhecendo eu a própria indigência, não poderia falar -vos senão como irmão. Entretanto, se expressais desespero e revolta, recordai que não poderemos fugir à realidade da n ossa profunda insignificância. Lestes, acaso, as lições de Isaías? Importa considerar a exor tação (1) de que não poderemos sair, apressadamente, nem enganando a nós mesmos, nem fugindo aos nossos deveres, porque o Senhor irá adiante e o Deus de Israel ser á a nossa retaguarda. Ouvi-me! Deus é o Pai, o Cristo é o Senhor nosso. Muito falais da Lei de Moisés e dos Profetas; todavia, podereis afirmar com a mão na consciência a plena observância dos seus gloriosos ensinamentos? Não estaríeis cegos atualmente, ne gando-vos à compreensão da mensagem divina? Aquele, a quem chamais ironica mente o carpinteiro de Nazaré, foi amigo de todos os infelizes. Sua pregação não se limitou a expor princípios filosóficos. Antes, pela exemplificaçãO, renovou nossos hábitos, refor mou as idéias mais elevadas, com o selo do amor divino. Suas mãos nobilitaram o trabalho, pensaram úlceras, curaram leprosos, deram vista aos cegos. Seu coração repartiu-Se entre todos os homens, dentro do novo entendimento do amor que nos trouxe com o ex emplo mais puro. Acaso ignorais que a palavra de Deus tem ouvintes e praticantes? Convém consultardes se não tendes sido meros ouvintes da Lei, de maneira a não falsear o testemunho. Jerusalém não me parece o santuário de tradições da fé, que conheci por informações de meus pais, desde criança. Atualmente, dá impressão de um grande bazar onde se vendem as coisas sagradas. O Templo está cheio de mercadores. As sinagogas regurgitam de assuntos atinentes a interesses mundanos. As células farisaicas assemelham -se a um vespeiro de interesses mesquinhos. O luxo das vossas túnicas assombra. Vossos desperdícios espantam. Não sabeis que à sombra de vossos muros há (1) Isaias, capítulo 52º. Versículo 12. — (Nota de Emmanuel.) infelizes que morrem de fome? Venho dos subúrbios, onde se concentra grande parte de nossas misérias. Falais de Moisés e dos Profetas, repito. Acreditais que os antepassados veneráveis mercadejassem com os bens de Deus? O grande legislador viveu entre experiências terríveis e dolorosas. Jeremi as conheceu longas noites de angústias, a trabalhar pela intangibilidade do nosso patrimônio religioso, entre as perdições de Babi lônia. Amós era pobre pastor, filho do trabalho e da humildade. Elias sofreu toda sorte de perseguições, com pelido a recolher-se ao deserto, tendo só lágrimas como preço do seu iluminismo. Esdras foi modelo de sacrifício pela paz dos seus compatriotas. Ezequiel foi conde nado à morte por haver proclamado a verdade. Daniel curtiu as infinitas amarguras do cativeiro. Mencionais os nossos heróicos instrutores do passado, tão -só para justificar o gozo egoístico da vida? Onde guardais a fé? No conforto ocioso, ou no trabalho produtivo? Na bolsa do mundo, ou no coração que é o templo divino? Incentivais a revolta e quereis a paz? Ex plorais o próximo e falais de amor a Deus? Não vos lembrais de que o Eterno não pode aceitar o louvor dos lábios quando o coração da criatura permanece dele distante? A assembléia, ante o sopro daquela sublime inspi ração, parecia imóvel, incapaz de se def inir. Muitos israelitas supunham ver em Estevão o ressurgimento de um dos primevos profetas da raça. Mas os fariseus, como se quebrassem a misteriosa força que os emudecia, romperam em algazarra ensurdecedora, gesticulando a esmo, proferindo impropérios, n o propósito de atenuar a forte impressão causada pelos surtos eloqüentes e calo rosos do orador. — Apedrejemos o imundo! Matemos a calúnia! Aná tema ao caminho de Satanás!... Nesse comenos, Saulo levantou -se rubro de cólera. Não conseguia disfarçar a fúria do temperamento im pulsivo, a desbordar-lhe dos olhos inquietos e brilhantes. Caminhou presto para o acusado, dando a entender que ia cassar -lhe a palavra, e a assembléia logo se acalmou, embora continuasse o rumor dos comentários abafados. Percebendo que ia talvez ser coagido pela violência e, mais, que os fariseus pediam sua morte, Estevão fixou os mais irônicos e arrebatados, exclamando em voz alta e tranqüila: — Vossa atitude não me intimida. O Cristo foi solí cito no recomendar não temêssemos os que só podem matar-nos o corpo. Não pôde prosseguir. O moço tarsense, mãos àcintura, olhar iracundo e gestos rudes como se defron tasse um malfeitor comum, gritou -lhe furiosamente no ouvido: — Basta! Basta! Nem mais uma palavra!... Agora que te foi concedido o último recurso inutilmente, tam bém usarei o que me faculta a condição do nascimento, em face de um irmão desertor. E caiu-lhe de punhos fechados no rosto, sem que Estevão tentasse a menor reação. Os fariseus aplaudi ram o gesto brutal, em atroada deliran te, qual se estivessem num dia de festa. Dando expansão ao seu arreba tamento, Saulo esmurrava sem compaixão. Sem recursos de ordem moral, ante a lógica do Evangelho, recorria àforça física, satisfazendo à índole voluntariosa. O pregador do “Caminho”, sub metido a tais extremos, implorava de Jesus a necessária assistência para não se trair no testemunho. Não obstante a reforma radical que a influência do Cristo havia imposto às suas concepções mais íntimas, ele não podia fugir à dor da dignidade ferida. Pr ocurou, contudo, recompor imediatamente as energias interiores, na compreensão da re núncia que o Mestre predicara como lição suprema. Lem brou os sacrifícios do pai em Corinto, reviu na imagina ção o seu suplício e morte. Recordou a prova angustiosa que sofrera e considerou que, se tão -só no conhecimento de Moisés e dos Profetas tanto conseguira em energia moral para enfrentar os ignorantes da bondade divina, que não poderia testemunhar agora com o Cristo no coração? Esses pensamentos acudiam -lhe ao cérebro atormentado, como bálsamo de suprema consolação. Entretanto, embora a fortaleza de ânimo que lhe marcava o caráter, viu -se que ele vertia copiosas lágrimas. Quando lhe observou o pranto misturado com o sangue a jorrar da ferida que as punhadas lhe abrir am em pleno rosto, Saulo de Tarso conteve -se saciado na sua imensa cólera. Não podia compreender a passividade com que o agre dido recebera os bofetões da sua força enrijada nos exer cícios do esporte. A serenidade de Estevão perturbou -o ainda mais. Sem dúvida, estava diante de uma energia ignorada. Esboçando um sorriso de zombaria, advertiu alta neiro: — Não reages, covarde? Tua escola é também a da indignidade? O pregador cristão, apesar dos olhos molhados, res pondeu com firmeza: — A paz difere da violência, tanto quanto a força do Cristo diverge da vossa Verificando tamanha superioridade de concepção e pensamento, o doutor da Lei não podia ocultar o des peito e a fúria que lhe transpareciam nos olhos chamejantes. Parecia no auge da irritação, a extrava sar nos maiores despropósitos. Dir-se-ia haver chegado ao cúmulo de tolerância e resistência. Voltando-se para observar a aprovação dos seus partidários, que se contavam por maioria, dirigiu -se ao sumo-sacerdote e impetrou uma sentença cruel. Tremia-lhe a voz, pelo esforço físico despendido. — Analisando a peça condenatória — acrescentou ufano — e, considerados os graves insultos aqui bolça dos, como juiz da causa rogo seja o réu lapidado Frenéticos aplausos secundaram -lhe a palavra inflexível. Os fariseus tão duramente atingidos pelo verbo ardente do discípulo do Evangelho supunham vingar, desse modo, o que consideravam escárnio criminoso às suas prerrogativas. A autoridade superior recebeu o alvitre e procurou submetê -lo à votação no reduzido círculo dos colegas mais eminentes. Foi então que Gamaliel, depois de palestrar em voz baixa com os colegas de elevada investidura, comen tando talvez o caráter generoso e a incoercível impulsividade do ex-discípulo, dando-lhes a entender que a sanção proposta seria a morte imediata do pregador do “Ca minho”, levantou-se no inquieto cenáculo e ponderou nobremente: — Tendo voto neste Tribunal e não desejando pre cipitar a solução de um problema de consciência, pro ponho que se estude mais ponderadamente a sentença pedida, retendo-se o acusado em calabouço até que se esclareça a sua responsabilidade perante a justiça. Saulo percebeu o ponto de vista do antigo mestre, inferindo que ele punha em jogo o seu reconhecido pendor à tolerância. Aquela advertência contrariava-lhe sobremaneira os propósitos resolutos, mas, sabendo que não lhe poderia ultrapassar a autoridade veneranda, acentuou: — Aceito a proposição na qualidade de juiz do feito; entretanto, adiada a execução da pena, qual fora de desejar e tendo em vista o ven eno destilado pelo verbo irreverente e ingrato do réu, espero seja este algemado e recolhido imediatamente ao cárcere.