Vários atalhos - todos indesejáveis e funestos - partem desse núcleo de vaidades em jogo. Pode surgir dali um sistema de exploração comercial da mediunidade, por mais legítima e autêntica que seja, de início. Isso é de se esperar, especialmente quando a mediunidade é posta a serviço de interesses pessoais dos médiuns, dos dirigentes e do próprio público, na distribuição de 'consultas' sobre saúde, negócios, problemas de família, rivalidades e até sorte em jogos de azar.
Mil e um artifícios são inventados para justificar a cobrança dos 'serviços' sem que pareça ostensivamente estarem pondo em prática uma 'feira de milagres'. Pode ser sob forma de donativos 'espontâneos' ao grupo, ao médium ou aos dirigentes, ou presentes materiais, testemunhos de reconhecimento, traduzidos em alguma forma concreta, material, e outros artifícios sutis ou mesmo não tão sutis.
Mesmo que o grupo não enverede, porém, pela mercantilização aberta ou camuflada, muitas vezes permite, e até estimula, o endeusamento do médium, que assume a condição de verdadeiro e infalível guru, adota posturas teatrais e começa a vestir-se de maneira diferente, estapafúrdia, ornado de adereços, símbolos secretos e talismãs misteriosos.
Isso nada tem a ver com as práticas recomendadas pela doutrina espírita.
Trata-se de exercício inadequado da mediunidade. O espiritismo não se coloca como dono dos médiuns, nem das faculdades que lhes tocam. No contexto do movimento espírita, contudo, não se pode admitir que a mediunidade seja aviltada ou canalizada para promoção pessoal deste ou daquele médium, desta ou daquela instituição. Para que os resultados esperados da mediunidade sejam confiáveis, a doutrina espírita faz questão de manter elevado padrão de qualidade nas práticas mediúnicas.
É, portanto, fácil ao médium iniciante testar e conferir as condições de trabalho que lhe são oferecidas em qualquer grupamento que se diga espírita. Basta confrontar os procedimentos ali dotados com os que recomendam os livros básicos da doutrina. Daí a incansável insistência de todos os autores responsáveis no sentido de que, antes de entregar-se à prática mediúnica regular, deva o médium em treinamento dedicar-se a um criterioso e metódico estudo dos aspectos teóricos da mediunidade, expostos principalmente em O livro dos médiuns, manual indispensável na preparação de todo aquele que pretenda devotar-se com seriedade ao correto desenvolvimento e utilização de suas faculdades. Nada de açodamento ou afoiteza nessa hora em que são lançadas (ou não) as bases sobre as quais deverá (ou não) apoiar-se toda uma estrutura de conhecimento e de experiência sobre a qual as faculdades mediúnicas serão postas a trabalhar.
Para isso é preciso: 1) paciência para esperar o momento certo de entrar em ação; 2) serenidade para aceitar críticas e correções necessárias; 3) bom senso para rejeitar sugestões e 'palpites' de 'entendidos' que nada entendem; 4) cuidado com os que se deixam fascinar pelos fenômenos e acabam suscitando no médium uma falsa euforia que acaba por gerar nele uma autêntica vaidade; 5) humildade para aprender o que não sabe e corrigir desvios e equívocos; 6) vigilância para identificar possíveis envolvimentos, tanto da parte dos encarnados como dos desencarnados.
16. O MÉDIUM E A CRÍTICA
Tomemos para exame o aspecto particular da crítica. Nenhum trabalhador espírita responsável e razoavelmente conhecedor da doutrina, médium ou não, contestará a necessidade de crítica ao seu trabalho, seja em que setor estiver sua tarefa dentro do movimento espírita, seja qual for a posição que ocupe nesse contexto, lamentavelmente, muitos confundem a veemência de certas críticas com hostilidade ou agressão. O que importa é saber se a crítica é justa e bem formulada ou injusta. Se a reconhecemos como justa, por mais que doa e atrite com nossa vaidade, é preciso levá-la em conta, mesmo que estamos longe da infabilidade. Ninguém pode, se deseja êxito em sua tarefa, deixar de considerar a crítica justa, e até mesmo a injusta.
É indiscutível que a crítica é necessária ao aperfeiçoamento do nosso trabalho, das nossas faculdades e de nós mesmos como seres humanos, ainda que vaidade saia com algumas equimoses e arranhões.
O médium tem de contar com a crítica ao seu trabalho e deve mesmo desejá-la. Para isso precisa estar preparado, inclusive com boa margem de tolerância para absorver e eliminar alguns excessos porventura atirados contra ele ou contra suas faculdades. A ausência de crítica lhe será desastrosa, fatal para sua mediunidade e para a programação que, obviamente, ele tem a cumprir com o exercício de suas faculdades.
Isto assume incontestável relevo durante o período de treinamento, em que ele estuda não apenas a teoria da mediunidade nos livros indicados, mas também os mistérios, segredos e tendências de suas próprias faculdades, ao vivo, à medida que elas começam a emergir e, depois, a definir-se. Sua posição não é das mais fáceis, e daí tantas quedas e fracassos. Ao mesmo tempo em que ele é o agente do estudo, ou seja, a pessoa que estuda a teoria e a prática da mediunidade, ele é também objeto de estudo; é parte integrante do fenômeno, uma vez que tem que estar atento ao que se passa em seu íntimo, e como funcionam 'nele' - não apenas nos livros - os mecanismos das manifestações.
Daí ser tão importante fazê-lo em conjunto com outras pessoas responsáveis e suficientemente esclarecidas sobre os problemas suscitados, a fim de que possa contar com o apoio, a assistência e até depoimentos críticos; gente em estado de lucidez e vigília, enquanto ele está mediunizado, que deve ter, por isso, melhores condições de ajudá-lo a examinar os fenômenos. Esta é uma das muitas razões pelas quais não se recomenda o treinamento mediúnico solitário. O trabalho precisa ser feito em grupo para que, retornando à sua condição normal de vigília, possa o médium colher os depoimentos daqueles que presenciaram as manifestações e estejam dispostos a analisar com ele o ocorrido. Só assim poderão ser identificados e solucionados os problemas emergentes e corrigidas as práticas inadequadas.
O médium precisa, pois, estar convencido de que pode depositar confiança naqueles que o cercam, não apenas para entregar-se descontraidamente ao trabalho, como para debater seus resultados posteriormente, a fim de programar correções e ajustes que visem ao aperfeiçoamento de sua mediunidade.
Há, portanto, evidente e indiscutível necessidade de exame crítico de cada fase ou etapa nesse trajeto que costuma ser acidentado. É preciso, contudo, que a crítica não seja excessivamente rígida, contundente e agressiva, mesmo que justa, a fim de não inibir ou atemorizar o médium, que ainda não se encontra seguro do que faz e está ali precisamente para alcançar o mínimo das condições necessárias ao exercício de suas faculdades.
Ao contrário dos médiuns presunçosos, que se julgam "infalíveis e consideram inferior e errôneo tudo o que deles não provenha", e dos médiuns orgulhosos "que se envaidecem das comunicações" e acham que "nada mais têm que aprender no espiritismo", ou dos suscetíveis, que se magoam ante as críticas ou "zangam-se com a menor contradição", deve o médium levar em conta as críticas, mesmo que injustas, mas não se deixar abater, sufocar ou inibir ante uma apreciação mais vigorosa acerca do seu trabalho. Somente porque a crítica foi formulada não quer dizer que ela seja correta ou justa. Pode perfeitamente o crítico estar mal informado, não ter sequer as condições mínimas exigidas para fazê-la, ou estar a formulá-la apenas movido por sua vaidade pessoal, pelo ciúme ou por sua arbitrariedade de dirigente que não admite contestação e se julga conhecedor de todos os segredos e mistérios da mediunidade.
Críticas injustas e desastradas têm sido responsáveis pela irremediável aniquilação de promissoras mediunidades. Vimos, no caso particular de Regina, o estado de confusão e insegurança em que ela ficou devido a isso. Diziam-lhe, com severidade, que não podia sequer permitir que os espíritos manifestantes contestassem os argumentos do doutrinador ou expusessem suas próprias idéias. Quanto às páginas psicografadas, não deveria permitir que eles assinassem as comunicações com nomes conhecidos e respeitáveis. Estava, pois, sob suspeita de mistificação, neste caso; e de indisciplina mediúnica, no outro. Em ambos, ficou implícita a suspeita de que estava à mercê de espíritos desajustados, porque sua própria mediunidade era descontrolada. Na sua inexperiência, ela até chegava a admitir que alguma coisa deveria ser feita para corrigir aquilo que os dirigentes do grupo consideravam desvios tão graves. Mas como fazê-la?
Isto ninguém lhe dizia. Também não debatiam o assunto com ela; limitavam-se à crítica que nas circunstâncias assumia a condição de uma censura. Afinal de contas ela era veículo das manifestações e fenômenos, não a mente ou a vontade geradora deles.
No caso do soneto de Auta de Souza, por exemplo, era de admitir-se que o texto ficasse em observação ou, até mesmo, sob suspeita, por se tratar de médium que, embora com faculdades bem desenvolvidas, era naquele grupo uma iniciante. Não havia, contudo, uma boa e lógica razão para colocá-la sumariamente sob suspeita apenas porque tivera a 'infelicidade' de receber um soneto assinado por Auta de Souza ou uma comunicação subscrita pelo Dr. Bezerra de Menezes.
Os textos precisavam ser analisados com muito cuidado, atenção e severo espírito crítico. Tudo bem. A médium e sua produção psicográfica poderiam e deveriam ficar sob observação por algum tempo, durante o qual toda a sua produção mediúnica fosse examinada com rigor quanto aos aspectos formais e de conteúdo doutrinário e ético.