3. DESDOBRAMENTO EM DESDOBRAMENTO
É comum observar-se em Regina o trabalho mediúnico específico e bem caracterizado em desdobramento. Em várias oportunidades, em vez de o espírito manifestante ser 'trazido' ao grupo, ela é que vai ao encontro dele, o que dá conhecimento antecipado ao dirigente dos trabalhos. Desprende-se e é levada pelos amigos espirituais. Não sei bem o que se passa nesses casos, mas suponho que lá é que se promove a ligação do manifestante com o seu perispírito e, como este continua ligado ao corpo físico, a comunicação psicofônica ocorre normalmente, possibilitando o diálogo com o doutrinador.
Interessante observar que, nesses casos, o espírito manifestante se sente como que em seu próprio ambiente e de fato ali está, pois não foi deslocado para comparecimento ao grupo mediúnico, atraído ou convidado. Pelo que me foi dado depreender, isso acontece quando há certa dificuldade em atrair o espírito até o grupo, em vista de sua obstinação ou dos cuidados de que cerca, temeroso de afastar-se dali e acabar em dificuldades. (São entendi: como 'dificuldades', neste caso, mudanças substanciais na sua maneira de ver as coisas e de conduzir sua vida).
Num desses episódios, Regina foi levada em desdobramento à região do mundo espiritual onde vivia um espírito que a assustou com a sua aparência terrível, envolto em largo manto negro, dominando toda uma região em que mantinha vários seres literalmente prisioneiros e até acorrentados. Eram reféns que ele conservava como peões num tenebroso tabuleiro de xadrez que as peças eram seres humanos e as jogadas, movimentação de destinos alheios. Além do mais, estava indignado com o trabalho do qual ela participava e que já lhe havia subtraído algumas de suas 'peças'.
Daí a cólera com que a recebeu, tentando intimidá-la para frustrar a ação do grupo.
Em algumas ocasiões, contudo, ela foi desdobrada não para ir ao encontro de figuras assustadoras, como essa, mas de espíritos de elevada condição evolutiva que, mesmo à distância, transmitiam-lhe seu pensamento, traduzido em palavras por ela. Nesses casos, a dificuldade não estava em descer desdobrada a antros quase inacessíveis das trevas, mas subir a regiões de inconcebível beleza, igualmente inacessíveis, sem preparação e apoio.
Em outras oportunidades, Regina tem trabalhado mediunicamente, ou seja, funcionando como médium, estando já desdobrada, no plano espiritual. De um desses episódios ela se lembra com nitidez.
Era uma reunião ao ar livre, em algum local não-identificado no mundo invisível. Havia um lindo gramado e as pessoas sentavam-se ao chão descontraidamente. Um casal, que parecia coordenar os trabalhos, conduziu Regina a uma pequena mesa, em frente ao grupo de pessoas espalhadas pela grama. Ela sentou-se e orou, em silêncio, por alguns momentos. Formou-se um cone de luz, vindo não sabe ela de onde e que terminava aberto sobre sua cabeça, envolvendo-a até o pescoço como um imenso capuz luminoso que se estendia pelo infinito afora. Fez-se um silêncio respeitoso e ela começou a falar sobre o perdão, sentindo-se mero instrumento de ligação entre um plano e outro, tal como na atividade mediúnica habitual, no grupo terreno.
Há outra lembrança semelhante. Já desdobrada, ela foi conduzida a um auditório ou cenáculo enorme, lotado de gente encarnada e desencarnada. Sentia-se algo nervosa e tensa, talvez ante a perspectiva da responsabilidade de que sabia ter de desincumbir- se. Um homem, amigo seu no plano físico, ali presente, levou-a a uma salinha ao lado, fez uma prece e ministrou-lhe um passe. Ela acalmou-se e, juntos, voltaram ao salão.
O seu amigo sentou-se e ela foi colocada na frente daquela pequena multidão.
Novamente ocorreu o fenômeno do cone de luz sobre sua cabeça, a envolvê-la, e a entidade comunicante pôs-se a falar, evidentemente à distância. Infelizmente, Regina não se lembra de nada do que por seu intermédio falou o espírito, nem quem seria ele.
Um desses fenômenos ficou mais bem marcado na sua memória de vigília.
Ao retornar da reunião mediúnica semanal, no plano físico, chegou à sua casa vinte minutos antes da meia-noite. Banhou-se, tomou um lanche, leu uma página do livro Vinha de Luz, orou e deitou-se. Após um sono mais ou menos breve, acordou normalmente e, logo em seguida, voltou a adormecer. Viu-se, desdobrada, integrando um grupo de pessoas encarnadas que se preparavam para seguir para um local onde participariam de uma reunião no mundo espiritual.
Puseram-se a caminhar conversando tranqüilamente e chegaram a um local onde estava armada uma espécie de plataforma. Aguardaram alguns momentos, até que chegou um veículo parecido com um helicóptero que transportava apenas duas pessoas de cada vez, além da que manobrava o aparelho. Regina não deixou de manifestar certo receio e chegou a comentar com uma companheira: - Acho que vou ter medo; imagine se a gente cai lá de cima. Isto porque o veículo não era fechado e os dois assentos destinados aos 'passageiros' pendiam sobre o espaço, como os de um teleférico. Chegada a sua vez, embarcou no estranho veículo juntamente com outra pessoa e a 'coisa' começou a subir e subir e parecia nunca mais chegar ao seu destino.
Mas chegou. Era uma nova plataforma onde o aparelho pousou e elas desceram. Ali também o espaço 'físico' era exíguo e precário. Parecia apenas uma estreita prancha suspensa sobre a imensidão do espaço vazio. Uma pessoa as recebeu e as conduziu ao local da reunião, aonde chegaram sãs e salvas.
Era um salão amplo, numa construção também muito ampla, arejada e pintada de branco. Tudo muito simples, quase primitivo e rústico. No salão principal, havia filas de bancos toscos para o público. Respirava-se uma atmosfera de paz indizível. À frente dos bancos destinados ao público, um pouco à direita, ficavam outros, onde se encontravam algumas pessoas já sentadas, todos obviamente à espera do orador convidado para aquela noite.
Regina sabia que o grupo responsável pela instituição que funcionava naquela construção estava ligado aos pioneiros do cristianismo primitivo e via lá entidades veneráveis; algumas ela identificou, outras, não. Seu amigc espiritual - que acompanhara o desenvolvimento de suas faculdades desde o início, como vimos - também estava lá. Foi das raras vezes em que ela esteve pessoalmente com ele ou pelo menos das vezes em que se lembra de ter estado com ele.
Havia grande expectativa enquanto se aguardava o orador da noite, que fora um dos grandes pregadores dos tempos primitivos do cristianismo. Ela foi informada de que este espírito era o coordenador do movimento de restauração do cristianismo à sua pureza primitiva. Era sobre isso, aliás, que estava programado para falar.
No momento seguinte, ela viu-se desdobrada pela segunda vez, pois foi informada de que iria trabalhar mediunicamente, ou seja, colaborar, através de suas faculdades, com a tarefa da noite, logo em seguida, vê a entidade a falar. Era uma figura esbelta, alta, vestida com uma túnica simples, cor alaranjada. É a primeira a surpreender-se com o seu desdobramento em desdobramento: - Como posso eu, já estando aqui - pensou ela -, ser desdobrada outra vez: Em verdade, ela via a sua própria forma perispiritual ser utilizada no trabalho, perfeitamente consciente de estar sentada na primeira fila entre os assistentes. Era como uma materialização, pois à medida que pessoa falava e gesticulava, ela sentia a repercussão dos gestos e da fala como se ela própria estivesse a falar e fazer os mesmos movimentos. Regina surpreendeu-se por um rápido momento a pensar: - Nem mesmo aqui consigo ficar totalmente inconsciente!
Quando a reunião terminou, generalizou-se uma conversação fraterna e descontraída.
Regina foi levada a uma sala onde pôde, então, falar pessoalmente com o seu amigo espiritual, a quem tanto ama, admira e respeita. Falaram, a princípio, de alguns problemas pessoais que a afligiam no momento (lá embaixo, na Terra, e depois ela lhe perguntou como teria sido possível aquele segundo desdobramento, já que ela se encontrava desdobrada do corpo físico que repousava no seu quarto de dormir. Ele disse que sim, aquilo era possível, tanto que ocorreu, mas não se estendeu em explicações. Acrescentou que se haviam utilizado do recurso porque era muito importante para ela ouvir o que a entidade tinha a dizer e daquela forma seria mais fácil para ela gravar e reter na memória de vigília, o que de fato ocorreu, pois ela guardou, em suas linhas gerais, os principais tópicos da palestra da noite.
4. SINGULARIDADES DO MUNDO ESPIRITUAL
Nunca se sabe, ao certo, que tipo de atividade está planejada para cada um dos desdobramentos de Regina, quando ela se retira para o seu quarto de dormir. Nem todos, claro, são 'viagens a serviço'. Às vezes são de recreio também. Encontros com pessoas amadas, das quais ela se acha separada, aqui no plano físico, por motivos e compromissos vários, ou com amigos espirituais que, embora não nominalmente identificados, ela sabe que são pessoas muito queridas, às quais se ligou em passado remoto e que continuam fiéis aos vínculos de afeição. Em tais ocasiões, há alegrias e emoções profundas em ambientes de beleza indescritível nos quais a paz, a harmonia e o amor não são apenas palavras soltas e vagos conceitos insubstanciais, mas são da própria essência das coisas, como se aqueles mundos fossem constituídos com esses elevados sentimentos e não como o nosso, de matéria densa. E, no entanto, eles são tão sólidos e reais como este, mas sem as opressões e inquietações que aqui experimentamos. Parece que os amigos espirituais desejam nos proporcionar com isto alguns momentos de 'recreio', uma visita a locais que, um dia, serão o nosso próprio 'habitat'. Enquanto não construirmos em nós as fundações do reino de Deus, só nos resta sonhar com aqueles ambientes de serenidade e visitá-los ocasionalmente.