O Lavrador Thomas Martin e Luís XVIII
Senhor, foi-me dito, uma vez cumprida minha missão junto a vós, que vos pedisse permissão para voltar à minha família; que não o recusaríeis e que nada me sucederia de mal. – Nada sofrereis. Dei ordens para que vos despachassem. O ministro vai providenciar jantar e leito, e papéis para que possais voltar amanhã. – Mas eu ficaria contente se voltasse a Charenton para me despedir e apanhar uma camisa que lá deixei. – Não vos causa desgosto ficar em Charenton? Estáveis bem lá? – Nenhum desgosto; e se não tivesse certeza de lá ter estado bem, não pediria para voltar. – Pois bem! já que o desejais, o ministro vos conduzirá de minha parte.” Voltei a encontrar o meu condutor, que me esperava, e fomos juntos à casa do ministro. Feito em Gallardon, em 9 de março de 1828. Assinado: Thomas Martin A conversa de Martin com o rei durou pelo menos 55 minutos. Se, depois de sua visita ao rei, Martin não mais viu seu desconhecido, as manifestações não deixaram de continuar sob outra forma; de médium vidente, tornou-se médium auditivo. Eis alguns fragmentos de cartas que ele escrevia ao antigo cura de Gallardon: 28 de janeiro de 1821 “Sr. cura, escrevo para vos dar conhecimento de uma coisa que me aconteceu. Terça-feira passada, 23 de janeiro, estando à charrua e sem ter visto ninguém, ouvi uma voz que me falou, dizendo: ‘Filho de Japhet! pára e presta atenção nas palavras que te são dirigidas.’ No mesmo instante os meus cavalos pararam, sem que eu nada tivesse dito, pois estava muito admirado. Eis o que me disseram: “Nesta grande região uma grande árvore será plantada e, na mesma cepa, será plantada outra que é inferior à primeira; a segunda árvore tem dois galhos, dos quais um se quebrou e logo depois secou por um vento furioso e esse vento não cessou de soprar. No lugar desse galho surgiu outro, novo, tenro, que o substituiu; mas esse vento, que é sempre agitado, elevar-se-á um dia com tais abalos que... e depois desta catástrofe espantosa, os povos estarão na última desolação. Ora, meu filho, para que esses dias sejam abreviados; invoca o céu para que o vento fatal, saindo do noroeste, seja barrado por barreiras poderosas, e que seus progressos nada tenham de repugnante. Estas coisas são obscuras para ti, mas outros as compreenderão facilmente.” “Eis, senhor, o que me aconteceu terça-feira, cerca de uma hora da tarde. Não compreendo nada disto. Vós me direis, se compreenderdes alguma coisa. A ninguém falei de tudo isto, nem mesmo à minha mulher, pois o mundo é mau. Eu estava resolvido a guardar tudo isto em silêncio, mas me decidi a vos escrever hoje, porque esta noite não pude dormir e tenho tido sempre estas palavras na memória; rogo que as guardeis em segredo, porque o mundo zombaria delas. Senhor, trataram-me de filho de Japhet. Não conheço ninguém em nossa família com este nome. Talvez se tenham enganado ou me tomaram por outro.” 8 de fevereiro de 1821 “Eu vos tinha proibido de falar do que vos contei; errei, porque isto não pode ficar oculto. Necessariamente é preciso que isto passe diante dos grandes e dos primeiros do Estado, para que se veja o perigo de que estão ameaçados, pois o vento de que vos falei antes vai provocar terríveis desastres, porque o vento sopra sempre em torno da árvore. Se não prestarem atenção a isto, em pouco esta estará derrubada. No mesmo momento outra árvore, com o que dela sai, experimentará a mesma sorte. Ontem a mesma voz me veio falar, e nada vi.” 21 de fevereiro de 1821 “Senhor, esta manhã tive um grande pavor. Eram nove horas. Ouvi um grande barulho junto a mim e nada vi, mas ouvi falar, depois que o ruído cessou, e me disseram: Por que tivestes medo? não temais; não venho fazer mal algum. Estais surpreendido de ouvir falar e nada ver; não vos admireis; é preciso que as coisas sejam descobertas; sirvo-me de vós para vos enviar, como sou enviado. Os filósofos, os incrédulos, os ímpios não crêem que suas manobras sejam vistas, mas é preciso que sejam confundidos... Ficai tranqüilo, continuai a ser o que tendes sido; vossos dias estão contados e não vos escapará um só. Proíbo que vos prosterneis diante de mim, porque sou apenas um servo como vós.” “Senhor, eis o que me foi dito; não sei qual a pessoa que me fala; tem a voz bastante forte e muito clara. Tive a idéia de falar, mas não ousei, pois não vejo ninguém.” Resta saber qual é a individualidade do Espírito que se manifestou. Era, realmente, o anjo Rafael? Há fortes razões para o duvidar e haveria muitas coisas a dizer contra tal opinião. Mas, em nossa opinião, esta é uma questão secundária. O fato capital é o da manifestação, da qual não se poderia duvidar, cujos incidentes têm sua razão de ser pelo resultado proposto, e hoje têm o seu lado instrutivo. Um fato que, sem dúvida, não terá escapado a ninguém, é o das palavras de Martin, a respeito de uma soma que lhe ofereceram: “Como a coisa não vem de mim, dizia ele, nada devo receber por isto.” Eis, pois, um simples camponês, médium inconsciente que, há cinqüenta anos, época na qual se estava longe de pensar no Espiritismo, tem, por si mesmo, a intuição dos deveres impostos pela mediunidade, da santidade deste mandato. Seu bom-senso, sua lealdade natural lhe fazem compreender que o que vem de uma fonte celeste, e não dele mesmo, não deve ser pago. Talvez se admirem das dificuldades que encontrou Martin para desempenhar a missão de que estava encarregado. Por que, dirão, os Espíritos não o fizeram chegar diretamente ao rei? Como vimos, essas dificuldades, essa lentidão tiveram sua utilidade. Era preciso que ele passasse por Charenton, onde sua razão foi submetida às investigações mais rigorosas da ciência oficial e pouco crédula, a fim de que fosse constatado que não era louco, nem exaltado. Como se viu, os Espíritos triunfaram dos obstáculos interpostos pelos homens, mas como estes têm o seu livre-arbítrio, não os podiam impedir de pôr entraves. Notemos, a propósito, que Martin não fez, a bem dizer, nenhum esforço para chegar ao rei. As circunstâncias a isso o conduziram, quase que à sua revelia, e sem que tivesse sido necessário insistir muito. Ora, essas circunstâncias evidentemente foram conduzidas pelos Espíritos, agindo sobre o pensamento dos encarnados, porque a missão de Martin era séria e devia realizar-se. Dá-se o mesmo em todos os casos análogos. Além da questão da prudência, é evidente que, sem as dificuldades que há de chegar a eles, os soberanos seriam assaltados por pretensos reveladores. Nestes últimos tempos, quanta gente se julgou chamada a semelhantes missões, que era apenas o resultado de obsessões, em que o seu orgulho era posto em jogo, mau grado seu, e não podia resultar senão em mistificações! A todos os que julgaram dever consultar-nos em semelhantes casos, sempre dissemos, demonstrando os sinais evidentes pelos quais se traem os Espíritos mentirosos: “Guardai-vos de qualquer manobra que, infalivelmente, vos levaria à confusão. Ficai certos de que se vossa missão for real, sereis postos em condições de realizá-la; que, num dado momento, se tiverdes de vos encontrar num certo lugar, a ele sereis conduzido, mau grado vosso, por circunstâncias que terão a aparência de ser um efeito do acaso. Além disso, assegurai-vos de que uma coisa, quando estiver nos desígnios de Deus, haverá de realizar-se, e que ele não subordina tal realização à boa ou à má vontade dos homens. Desconfiai das missões fixadas e pregadas por antecipação, porque não passam de excitantes para o orgulho; as missões se revelam por fatos. Desconfiai também das predições em dia e hora certos, porque os Espíritos sérios jamais agem assim.” Temos sido bastante felizes para deter algumas delas, a quem os acontecimentos puderam provar a prudência destes conselhos. Como se vê, há mais de uma similitude entre estes fatos e os de Joana d’Arc, não que haja qualquer comparação a estabelecer quanto à importância dos resultados realizados, mas quanto à causa do fenômeno, que é exatamente a mesma e, até certo ponto, quanto ao objetivo. Como Joana d’Arc, Martin foi advertido por um ser do mundo espiritual para ir falar ao rei para salvar a França de um perigo e, também como ela, não foi sem dificuldade que chegou até ele. Há, todavia, entre as duas manifestações, esta diferença: Joana d’Arc apenas ouvia as vozes que a aconselhavam, ao passo que Martin via constantemente o indivíduo que lhe falava, não em sonho ou em sono extático, mas sob a aparência de um ser vivo, como o seria um agênere. Mas de outro ponto de vista, os fatos acontecidos a Martin, embora menos retumbantes, nem por isso tiveram menor alcance, como prova da existência do mundo espiritual e de suas relações com o mundo corporal, e porque, sendo contemporâneos e de incontestável notoriedade, não podem ser postos no rol das histórias lendárias. Por sua repercussão, serviram de balizas ao Espiritismo, que devia, poucos anos depois, confirmar a sua possibilidade por uma explicação racional e, pela lei em virtude da qual se produzem, fazê-los passar do domínio do maravilhoso para o dos fenômenos naturais. Graças ao Espiritismo, não há uma só das fases apresentadas pelas revelações de Martin, das quais não se possa dar conta perfeitamente.
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Mês Dezembro
Ano 1866