De que maneira iria um ser desencarnado (espírito) - que em nosso esquema estamos chamando de habitante da realidade II - comunicar-se com seus companheiros encarnados (almas), sem utilizar-se das faculdades anímicas destes? Se lhes fosse possível prescindir do componente anímico, eles não precisariam de médiuns!
Voltemos à nossa imagem colorida. Se o pensamento do espírito desencarnado comunicante fosse azul e o do médium fosse amarelo, a mensagem não poderia fugir a uma tonalidade esverdeada. O ideal, por certo, é o de que a tonalidade seja a mais suave possível a fim de que predomine o tom azul no verde resultante, esforçando-se o médium para que o seu amarelo seja o mais pálido possível, evitando influenciar o azul espiritual que está sendo pingado no seu frasco anímico amarelo. O bom médium é aquele que reduz ao mínimo possível a interferência da sua personalidade, das suas paixões e das suas imperfeições para não 'sujar' a mesclagem, mas mesmo nas comunicações filtradas através das mais límpidas mediunidades. Vamos encontrar um levíssimo tom de verde no azul predominante. Para nos certificarmos disto basta comparar mensagens dos mesmos espíritos recebidos por médiuns diferentes. Ainda que interessados na forma e na maneira correta de expressar o pensamento, os espíritos ficam mais atentos ao conteúdo da mensagem do que, propriamente, à sua expressão gramatical. Isso não quer dizer que não recomendem o estudo, o cultivo da mente do médium; pelo contrário, é o que pedem com insistência. No entanto, um espírito como o dr. Bezerra de Menezes, por exemplo, tanto pode perfeitamente transmitir seu pensamento, em toda a sua pureza, pelo médium modestíssimo de um grupo roceiro, como através dos intermediários mais sofisticados e cultos dos grandes centros, desde que as condições de dedicação, boa vontade e fidelidade sejam atendidas.
6. MECANIZAÇÃO DA MEDIUNIDADE
Dizíamos há pouco que a comunicação mediúnica só se torna possível quando o espírito se utiliza de um companheiro encarnado. Examinemos isto de outro ângulo.
Não duvido de que seja possível, um dia, talvez não muito distante, inventar aparelhos eletrônicos capazes de participar do processo da comunicação espírita. Aliás, ao escrevermos este livro (1984) temos notícias de esforços bem-sucedidos nesse sentido. O que, afinal, não representa surpresa totalmente imprevista, quando nos lembramos de que as manifestações inteligentes, em meados do século dezenove, ocorreram atravé, de toscos objetos inertes, como as mesas (girantes) e, posteriormente, com cestinha de vime e, ainda hoje, a prancheta conhecida mundialmente pele nome de ouija, bem como o copinho emborcado sobre uma superfície plana e outros dispositivos semelhantes. A idéia não é nova. Em meu livro O que é o fenômeno mediúnico, especulo acerca da verdadeira natureza do misterioso instrumento bíblico conhecido pelo nome de URIM, que, a me ver, era uma prancheta para trabalhos mediúnicos.
Em todos esses casos, porém, continuo entendendo ser indispensável a presença de alguém dotado de certas faculdades especiais que supra os recursos magnéticos de que necessita o espírito manifestante para movimentar a mesa, a prancheta, a cestinha de vime ou o copinho. É de supor-se que o mesmo recurso seja necessário para movimentar a aparelhagem eletrônica, que continuará sendo apenas um instrumento destinado a facilitar a comunicação entre as duas faces da realidade, ainda que mais sofisticado e, talvez, mais eficiente. A cestinha utilizada por Allan Kardec e através da qual os espíritos produziram a síntese monumental de O Livro dos Espíritos só se movimentava quando, as meninas-médiuns tocavam-na com a ponta de seus dedos.
As mesas girantes batiam o pé, marcando as letras pelo seu número de ordem no alfabeto enquanto um grupo de pessoas reunidas à sua volta criava condições necessárias para isso, fornecendo o que, à época, costumava-se chamar de fluídos.
7. SPIRICOM
Com relação ao problema do intercâmbio com os seres desencarnados por processos eletrônicos, recomendo ao leitor o excelente livro Hernani Guimarães Andrade, Morte, Renascimento e Evolução, em especial o capítulo IX - O Spiricom.
Ao especular sobre as energias ainda desconhecidas da ciência terrena, que os espíritos estão empregando nesse projeto, escreve Hernani: "Não sabemos como produzi-las à vontade e muito menos controlá-las. Na comunicação por meio do Spiricom, há estrita necessidade de agente humano, capaz de doar parte das referidas energias, a fim de propiciar a desejada interação entre o espírito e a matéria que ele deve acionar - neste caso, produzir ondas sonoras semelhantes à sua voz, lançando mão dos auditons". (Andrade. Hernani G., 1983).
Isto quer dizer que a sofisticada parafernália eletrônica não conseeguiu eliminar a participação do médium, aqui caracterizado como "agente humano capaz de doar parte das ( ... ) energias" necessárias à produção do fenômeno, tal como nos assegura a codificação e segundo observamos na prática.
E já que estamos com o livro do dr. Hernani em mãos, aproveitemos a oportunidade para outra interessantíssima observação e, de novo, nos reportemos à codificação, quando nos ensina insistentemente que a linguagem do espírito é o pensamento.
Atenção para o que diz o dr. Swann, sábio desencarnado que dirige uma equipe de técnicos empenhados no projeto Spiricom .
"Nós deixamos para trás, diríamos, em níveis mais baixos, muito do uso da chamada voz... Nosso trabalho é feito principalmente de energias do pensamento ou da mente.
Chamá-la-emos pensamento porque isto é como vós a entendeis. Mas deixe-nos dizer que essas são energias da mente dirigidas em um certo foco ou um cena padrão".
(Idem) Tal como na mediunidade, o problema continua sendo, portanto, o de converter energias mentais (pensamento) em palavras faladas, no caso do Spiricom, ou faladas e escritas, quando a comunicação é dirigida através do médium.
Isso tudo quer dizer uma só coisa - que o espírito desencarnado precisa de certa quota de magnetismo ou energia vital do ser encarnado para manifestar-se, movimentando objetos ou instrumentos a isso destinados.
Nem sempre a pessoa que fornece tais recursos magnéticos tem consciência da sua participação no fenômeno, como costuma ocorrer nos casos de poltergeist, na maioria dos quais somente se identifica com precisão o doador de fluidos quando, afastada determinada pessoa, os fenômenos cessam como por encanto e, às vezes, acompanham a pessoa por onde ela for. (Ver, a respeito, um dos antológicos estudos de Ernesto Bozzano, que me veio às mãos em tradução francesa sob o título de Phénomènes de Hantise.)
Nas experiências ditas de 'voz direta', muito estudadas e praticadas na Inglaterra, até hoje, a voz somente é direta no sentido de que o espírito manifestante não se utiliza do aparelho fonador do médium, indo direto à trombeta que lhe serve de amplificador, mas é igualmente certo que, não estando presente a pessoa dotada das faculdades adequadas, o fenômeno não ocorre. Situação semelhante verificou-se com as inúmeras experiências de escrita direta do barão de Guldenstubbé, narradas em seu notável livro 'De la realité des esprits'.
8. UMA CONCEITUAÇÃO MAIS PRECISA PARA O MÉDIUM
No famoso banquete de Baltasar, narrado na Bíblia, o espírito que produziu, na parede, as três palavras fatais que anunciavam o fim do poderoso monarca, dispunha, no momento, de fluidos à vontade para escrevê-las diretamente, já que o salão estava cheio de convivas que, inconscientemente, forneceram-lhe os recursos magnéticos suficientes.
De minha parte, tenho certa relutância em classificar essas pessoas como médiuns, no sentido específico da palavra. É que a manifestação não ocorre através delas, como na psicofonia, onde atuando sobre os controles mentais do médium, o espírito parece falar pela boca do médium, ou na psicografia, ao escrever por suas mãos. No caso do poltergeist, da escrita ou voz direta, ou até mesmo da vidência, o sensitivo não é um intermediário do fenômeno e sim, uma pessoa que se limita a suprir recursos magnéticos para que ele se realize, ou seja, para que o espírito consiga movimentar os instrumentos de comunicação colocados à sua disposição.
Retomemos por um momento a imagem da mistura de tintas. Suponhamos que a única cor visível aos olhos humanos fosse a verde, mas espírito somente tem consigo a azul.
Ele precisa de um pouco de amarelo para produzir certa manifestação visível aos seres encarnados. Isso não quer dizer que, ao tomar um pouco de amarelo para elaborar o verde que necessita, ele esteja convertendo a pessoa encarnada, dona do amarelo, em seu médium.
Já com a psicofonia e a psicografia, não. A pessoa é, de fato, a intermediária, ao colocar seu corpo físico à disposição da entidade para esta se utilize da instrumentação própria e necessária ao processo é de fazer entender pelos demais encarnados. Eu não poderia escrever este livro à máquina, se não dispusesse de uma. Nem poderei escrever a lápis, se não tomar de um, segurá-lo devidamente entre os dedos e fazê-lo deslizar sobre o papel com a pressão e os movimentos adequados à produção gráfica das palavras com as quais desejo 'vestir' o meu pensamento. Nesse sentido, a máquina e o lápis são intermediários (médiuns) entre meu pensamento e o leitor, numa comunicação (anímica) produzida pelo meu espírito encarnado. Quando, porém, o espírito desencarnado deseja fazer o mesmo, ou seja, transmitir a alguém na carne o seu pensamento traduzido em palavras (faladas ou escritas), ele precisa não apenas de lápis e papel ou de um microfone para gravar o que pretende dizer, mas de uma pessoa encarnada que tenha condições de acionar os instrumentos normalmente utilizados para essas tarefas que estão fora do seu alcance e controle.