VI
Certa vez, ela foi levada a uma reunião de instrução num plano que lhe pareceu bastante elevado. Ela sabia que estava ali somente porque seu devotado amigo espiritual conseguira uma autorização especial para ela e naturalmente levara-a sob sua responsabilidade e proteção. Encontrou lá um vasto salão de conferências e visitou departamentos, onde havia grande profusão de aparelhos desconhecidos. Contemplava aquilo algo aturdida, observava e fazia perguntas. Sentia contudo que, onde quer que se encontrasse, estava sob o controle mental de seu amigo, embora ele não estivesse ao seu lado durante a visita. Percebia isso porque, ante qualquer atitude equívoca ou curiosidade injustificada, sentia o pensamento dele induzindo-a a prosseguir. Consciente de estar ali por concessão especial e não porque tivesse méritos pessoais, esforçava-se por se manter atenta e vigilante, preparando com cuidado suas perguntas e escolhendo as palavras que ia dizer. Mesmo assim, houve pequenos incidentes. A certa altura, por exemplo, viu passar uma jovem e, sem saber como, percebeu que a moça era uma recém-desencarnada. A curiosidade (gratuita) levou a melhor sobre seus cuidados e ela se aproximou da moça iniciando uma conversação, com o objetivo de saber como ela se sentia logo após a 'morte'. Já formulava uma pergunta específica, quando a interrompeu, desculpando-se com a jovem e pensando: - Preciso ter cuidado. Não posso decepcionar meu amigo. Quando os trabalhos da noite terminaram, ela, pelo braço dele, retirou-se descendo as escadarias juntamente com outras pessoas, desconhecidas dela, mas certamente conhecidas dele, pois conversavam animadamente. Feliz por estar ali ao lado dele e vê-lo integrado naquele ambiente de seriedade e paz, ela aconchegou-se a ele e lhe disse: - Como amo o meu paizinho! Adoro o meu paizinho! Ele sorriu e replicou: - Amar, sim, minha filha. Mas adorar, só a Deus! Ficou a lição. 6. VISITA A IBRAIM Acrescentaremos mais um relato para encerrar este módulo, não apenas pelas suas conotações pessoais, mas pela curiosa lição que ele encerra a respeito do mundo espiritual e de suas leis. Regina teve um irmão muito querido que desencarnou aos quarenta e seis anos de idade, vitimado por uma enfermidade incurável. Fora esse irmão que, de certa forma, após a morte de seu pai, substituíra-o nas preferências dela. Foi ele que assumiu a responsabilidade material e moral da família e esforçava-se por suprir, também no coração da menina, a ausência e o vazio que ali ficaram com a partida do pai. Passou a fazê-la adormecer no colo, trazia-lhe balas, encontrava alguns minutos, enfim, para ela. Naturalmente que Regina apegou-se ainda mais a ele, como que somando a afeição que nutria pelo pai à que experimentava pelo irmão, bem mais velho. Esse relacionamento tranqüilo e afetuoso continuou pela vida afora, mesmo depois que ela se tornou adulta e ele seguira seus caminhos, casando-se. Era o mesmo afeto de sempre, as mesmas atenções; ele continuava sendo para ela o pai que se fora prematuramente. Dez anos depois que esse irmão morreu, Regina teve com ele um encontro no mundo espiritual. Estava em tarefas compatíveis com o seu temperamento e sua experiência, uma certa continuidade do que vivera aqui na Terra. 'Em vida', sempre fora, descontraído, interessado numa boa roda de samba, namorador, mas profundamente bom, simples, honesto, trabalhador e responsável. Todos gostavam muito dele. Junto dele não havia tristeza que durasse. Houve um tempo em que a família residira numa região perigosa da Baixada Fluminense, já àquela época famosa pela assídua freqüência de marginais. O irmão de Regina arrumou um modesto emprego numa das biroscas locais. Tinha a família para sustentar e não temia trabalho honesto. Acontece que a birosca não era lá esses primores em termos de clientela. Na verdade, tornara-se ponto de encontro de muitos marginais das redondezas. O jovem dava-se bem com todos graças ao seu temperamento descontraído e pacífico. Tinha por norma não se meter na vida de ninguém, aprendera a não fazer perguntas indiscretas e tratava todo mundo fosse quem fosse, com educação e respeito naturais, sem subserviência. Acabou fazendo bons amigos entre alguns bandidos da região, pobres seres desarvorados e ainda muito comprometidos com as leis humanas e divinas. Desse bom relacionamento resultou inesperado benefício: a família de Regina nunca foi molestada por nenhum dos marginais. Livraram-se até de tentativas de assalto ao serem identificados como 'gente boa', família do jovem birosqueiro. Mesmo as moças podiam trafegar livremente pelas ruas e atalhos, altas horas da noite, que nada lhes acontecia, em respeito e amizade ao irmão mais velho. Muita gente pensa que os médiuns são meros telefones para o além e que basta discar um número que os 'mortos' atendem prontamente do outro lado. A realidade, porém, é bem outra. Mesmo Regina, em pleno exercício de suas variadas mediunidades, não tem acesso pronto e fácil, à sua vontade, aos seus amigos e parentes desencarnados. Isto é válido também para mim. Ao escrever estas linhas, passaram-se quase quarenta anos que partiu meu pai, aos cinqüenta e sete anos de idade. Não obstante lidar com médiuns, pelo menos nos últimos vinte anos de trabalho, nunca tive oportunidade de falar com ele, receber uma comunicação ou saber como está. Minha mãe, somente vinte anos após sua partida, mandou-me notícias por via mediúnica e, muito caracteristicamente, em seu leve e conhecido estilo epistolar (foi uma excelente comunicadora, na sua especialidade). Foi o que também aconteceu a Regina. Mesmo exercendo a mediunidaade, vários anos se passaram sem que ela tivesse a menor notícia do irmão. Um belo dia, porém, ou melhor, uma bela noite, ela se viu desdobrada junto a ele. Como sempre fora 'em vida', ele estava muito alegre e parecia feliz. Convidou-a para ir ao seu local de trabalho. Era uma região agreste, escura, como que envolvida em permanente neblina, densa e pesada. Foi conduzida a uma casa de pequenas proporções, mas muito limpa, em volta da qual ficava uma forte cerca protetora. O irmão indicou-lhe um cômodo mais espaçoso no qual, para seu constrangimento, havia uma pessoa desconhecida dela. Percebendo seu desapontamento, ele apresentou a irmã ao homem dizendo-lhe: - Não fique preocupada, não. O coronel é boa gente. Estou botando você aqui com ele para maior segurança. Ele é de toda confiança. E quando você ficar sozinha, passa a tranca na porta, que o pessoal aqui é da pesada. A observação, obviamente, não tranqüilizou muito Regina, mas que fazer? Ainda que restasse alguma desconfiança com relação ao homem que ele chamara de coronel, ela confiava no irmão que jamais a deixaria exposta a algum perigo mais sério. Explicou-lhe ainda que tinha agora alguns afazeres, mas que voltaria dentro em breve para lhe mostrar o resto do seu local de trabalho, no qual evidentemente se sentia à vontade no desempenho de suas responsabilidades. Ao cabo de algum tempo, ele voltou. Puderam, então, conversar mais à vontade. Disse-lhe ele que continuava mantendo contactos com verdadeiros bandos de marginais desencarnados, como fizera na Terra. Tratava-os com a dose certa de respeito e compaixão, convicto de que não eram assim porque queriam e sim, porque pressionados por contingências que não tinham conseguido superar. Em suma: tinha pena deles e tentava ajudá-los com seus modestos recursos e com o coração generoso, sempre aberto para acolhê-los tão logo manifestassem qualquer predisposição ao socorro. A experiência na Terra estava sendo, pois, de grande utilidade no mundo espiritual. Pouco depois de lá chegado, em conseqüência da desencarnação, pediu para trabalhar junto desses companheiros transviados que ele compreendia tão bem e que pareciam entendê-lo e aceitá-lo com certo respeito. Fora localizado ali, naquele posto avançado da dor, muito junto ainda da ambientação da Terra, onde viviam multidões desajustadas e sofridas. Os pobres irmãos que demonstrassem um mínimo de condição eram recolhidos e reencaminhados para centros de tratamento. - Às vezes - comentou com Regina - passam para o lado de cá por causa dos tiroteios em que se metem no mundo e sequer sabem que já estão mortos. E continuam dando tiros para todo lado. Então vou-me chegando e ele grita: - Pare aí! Pare ou eu atiro! - Então eu lhe digo: - Mas por que você vai atirar em mim, companheiro? Não 'tou' a fim de lhe prejudicar. Há uma pausa, a hesitação ainda desconfiada. Naturalmente, pensam eles, é um policial disfarçado que se aproxima para aprisioná-los. O único jeito para demonstrar que não se é da polícia, é continuar caminhando calmamente na direção deles. A desconfiança pode aumentar: aquele desassombro só pode estar apoiado num bom colete de aço à prova de balas. Seja como for, é preciso atirar e, enquanto o pobre companheiro em pânico atira sem cessar, o outro continua caminhando tranqüilamente. Ao perceber que não consegue matá-lo, o bandido acaba descobrindo que o outro é um fantasma ou seja, está morto. - Tou sim. E você também irmão. Você já tá noutra ... É um momento dramático. Alguns saem a correr desesperados e não há como detê- los. Fica difícil localizá-los depois e convencê-los a viverem uma nova e desconhecida fase da vida na qual tiro não mata e não há o que assaltar. Impressionada com o seu linguajar e sua aparência física, ainda muio terrenos (era o mais pretinho dos irmãos), Regina perguntou-lhe: - Por que você continua falando desse jeito? Acho que não é mais necessário. E também, por que você continua com essa aparência física tão igual à da Terra?
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Nome do Capítulo Desdobramento como precondição do trabalho mediúnico