No dia fixado, o grande recinto do mais alto soda lido israelita enchia-se de verdadeira multidão de cren tes e curiosos, ávidos de assistir ao primeiro embate entre os sacerdotes e os homens piedosos e estranhos, do “Caminho”. A assembléia congraçava o que Jerusa lém tinha de mais aristocrático e de mais culto. Os mendigos, porém, não tiveram acesso, embora se tra tasse de um ato público. O Sinédrio exibia suas personagens mais eminen tes. De mistura com os sacerdotes e mestres de Israel, notava -se a presença das personalidades mais salientes do farisaismo. Lá estav am representantes de todas as sinagogas. Compreendendo a acuidade intelectual de Estevão, Saulo queria fornecer lhe um confronto do cenário em que dominava o seu talento, com a igreja humilde dos adeptos do carpinteiro de Nazaré. No fundo, seu pro pósito radicava na jactanciosa demonstração de supe rioridade, afagando, ao mesmo tempo, a íntima esperança de conquistá -lo para as hostes do judaismo. Preparara, por isso, a reunião com todos os requisitos, de feição a impressionar-lhe os sentidos. Estevão comparecia como um homem chamado a defender -se das acusações a ele imputadas, não como prisioneiro comum obrigado a acertar contas com a justiça. Examinando, pois, a situação, rogou com in sistência aos Apóstolos galileus não o acompanhassem, considerando, não s ó a necessidade de permanecerem junto dos sofredores, como também a possível ocorrência de sérios atritos, no caso de comparecimento dos adeptos do “Caminho”, dada a firmeza de ânimo com que procuraria salvaguardar a pureza e a liberdade do Evangelho do C risto. Além disso, os recursos de que poderiam dispor eram demasiadamente simples e não seria justo afrontar com eles o poderio supremo dos sacerdotes, que tinham encontrado recursos para crucificar o próprio Messias. Em favor do “Caminho” pontificavam, ap enas, aqueles enfermos desventurados; as convicções puras dos mais humildes; a gratidão dos mais infelizes — única força poderosa pelo seu conteúdo de virtude divina, a lhes amparar a causa perante as autoridades dominantes do mundo. Assim ponderando, disp utava o júbilo de assumir, sozinho, a responsabilidade da sua atitude, sem comprometer qualquer companheiro, tal como fizera Jesus um dia, no seu apostolado sublime. Se necessário, não desdenharia a possibilidade do derradeiro sacrifício, no sagrado testem unho de amor ao seu coração augusto e misericordioso. O sofrimento, por Ele, ser -lheia suave e doce. Sua argumentação vencera o bom desejo dos companheiros mais veementes. Assim, sem amparo de qualquer amigo, compareceu ao Sinédrio, tomado de forte impressão ao lhe observar a grandeza e a sun tuosidade. Habituado aos quadros tristes e pobres dos subúrbios, onde se refugiavam os infelizes de toda espécie, deslumbrava -se com a riqueza do Templo, com o aspecto soberbo da torre dos romanos, com os edi fícios residenciais de estilo grego, com a feição exterior das sinagogas que se espalhavam em grande número por toda parte. Compreendendo a importância daquela sessão a que acorriam os elementos de escol, por identificarem o invulgar interesse de Saulo, que, no momento, era a expressão de mocidade mais vibrante do judaísmo, o Sinédrio requisitara o concurso da autoridade romana para a absoluta manutenção da ordem. A Corte Provincial não regateara providências. Os próprios patrí cios residentes em Jerusalém compare ceram, numerosos, ao grande feito do dia, considerando que se tratava do primeiro processo em torno das idéias ensinadas pelo profeta nazareno, depois da sua crucificação, que deixara tanta perplexidade e tantas dúvidas no espírito público. Quando o grande recinto regurgitava de pessoas de alto destaque social, Estevão sentou-se no lugar previamente designado, conduzido por um ministro do Templo, ali permanecendo sob a guarda de soldados que o fixavam ironicamente. A sessão começou com todas as cerimônias r egimentais. Ao iniciar os trabalhos, o sumo-sacerdote anunciou a escolha de Saulo, consoante seu próprio desejo, para interpelar o denunciado e averiguar a extensão de sua culpa no aviltamento dos princípios sagrados da raça. Recebendo o convite para funcionar como juiz do feito, o jovem tarsense esboçou um sorriso triunfante. Com imperioso gesto, mandou que o humilde pregador do “Caminho” se aproximasse do centro da sala suntuosa, para onde se dirigiu Estevão serenamente, acompanhado por dois guardas de cenho carregado. O moço de Corinto fixou o quadro que o rodeava, considerando o contraste de uma e outra assembléia e recordando a última reunião da sua igreja pobre, onde fora compelido a conhecer tão caprichoso antagonista. Não seriam aquelas as “ovelhas perdidas” da casa de Israel, a que aludia Jesus nos seus vigorosos ensinamentos? Ainda que o judaísmo não houvesse aceitado a missão do Evangelho, como conciliava ele as observa ções sagradas dos profetas e sua elevada exemplifica ção de virtude, com a a vareza e o desregramento? O próprio Moisés fora escravo e, por dedicação ao seu povo, sofrera inúmeras dificuldades em todos os dias da existência consagrada ao Todo-Poderoso. Job padecera misérias sem-nome e dera testemunho de fé nos sofrimentos mais ace rbos. Jeremias chorara incompre endido. Amós experimentara o fel da ingratidão. Como poderiam os israelitas harmonizar o egoísmo com a sabedoria amorosa dos Salmos de David? Estranhável que, tão zelosos da Lei, se entregassem de modo abso luto aos interesses mesquinhos, quando Jerusalém es tava cheia de famílias, irmãs pela raça, em completo abandono. Como cooperante de uma comunidade modes ta, conhecia de perto as necessidades e sofrimentos do povo. Com essas unções, sentia que o Mestre de Nazaré se elevav a muito mais, agora, aos seus olhos, distri buindo entre os aflitos as esperanças mais puras e as mais consoladoras verdades espirituais. Ainda não voltara a si da surpresa com que exami nava as túnicas brilhantes e os ornamentos de ouro que exuberavam no recinto, quando a voz de Saulo, clara e vibrante, o chamou à realidade da situação. Depois de ler a peça acusatória em que Neemias figurava como principal testemunha e no que foi ouvido com a máxima atenção, Saulo interrogou Estevão entre ríspido e altivo: — Como vedes, sois acusado de blasfemo, calunia dor e feiticeiro, perante as autoridades mais representa tivas. No entanto, antes de qualquer decisão, o Tribunal deseja conhecer vossa origem para determinar os direi tos que vos assistem neste momento. Soi s, porventura, de família israelita? O interrogado fez-se pálido, ponderando as dificul dades de uma plena identificação, caso fosse indispen sável, mas respondeu firmemente: — Pertenço aos filhos da tribo de Issacar. O doutor da Lei surpreendeu -se, ligeiramente, de maneira imperceptível para a assembléia, e continuou: — Como israelita, tendes o direito de replicar livre mente às minhas interpelações; todavia, faz -se mister esclarecer que essa condição não vos eximirá de pesados castigos, caso perseverarde s na exposição dos erros crassos de uma doutrina revolucionária, cujo fundador foi con denado à cruz infamante pela autoridade deste Tribu nal, onde pontificam os filhos mais veneráveis das tribos de Deus. Aliás, apreciando, por suposição, a vossa ori gem, convidei-vos a discutir lealmente comigo, quando de nosso primeiro encontro na assembléia dos homens do “Caminho”. Fechei os olhos aos quadros de miséria que então me cercavam, para analisar tão -só os vossos dotes de inteligência; mas, evidenciando estran ha exaltação de espírito, talvez em virtude de sortilégios, cujas influências são ali visíveis, vos mantivestes em singular reserva de opinião, apesar dos meus apelos reiterados. Vossa atitude inexplicável deu azo a que o Sinédrio considerasse a presente denúncia de vosso nome como inimigo de nossas ordenações. Sereis agora obrigado a responder a todas as interpelações convenientes e neces sárias, e eu espero reconheçais que o título de israelita não vos poderá livrar da punição reservada aos traidores de nossa causa. Depois de não pequeno intervalo em que o juiz e o denunciado puderam verificar a ansiosa expectativa da assembléia, Saulo entrou a interrogar: — Por que rejeitastes meu convite à discussão quan do honrei a pregação no “Caminho” com a minha pre sença? Estevão, que tinha os olhos fulgurantes, como ins pirado por uma força divina, replicou em voz firme, sem revelar a emoção que íntimamente o dominava: — O Cristo, a quem sirvo, recomendou aos seus dis cípulos evitassem, a qualquer tempo, o fermento das discórdias. Quanto ao ato de haverdes honrado minha palavra humilde com a vossa presença, agradeço a prova de imerecido interesse, mas prefiro considerar com David (1) que nossa alma se gloriará no Senhor, visto nada possuirmos de bom em nós mesmos, s e Deus nos não amparar com a grandeza da sua glória. Em face da lição sutil que lhe era lançada em rosto, Saulo de Tarso mordeu os lábios, entre colérico e despeitado, e, procurando evitar, agora, qualquer alusão pessoal, para não cair em situação semelha nte, prosseguiu: — Sois acusado de blasfemo, caluniador e feiti ceiro. — Permito-me perguntar em que sentido — retrucou o interpelado, com desassombro. (1) Salmos de David, capítulo 34º, versículo 2. — (Nota de Emmanuel.) — Blasfemo quando inculcais o carpinteiro de Nazaré como Salvador; caluniador quando achincalhais a Lei de Moisés, renegando os princípios sagrados que nos regem os destinos. Confirmais tudo isso? Aprovais essas acusações? Estevão esclareceu sem titubear: — Mantenho minha crença de qu e o Cristo é o Salvador prometido pelo Eterno, através dos ensinos dos profetas de Israel, que choraram e sofreram no decurso de longos séculos, por transmitir -nos os júbilos doces da Promessa. Quanto à segunda parte, suponho que a acusação procede de inte rpretação errônea em torno de minhas palavras. Jamais deixei de venerar a Lei e as Sagradas Escrituras, mas considero o Evangelho de Jesus o seu divino complemento.