XIII
Por tudo isso - e espero que me tenha expressado com a necessária clareza -, fenômeno mediúnico, mesmo no seu mais aproximado grau de pureza possível, somente os de psicofonia e psicografia, nos quais o sensitivo é de fato um intermediário através do qual a entidade desencarnada se manifesta. Poderíamos admitir ainda nesta categoria os de vidência e audiência, sob condições que discutiremos daqui a pouco. Quanto aos demais, o envolvimento do sensitivo no fenômeno não caracteriza a intermediação, dado que não é através dele que a entidade se comunica. Ele apenas presencia ou testemunha o fato ou, quando muito, participa dele, mas o fenômeno em si poderá até ocorrer sem o sensitivo ou à revelia dele. Por conveniência didática, diz-se que este médium é de efeitos físicos, aquele é vidente, o outro é psicógrafo. Na realidade, médium mesmo, no verdadeiro sentido da conceituação proposta por Kardec é aquele que serve de intermediário e não o que apenas entrega sua quota de magnetismo ou ectoplasma para que o fenômeno se produza ou que a ele assista como espectador, ainda que privilegiado. Vejamos, por exemplo, o caso da materialização, nos quais os seres desencarnados adquirem consistência suficiente para serem vistos e até apalpados. Espíritos especializados no assunto retiram dos presentes, e de outras fontes de energia, recursos suficientes para que a materialização se produza. O espírito manifestante como que aprisiona, temporariamente, nas malhas do campo magnético de seu próprio perispírito as substâncias assim recolhidas e consegue adensar-se suficientemente para se tornar visível. Qual será, contudo, o grau de participação e envolvimento do sensitivo em tais fenômenos? Em experiências controladas por cientista idôneos, verificou-se que o ser materializado tinha aproximadamente o peso que faltava ao sensitivo presente. Numa de tais experiências, madame d' Espérance ficou com metade de seu corpo desmaterializado, na presença de Alexandre Aksakof e outros. Ao cabo de algum tempo, seus fluidos lhe foram devolvidos e ela recompôs seu corpo físico que 'sumira' da cintura para baixo. Não estamos, com isto, questionando a classificação proposta em O Livro dos Médiuns. Há médiuns facultativos, involuntários, impressionáveis, audientes, falantes, videntes, sonambúlicos, curadores, pneumatógrafos, mecânicos, intuitivos, semi- mecânicos, inspirados, de pressentimentos, bem como tipólogos, motores, de translação, de efeitos musicais, de aparições, de transporte, proféticos, pintores, novatos, improdutivos, lacônicos, explícitos e tudo o mais que ali se encontra devidamente estudado. Todo esse desdobramento minucioso e competente tem por finalidade colocar, num quadro tão abrangente quanto possível, os diferentes tipos de manifestação e as peculiaridades e características de cada sensitivo. As duas grandes categorias básicas, contudo (ver item número 187 de O livro dos médiuns), são a de médiuns de efeites físicos e médiuns de efeitos intelectuais. Se prestarmos suficiente atenção ao que escreveu Kardec poderemos perceber, com nitidez, a matização de sua conceituação acerca das duas categorias. Diz ele que médiuns de efeitos físicos são "os que têm poder de provocar efeitos materiais, ou manifestações ostensivas", ao passo que os médiuns de efeitos intelectuais, são "os que são mais aptos a receber e transmitir comunicações inteligentes". Nesta segunda categoria, o sensitivo é, de fato, um intermediário, dado que recebe, processa e transmite uma idéia, um pensamento, uma impressão visual, auditiva ou intuitiva. No outro caso, não, ele apenas provoca efeitos materiais, emprestando um pouco de suas energias para que os próprios espíritos produzam as manifestações desejadas. Não há dificuldade em demonstrar essa realidade, ou seja, a de que no fenômeno intelectual o espírito do médium participa e, por conseguinte, pode interferir com intensidade maior ou menor, ao passo que, no fenômeno físico, seu poder de controlar ou influir é praticamente nulo. Se um espírito turbulento, desejoso de produzir uma manifestação de poltergeist, faz despencar uma panela da prateleira da cozinha ou um copo de cima de uma mesa, o sensitivo não poderá obrigar a panela ou o copo cair suavemente, sem estrondo ou fratura. O espírito pode fazê-lo. Se provoca incêndio em peças de vestuário ou em móveis, não consegue fazer com que o fogo queime menos, mesmo porque, muitas vezes, a pessoa encarnada que provoca tais incidentes e acidentes não tem a mínima consciência de seu envolvimento no fenômeno. O verbo provocar tem muitos sentidos; o caso sob exame, porém, é o de número 4 do Aurélio, ou se tornar fácil, promover, facilitar. Na língua original em que escreveu Kardec encontramos 'provoquer', no Larousse, como produzir, ocasionar, favorecer, ficamos com este último sentido. Tanto é esse o pensamento de Kardec que ele escreve mais adiante: Sob a denominação de médiuns de efeitos intelectuais abrangemos os que podem, mais particularmente, servir de intermediários para as comunicações regulares e integrais. (Kardec. Allan. 1975.) Ou seja: intermediário mesmo - e, portanto, médium -, no exato e amplo sentido do termo, é aquele que recebe e transmite comunicações inteligentes e não o que apenas provoca manifestações ostensivas. Não que a palavra seja inadequada, mas não deve ser tomada, em ambas as categorias, pelo seu valor absoluto, quando o próprio Codificador a desejou matizada. Por outro lado, Kardec ensina também que as diferentes espécies de manifestações estão numa ou noutra das duas categorias, mas que algumas delas "participam de ambas", ou seja, têm um componente físico e um efeito intelectual. Para ser mais específico: Se analisarmos os diferentes fenômenos produzidos sob a influência mediúnica, veremos que, em todos, há um efeito físico e que aos efeitos físicos se vê ali quase sempre um efeito inteligente, (Idem) É certo isso também. Ao efeito físico, no qual o espírito induz o médium a tomar do lápis e escrever sobre o papel, está aliado o efeito inntelectual fixado no texto escrito. O efeito físico resultante das vibrações sonoras da voz no médium psicofônico é condição indispensável para que o conteúdo intelectual da comunicação oral se produza. A recíproca também é verdadeira, ou seja, a queda de uma panela da prateleira da cozinha só pode resultar de uma causa inteligente que a deslocou deliberadamente, uma vez que ela estava em posição de estabilidade que não lhe permitiria cair por si mesma. Da mesma forma, a materialização de um espírito é fenômeno físico que demonstra trabalho intelectual preparatório e operativo. Acho, portanto, que as duas mediunidades básicas e típicas são as de psicografia e psicofonia, mas o quadro aceita ainda, como já vimos, as de vidência e audiência, dado que o médium vê ou ouve uma realidade (imagem ou som), interpreta-a e a transmite, com participação direta no processo de comunicação do fenômeno, situado como verdadeiro intermediário dele. Daí a sua responsabilidade e a necessidade de um bom preparo para que seja apenas o instrumento através do qual a comunicação flui e não o seu editor ou copidesque, credenciado para suprimir certas expressões ou trechos e modificar ou acrescentar outros por sua própria conta. 9. LIBERDADE CONTROLADA A questão é delicada e, por isso, tão complexo o fenômeno da mediunidade, de vez que, simultaneamente com o propósito de deixar fluir em toda a sua pureza a mensagem mediúnica (vocal, escrita, visual ou auditiva), o médium precisa precaver-se para que o espírito manifestante também se mantenha dentro de um comportamento razoável, sustentando-se entre ambos uma atitude de mútuo respeito e colaboração. É, por certo, nesse sentido que Paulo recomendou, nas suas instruções aos coríntios sobre a mediunidade, que "o espírito do profeta (médium) está sujeito ao profeta". Ou seja, não deve o médium permitir que o manifestante faça e diga o que bem entenda, da mesma forma que deve abrir-lhe espaço para que diga ao que veio e expresse, responsavelmente e com autenticidade, o seu pensamento. Como, porém, obter esse equilíbrio ideal entre permitir a livre manifestação do espírito comunicante e, ao mesmo tempo, não permitir que ele abuse da sua liberdade de expressão? Boddington tem a respeito uma importante observação na obra Secrets of Mediumship: Recém-chegados ao mundo espiritual, a visão deles (espíritos) nem sempre está suficientemente preparada para discernir o corpo humano, mas são capazes de distinguir a luz da aura e aproximar-se dela. Percebem, a seguir, que quando se envolvem na aura do médium, seus pensamentos fluem ao longo dos seus respectivos canais e acabam expressando-se na palavra falada ou no gesto. através do médium. Mais tarde compreendem que o mecanismo do corpo do sensitivo também passa ao seu controle. Assim começa o conhecimento deles acerca da mediunidade. Os médiuns devem, portanto guardar-se contra todo e qualquer distúrbio emocional que os afete na vida diária, com maior vigor do que empregaria o mais positivo e frio racionalista que normalmente sopesa todas as situações com uma equilibrada capacidade de avaliação.(Boddington, Harn', 1949). Em Grilhões Partidos, capítulo 19, obra psicografada por Divaldo Franco, de autoria espiritual de Manoel Philomeno de Miranda, vem um exemplo desse contato inicial de um espírito com a mediunidade quando o autor descreve com realismo uma dramática cena de possessão, na qual o espírito se aproxima da jovem encarnada e nota que ela sente a sua presença.
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