Isto me lembra um espírito do qual cuidamos certa vez. Ele pertencia a uma instituição espiritual que se empenhava, com todas as suas forças, em destruir totalmente as estruturas religiosas da Terra e os sentimentos respectivos no coração dos seres humanos a fim de que - diziam eles - se tornasse possível começar tudo de novo e criar um novo conceito de religião, sem rituais ou dogmas, mas também sem Deus e com a total marginalização da mensagem do Cristo. E certamente com uma hierarquia montada à imagem e semelhança deles próprios para que pudessem difundi-la por toda a parte. Plano ambicioso, por certo, e até admissível, em princípio, em alguns dos seus pontos fundamentais, quando paramos um momento para pensar no descalabro que vai pelo mundo afora em termos de religião. Quando observamos o florescimento de estranhos cultos, a eclosão de confusas lideranças religiosas, a proliferação de seitas, de rituais bárbaros, estapafúrdios, orgiásticos, ridículos ... quando vemos religiões que se deixam contaminar pelo fanatismo, assaltam o poder pela força, dominam pelo terror e pela violência e eliminam vidas humanas, a sangue-frio, em nome de Deus.
Mesmo as que não recorrem à violência, muitas delas pelo menos, estão perdidas em seus dogmas arcaicos, em suas posturas cristalizadas e na total irrealidade de suas estruturas de pensamento, sobrevivendo, apenas, porque assentam-se em núcleos de poder cuidadosamente montados e sustentados pela força esmagadora do dinheiro.
Realmente, há muito o que fazer em termos de reformulação religiosa, mas, como tivemos oportunidade de lhes dizer nos inúmeros diálogos sustentados com os líderes da estranha comunidade espiritual, jamais chegaremos a uma solução satisfatória tentando apagar mais luzes na meia-luz da irreligiosidade em que vivemos mas, sim, trabalhando para que mais luzes sejam acesas, ainda que uma simples vela, para diminuir a escuridão. Além do mais, a filosofia que estavam praticando como objetivo final era apena um disfarce a mais para as suas próprias ambições e um esconderijo a mais para as suas frustrações, pois também eles vinham de fracassos lamentáveis após inúmeras experiências no campo da religião e da política.
Um de seus dirigentes, contudo, aproximara-se de um de nossos amigos espirituais.
Disse-nos, depois, que ia distraído por um caminho e, de repente viu aquela pessoa ali, sentada num banco de jardim, tranqüilamente a ler um livro. Aproximou-se e começaram a conversar, já que fora bem recebido pelo outro. Para encurtar a história: ao fim de algum tempo, ele ficou muito impressionado do que gostaria de admitir pela serena argumentação do nosso amigo e acabou decidido a uma parada para pensar.
Era o primeiro indício dum despertamento de há muito desejado por seus amigos, pois não era mau-caráter, apenas um companheiro bem -dotado e experimentado que se transviara, ante o receio de enfrentar suas próprias responsabilidades e promover as reformas íntimas de que necessitava. Acabou decidindo permanecer por ali mesmo, ainda que sem disposição para enfrentar as suas lutas pessoais e pediu ao nosso companheiro que lhe permitisse ficar cuidando daquele belíssimo jardim em que estavam a conversar. Ali estava uma ocupação que ele aceitaria de bom grado. Era uma pessoa honesta, positiva e comovente, embora, ainda há pouco, só pensasse em trabalhar para subverter os conceitos religiosos vigentes na Terra. O nosso companheiro respondeu-lhe que sim poderia ficar, mas quanto ao jardim, cada um de nós tem de construir o seu e cuidar dele, pois não há como cuidar de jardins alheios.
Foi a primeira lição, muito sutil, carinhosa e fraterna. Outras viriam ...
A historinha (verídica, aliás) nos serve para ilustrar, de maneira dramática, a curiosa realidade do mundo invisível no qual passamos a viver entre uma encarnação e a próxima. O ambiente em que iremos viver esse período é determinado não pelo nosso desejo, mas pelo nosso peso específico, ou seja, pelo grau evolutivo que houvermos alcançado. Se já conseguimos acumular algumas conquistas, ainda que modestas, é como se tivéssemos aderido ao nosso corpo espiritual, uma espécie de bóia luminosa que não nos deixa afogar e descer ao fundo escuro das águas que cobrem os abismos.
Ficaremos a sobrenadar ainda necessitados de água, mas à superfície, onde brilha o sol. Há seres, porém, que já nem de bóia precisam, parecendo ter asas com as quais alçam-se rumo a planos que mal conseguimos imaginar. Não é sem razão que os artistas e teólogos medievais imaginavam os anjos dotados de asas, como os pássaros ... Os seres superiores não estão mais obrigados a rastejar pela terra porque já podem voar pela amplidão cósmica.
Alguns de nós, como Regina, visitam, ocasionalmente, regiões mais purificadas, ainda que não consigamos sequer chegar perto das mais elevadas. Vimos, ainda há pouco, na experiência em que ela funcionou como médium após passar por um segundo desdobramento, a inconcebível distância espiritual entre o plano em que vivemos e aquele em que se passaram as atividades que ela descreve. Para figurar objetivamente essa distância, que é vibratória, é moral, que não é mensurável em termos geográficos, o seu sistema de codificação pessoal traduziu a viagem em símbolos oníricos: primeiro a caminhada em grupo e, em seguida, o transporte numa espécie de helicóptero no qual apenas duas pessoas de cada vez poderiam embarcar, como que a sugerir que raras pessoas poderiam ser selecionadas para essa 'viagem'; parecia um teleférico em que o passageiro ficava sentado numa cadeira individual pendurado sobre imensos abismos. É de se supor que a um descuido mais sério em qualquer ponto da trajetória, como um pensamento impróprio ou um momento de invigilância, poderia o viajante precipitar-se de volta àquele minúsculo grãozinho de poeira cósmica em que vivemos, presos a um bloco de carne e ossos ... mesmo depois que o aparelho depositou as pessoas, duas a duas, em algum ponto identificável, ainda houve necessidade de um guia que a levasse à instituição a que se destinavam.
Outro pormenor interessante é o de que ela teve de ser desdobrada novamente, numa forma ainda mais sutil que a perispirítica, a fim de poder funcionar como médium de apoio ao orador que veio de regiões muito mais elevadas do que aquela em que se encontravam reunidos os que vieram ouvi-lo.
5. PSICOLOGIA DO DESDOBRAMENTO
Habituada aos desdobramentos ocorridos ao longo de anos de experiência quase diária, Regina passou a considerá-los como atividade rotineira, em paralelo com o exercício de suas faculdades, seja antecipando trabalhos mediúnicos em preparação, seja complementando-os posteriormente, bem como em reuniões de instrução e de aprendizado, como vimos. Não lhe é difícil, portanto, manter sua lucidez no decorrer do processo, ainda que o desprendimento seja conseqüência do sono comum. Logo que ocorre o desdobramento - que não apresenta mais aquelas tensões e receios - ela tem consciência de estar fora do corpo físico, sabe onde está e o que está fazendo. O mais importante, contudo, é o que se poderia chamar de deslocamento do centro de interesse com a sua conseqüente alteração na perspectiva e nas prioridades. Uma vez destacada do corpo físico é como se algo mudasse na sua própria psicologia ou, pelo menos, na maneira de considerar importantes aspectos da vida. Na posse de um corpo mais sutil, que melhor obedece aos seus comandos mentais e certamente com acesso mais fácil a um vasto mundo de informações e perspectivas, sente-se, de fato, outra pessoa. É como se ficassem naquele corpo adormecido e pesado as motivações de muitas angústias e problemas. Não que tais sensações deixem de existir porque os problemas, ela bem o sabe, continuam, mas se posicionam em novos arranjos, numa diferente hierarquia de valores. No corpo mais sutil, mais senhora de si mesma, ela chega até a lamentar a perda de tempo com aspectos de sua vida que não têm, afinal de contas, a importância com que se apresentam à sua ótica de encarnada, contida pelas bem-definidas limitações da vida física: - É como se eu não tivesse nada a ver com os problemas daquela mulher adormecida que ficou lá na minha cama ... - diz Regina.
Como se tudo aquilo que ela é e representa fossem coisas de outro mundo, de outra pessoa, com a qual ela está vagamente relacionada.
Enquanto isso, os trabalhos se sucedem e não teríamos a pretensão nem o espaço para descrevê-los todos e sobre eles tecer considerações específicas.
Ela se lembra de tarefas que desempenhou durante algum tempo no mundo espiritual como, por exemplo, cuidar de crianças enquanto as mães saíam de seu próprio corpo para tarefas inadiáveis. Nesses casos, ela era levada por amigos espirituais aos lares em que deveria servir. Quando, acontecia, ela já encontrava, ao desdobrar-se, um trabalhador à sua espera. Ao chegarem, encontravam a mãe aguardando apenas sua presença para partir, trocavam algumas palavras e a pessoa seguia, feliz e confiante porque alguém ficara de plantão junto às crianças adormecidas. Regina informa que nunca teve problemas graves nessas vigílias, mesmo porque dificilmente as crianças despertavam do lado de cá, preferindo ficar despertas do outro lado da vida. Tais lares eram usualmente muito simples, em ambientes pobres. Às vezes, resumiam-se em um único aposento onde se apertavam camas, bercinhos, mesas, armário, fogão, enfim o mínimo de que precisa uma casa, por mais modesta que seja. Nunca identificou essas mães ou as crianças, mas eram obviamente criaturas em provações difíceis no plano físico, embora credoras de certa cobertura e carinho de devotados companheiros espirituais.
São freqüentes também as idas de Regina em visita a doentes com problemas semelhantes aos que se verificam no corpo físico. Muitas dessas atividades são direta ou indiretamente relacionadas com o trabalho mediúnico em desenvolvimento no grupo que ela freqüenta. Um exemplo disso é relatado a seguir.