Se, porém, entregar-se desregradamente ao trabalho mediúnico, especialmente na fase inicial de ajustamento de suas faculdades, por certo terá problemas de saúde física e mental, acarretados por excesso no esbanjamento de energias psíquicas.
É preciso, portanto, que haja uma disciplina, tempo e lugares certos para o trabalho mediúnico. Sintomas de exaustão devem ser prontamente detectados e combatidos com um período de repouso, mudança de rotina nos hábitos, umas férias e coisas dessa natureza. A mediunidade não é um estado patológico e não deve ser exercida à custa da aniquilação da saúde física do médium.
A mediunidade é, por certo, um privilégio, no sentido de que constitui importante concessão ao espírito encarnado que deseja acelerar seu processo evolutivo, servindo ao semelhante, mas não coroa e cetro a conferir poder sobre os demais, halo de santidade para ser admirado ou virtude pessoal para ser louvada - é apenas uma faculdade natural para ser utilizada como instrumento de trabalho. Por que iria o telefone sentir-se orgulhoso apenas por transmitir a voz humana por seu intermédio?
Se assim fosse, a televisão teria direito a uma parcela maior de vaidade, porque, além da voz, transmite também imagem, cor e movimento ...
Não é, também, um bem que se possa adquirir como mercadoria com embalagem vistosa, pronta para consumo. Não é sequer conseqüência natural de mais apurada sensibilidade, embora a sensibilidade seja um dos seus principais ingredientes. São muitos os que querem ser médiuns de qualquer maneira, mas não estão preparados para aceitar as renúncias e devotamentos que o desenvolvimento e a prática da mediunidade exigem de cada um. Daí muitas impaciências e até ressentimentos ou ciúmes. Por que fulana tem faculdades tão notáveis e eu não posso tê-las? Por que não posso psicografar mensagens como de beltrano? Ou curar males orgânicos como a sicrana? Será que vou ficar a vida inteira somente traçando rabiscos ilegíveis no papel?
Em verdade, se a faculdade não está programada para você, não adianta forçá-la.
Busque outra tarefa na qual você poderá sair-se até muito bem, como por exemplo a do passe magnético ou a do trabalho social. Ou, simplesmente, compareça à reunião mediúnica para dar a sua presença, sim, mas, acima de tudo, o seu amor. Os espíritos não criam a mediunidade para você, segundo suas aspirações e até ambições. Eles apenas se utilizam de recursos já existentes em você para realizarem tarefas comuns de serviço ao próximo. Se você não dispõe daquele mínimo necessário sobre o qual eles possam construir alguma coisa, desista da mediunidade desejada e dirija seu esforço e boa vontade para outra direção. Afinal de contas, a mediunidade é apenas um dos muitos caminhos para a evolução.
E aqui estamos de volta ao tema da humildade. É preciso ter humildade tanto para desenvolver faculdades latentes, mas óbvias, seguindo procedimentos adequados, quanto para aceitar a condição de que sua tarefa não é ali, mas sim alhures. Ou seja, você não está programado para ser médium ou se está, não para as modalidades que você gostaria de exercer. A regra aqui é fazer o que podemos e devemos e não o que desejamos. É bastante conhecido o drama íntimo de Ingres, pintor e desenhista francês que muito desejava tocar violino, no qual era apenas medíocre, em prejuízo da pintura, na qual era um gênio.
14. MEDIUNIDADE COMO TRABALHO DE EQUIPE
Uma questão a mais - dentre as inesgotáveis perguntas que podem ser, a cada momento, colocadas, sempre que estudamos a mediunidade em geral e, especificamente, as técnicas de treinamento e 'afinação' - é a seguinte: não é melhor praticá-la isoladamente?
A resposta é um claro e enfático não! É bem verdade que o silêncio e o recolhimento são considerados "essenciais para todas as comunicações sérias", conforme ensina são Luís, em mensagem sob o número XXIII, em O livro dos médiuns. Entenda-se, contudo, silêncio e recolhimento no grupo mediúnico, não na solidão. Aliás, na comunicação anterior, subscrita por Fénélon, consta a observação de que "os espíritos não podem ver com satisfação que se conservem no insulamento os médiuns". A faculdade de que dispõem não se destina a uso pessoal e exclusivo, mas para servir ao próximo. Exercendo tais faculdades em grupos bem harmonizados e atentos, terão sempre a oportunidade de debater com os demais companheiros de trabalho o teor das comunicações e até mesmo o comportamento mediúnico, em vez de correrem riscos de se exporem ao "domínio dos espíritos mentirosos que encantados ficam com o não sofrerem nenhuma fiscalização", conforme diz Fénélon.
Quanto à desejável seriedade dos trabalhos, São Luís é firme ao recomendar sejam convidados a "procurar outros lugares" aos que comparecem por mera curiosidade.
Pouco adiante, uma entidade que se assinou Jorge insiste na necessidade de examinar-se sempre com espírito crítico o teor das comunicações, dado que mesmo espíritos animados das melhores intenções estão sujeitos a erro.
"Se sois tão freqüentemente enganados" - adverte Massillon - "queixai-vos tão só de vós mesmos".
"Estai, pois em guarda e vigiai incessantemente à porta de vosso coração, como à das vossas reuniões" - observa são Vicente de Paulo, mais adiante - "para que o inimigo não a penetre".
Todas essas recomendações serão de mais segura aplicação quando as diferentes faculdades mediúnicas forem exercidas em um grupo regularmente constituído e que desempenhe suas tarefas com atenção e vigilância. O médium que a pratica isoladamente está exposto a hábeis e envolventes mistificadores. Muitas vezes, nem percebe que já se encontra fascinado por mentirosos que se fazem passar por figuras importantes, assumindo indevidamente nomes que merecem respeito e acatamento.
Um dos mais competentes conhecedores da mediunidade é o espírito que se identifica como Erasto e que, em mais de uma oportunidade, transmite suas judiciosas observações a Allan Kardec, que as incluiu em O livro dos médiuns.
Pela sua importância e objetividade, resolvemos transcrever toda a comunicação número XXVII, de sua autoria: Repeli, impiedosamente, todos esses espíritos que reclamam o exclusivismo de seus conselhos, pregando a divisão e o insulamento. São quase sempre espíritos vaidosos e medíocres, que procuram impor-se a homens fracos e crédulos, prodigalizando-lhes louvores exagerados, a fim de os fascinar e ter sob domínio. São geralmente espíritos famintos de poder que, déspotas públicos ou privados quando vivos, ainda se esforçam, depois de mortos, por ter vítimas para tiranizarem.
Em geral, desconfiai das comunicações que tragam caráter de misticismo e de singularidade ou que prescrevem cerimônias e atos extravagantes. Sempre haverá, nesses casos, motivo legítimo de suspeição.
Por outro lado, crede que, quando uma verdade tenha de ser revelada aos homens, ela é comunicada, por assim dizer, instantaneamente a todos os grupos sérios que disponham de médiuns sérios e não a tais ou quais, com exclusão de todos os outros.
Ninguém é perfeito médium se está obsediado, e há obsessão manifesta quando um médium só se mostra apto a receber as comunicações de determinado espírito, por maior que seja a altura em que este procure colocar-se.
Conseguintemente, todo médium, todo grupo que julguem ter o privilégio de comunicações que só eles podem receber e que, por outro lado, estejam adstritos a práticas que orçam pela superstição, indubitavelmente se acham sob o guame de uma das obsessões mais bem caracterizadas, sobretudo quando o espírito dominador se pavoneia com um nome que todos, espíritos e encarnados, devemos honrar e respeitar e não consentir seja profanado a qualquer propósito.
É incontestável que, submetendo ao cadinho da razão e da lógica todos os dados e todas as comunicações dos espíritos, fácil será descobrirem-se o absurdo e o erro.
Pode um médium ser fascinado, como pode um grupo ser mistificado. Mas a verificação severa dos outros grupos, o conhecimento adquirido e a alta autoridade moral dos diretores de grupos, as comunicações dos principais médiuns, com um cunho de lógica e de autenticidade dos melhores espíritos, farão justiça rapidamente a esses ditados mentirosos e astuciosos, emanados de uma turba de espíritos enganadores e malignos. (Kardec, Allan, 1975).
Aí está, pois, sem meias-palavras ou obscuridades, a verdade sobre os riscos que acarreta o exercício desordenado ou invigilante da mediunidade, por melhor que sejam as intenções de seus praticantes e participantes.
O médium que resolva, portanto, praticar suas faculdades no isolamento estará correndo sérios riscos de envolvimento indesejável com os mistificadores da invisibilidade. Os riscos não cessam, é claro, apenas porque ele se juntou a um grupo bem-intencionado, mesmo porque são muitos os que se deixam fascinar com impressionante facilidade por manifestações ou textos habilmente arranjados e atribuídos a nomes famosos e respeitáveis. O que protege médiuns e demais participantes desse tipo de envolvimento é a vigilância e a atenção com o teor, o significado e as implicações das manifestações.
15. RISCOS E DESVIOS
Equívocos lamentáveis resultam, com freqüência, de permitir a médiuns ainda não suficientemente preparados e seguros exercer suas faculdades somente porque produzem fenômenos insólitos e até espetaculares ou dizem coisas que impressionam os assistentes. Isto é particularmente sério e prejudicial quando os grupos entregam-se à perniciosa prática das sessões mediúnicas públicas.
Nesses casos, uma forma de mediunidade mais dramática ou teatral pode conduzir a desenganos imprevisíveis a partir do fascínio que começa a exercer não apenas sobre os assistentes maravilhados, mas sobre o próprio médium envaidecido e convicto de que é um excepcional sensitivo, dotado de poderosas mediunidades, praticamente infalível.