O que nos parece um obstáculo facilmente superável, uma vez que muitos espíritos dispõem de incalculáveis recursos próprios, representa na verdade situações incontornáveis. Mesmo em O livro dos espíritos, por exemplo, é comum os espíritos declararem que não têm como transmitir certas informações mais complexas, porque não dispõem de palavras adequadas. Não é que faltem a eles palavras, dado que pensam sem palavras, com idéias, imagens e conceitos complexos; eles apreendem e transmitem complexas noções em bloco, em síntese. No dizer de Boddington, um ser encarnado pode levar uma vida inteira a desdobrar uma só frase pejada de significado, conseqüências e implicações.
Não lhes falta, pois, a palavra e sim, a nós. Não encontram em nós ou, mais especificamente, no médium, as expressões necessárias, as noções mínimas que pudessem utilizar como material de construção das idéias que desejariam transmitir.
Em algumas oportunidades, eles declararam que nem eles conheciam suficientemente o problema; o comum, no entanto, é não encontrarem recursos nas estruturas de conhecimento dos médiuns postos a sua disposição.
Isto nos coloca no centro mesmo, no cerne, no fulcro de toda a problemática mediúnica: o pensamento.
Como lembra Boddington, a tarefa do médium é explorar o universo do pensamento. O médium precisa manter desobstruídos os canais psíquicos onde circulam suas idéias para que por esses mesmos canais e com esse mesmo material psíquico, utilizando-se de sua energia mediúnica, possam os espíritos igualmente fazer circular suas idéias.
Mediunidade é pois uma transfusão de pensamento, mesmo quando se trata de energia destinada à produção de efeitos físicos, de vez que é o pensamento e a vontade dos espíritos que as direcionam.
Por outro lado, o médium é um ser que franqueou o acesso da sua intimidade aos seres invisíveis desencarnados (e até encarnados, sob condições especiais). Se ele adota atitudes de descaso, indiferença e preguiça, estará chamando para sua convivência espíritos semelhantes. É como um aparelho receptor de rádio ou televisão: captam a estação na qual se acham sintonizados e não, as outras. Se a pessoa assediada por fenômenos insólitos deseja exercer a sério a mediunidade, precisa a ela dedicar-se com seriedade (Atenção: seriedade e não, fanatismo). Se deseja apenas uma distração para passar o tempo ou um instrumento para fascinar platéias maravilhadas, é melhor dedicar-se a outra atividade. Terá, por certo, menos problemas e assumirá responsabilidades menos graves.
Isto não quer dizer que a mediunidade seja uma carga pesada demais, diante da qual devamos ficar aterrados e esmagados pela preocupação. Nada disso! É preciso, porém, que o médium incipiente esteja convicto de que é exatamente isso que ele deseja. A mediunidade é instrumento de trabalho, não para uso e gozo pessoal, mas para servir. Se a pessoa não se sente preparada para isso, é melhor cuidar de outra atividade. Não se esqueça, contudo, de que não se pode simplesmente apertar um botão, torcer uma chave ou aplicar uma rolha às faculdades nascentes que estará tudo resolvido. Se são apenas sinais esparsos e ocasionais, como já vimos, tudo bem, não vale a pena nem é recomendável forçar o desenvolvimento de faculdades nas quais a pessoa não está sequer interessada senão para 'brilhar' ou brincar com fatos insólitos.
Se, porém, se trata de um conjunto de manifestações nítidas, insistentes, abundantes, então é preciso assumir com disposição as responsabilidades ali implícitas, entregar-se a umas tantas renúncias, aceitar certa disciplina mental e de comportamento e dedicar- se às tarefas que obviamente lhe estão destinadas em sua programação espiritual.
Em casos como esses, tudo indica que a mediunidade não é uma fantasia passageira, mas uma responsabilidade, um compromisso, uma tarefa a realizar. Longe de ser um ônus insuportável, é um privilégio concedido para servir ao próximo e, conseqüentemente, importante fator de aceleramento do nosso próprio ritmo evolutivo.
Temos tido freqüentes oportunidades de conversar com espíritos que, aqui entre os encarnados, foram médiuns. Estão sempre bem aqueles que exerceram suas tarefas com dedicação e boa vontade, ainda que com falhas, inevitáveis no contexto da imperfeição humana. Por contraste, temos recebido depoimentos dramáticos dos que rejeitaram suas faculdades e, portanto, as tarefas correspondentes ou delas se utilizaram para obter proveito pessoal ou, finalmente, não as levaram a sério como deviam. São inevitáveis as decepções em tais casos, desencanto dos mais amargos, porque não é com os outros, não podemos transferi-los a ninguém, dado que é de nossa inteira responsabilidade.
Não se trata, pois, de carga insuportável nem de tarefa irrealizável. Nossa programação espiritual antes de renascer é sempre compatibilizada com nossas possibilidades e limitações, nunca calculada para esmagar-nos. É, portanto, realizável.
Se exige dedicação, cultivo, sacrifício? Sim. E daí?
13. REFLEXÕES SOBRE A HUMILDADE
Muitas mediunidades promissoras naufragam logo de início, aos primeiros embates, por excesso de confiança ou temor exagerado, por desânimo ante as dificuldades iniciais, por falta de perseverança no treinamento ou por desinteresse em promover certas mudanças íntimas, renunciar a algumas comodidades e pequenos vícios de comportamento ou de imaginação. São muitos, ainda, os que julgam que basta sentar- se à mesa mediúnica para começar a produzir fenômenos notáveis, receber espíritos elevados, ter vidências espetaculares ou curar doenças irredutíveis.
Nada disso. A primeira atitude a adotar-se, seja ou não este conselho tido como 'pregação', é a de humildade. Não pense que sua mediunidade vai abalar o mundo ou servir de veículo a revelações sensacionais. É mais fácil perder-se uma oportunidade de exercício mediúnico razoável pela vaidade do que por qualquer outro obstáculo; e mais desastroso, porque, em vez de uma contribuição modesta, porém positiva, optamos pelo desacerto.
Por outro lado, raramente a mediunidade se define com nitidez, logo de início, por esta ou aquela faculdade e raríssimas vezes ocorre tranqüilamente, sem inquietações e perplexidades, às quais o médium, ainda despreparado, não sabe como esquivar-se ou controlar. Quase sempre, nessa fase inicial, os fenômenos são de variada natureza, como se houvesse um propósito deliberado em testar várias faculdades a fim de decidir qual delas é a melhor para aquele trabalhador específico.
Acresce, ainda, que mediunidade equilibrada e funcional resulta de esforço, cultivo, aprimoramento não apenas da faculdade em si, mas do caráter e comportamento da pessoa. Em outras palavras: é resultado de um trabalho consciente, às vezes longo, monótono, cansativo e sem o brilho a que muitos aspiram. Não é, também, para ser forçada.
A esse respeito, esclarece Kardec em O livro dos médiuns: A faculdade de ver os espíritos pode, sem dúvida, desenvolver-se mas é uma das que convém esperar o desenvolvimento natural, sem o provocar, em não se querendo ser joguete da própria imaginação, (Kardec, Allan, 1975).
A psicografia, ainda no dizer de Kardec é a "mais suscetível de desenvolver-se pelo exercício".
O codificador recomenda, pois, o "desenvolvimento natural" para várias faculdades.
Qualquer que seja, porém, o tipo de mediunidade em desenvolvimento, é preciso que o médium em formação promova um severo e honesto auto exame, a fim de identificar em que aspectos de comportamento precisa mudar e que eventuais virtudes ou qualidades pessoais devem e podem ser revigoradas. E para isso também uma boa dosagem, de humildade será de vital importância.
Essa é a orientação unânime de todos os autores confiáveis sobre o assunto.
Depois de sugerir exercícios respiratórios, Boddington recomenda que se abra espaço íntimo para considerar, com seriedade, o efeito das virtudes sobre si mesmo e, em conseqüência, sobre o mundo que nos cerca. É a velha tese de que, mudando o ser humano para melhor, também o mundo melhora.
Para o médium em formação, essa postura é da maior relevância. Ele está em treinamento para receber na sua intimidade a visita mais ou menos regular de seres desconhecidos. Não se deve esquecer de que sua sensibilidade atrai para o intercâmbio individualidades estranhas à sua. Esforçando-se por viver não um clima de santidade impossível, mas de honesto propósito de servir com o que tem de melhor em si, estará atraindo aqueles que têm afinidades com esses propósitos e não os que, ainda desarmonizados, só lhe poderão criar dificuldades adicionais.
"Meditação em torno de temas como amor, sabedoria e conhecimento" - escreve Boddington - "e sobre os métodos para consegui-los devem, portanto, acompanhar todo o trabalho de desenvolvimento da mediunidade".
Disciplina e dedicação, contudo, não justificam excessos nem os exigem.
O exercício da mediunidade desde o início acarreta certo desgaste energético que, embora nem sempre seja percebido pelo médium, é uma realidade que não pode ser impunemente ignorada. Tal exercício é, usualmente, à margem e em adição às atividades normais da vida, como trabalho profissional ou doméstico, por exemplo. É perfeitamente possível conjugar tais atividades de forma que a prática mediúnica seja, antes, um benefício também orgânico, além de espiritual, pois representa uma utilização ética de energias normalmente disponíveis no médium.
Tanto é assim que faculdades embotadas, rejeitadas ou ignoradas por médiuns em potencial causam distúrbios às vezes incontornáveis, porque as energias de que os sensitivos dispõem para essa finalidade não estão encontrando seu escoadouro natural no desempenho normal da tarefa. São inúmeros e freqüentes os casos de médiuns em potencial que, apenas iniciados no exercício controlado de suas faculdades, livram-se, como por encanto, de pressões íntimas, impaciências, irritações e desassossegos indefiníveis, além de assédios indesejáveis de desencarnados que ele não sabe como controlar ou neutralizar.