O ex-rabino aproximou-se com os discípulos, e ba teu-lhe carinhosamente no ombro: — Por aqui? — disse Paulo, com grande sorriso. Abraçaram-se alegremente. O pregador do Evange lho apresentou ao médico os novos companheiros, falan do-lhe dos objetivos de sua excursão por aquelas paragens. Lucas, a seu turno, explicou que, havia dois a nos, era encarregado dos serviços médicos, a bordo de grande embarcação ali ancorada, em trânsito para Samotrácia. Paulo recebeu a informação com profundo interesse. Muito impressionado com o encontro, deu-lhe a conhecer a revelação auditiva do roteiro, b em como a vidência da véspera. E convicto da assistência do Mestre naquele ins tante, falava com segurança: — Estou certo de que o Senhor nos envia os recur sos necessários na tua pessoa. Precisamos transportar -nos à Macedônia, mas estamos sem dinheiro. — Quanto a isso — respondeu Lucas, com fran queza —, não te preocupes. Se não tenho fortuna, tenho vencimentos. Seremos companheiros de viagem e tudo pagarei com muita satisfação. A palestra prosseguiu animada, relatando o antigo hóspede de Antioquia as suas conquistas para Jesus. Nas suas viagens, havia aproveitado todas as oportunidades em prol do Evangelho, transmitindo a quantos se lhe aproximavam os tesouros da Boa Nova. Quando con tou que estava só no mundo, com a partida da genitora para a esfera espi ritual, Paulo fez-lhe nova observação, acentuando: — Ora, Lucas, se te encontras sem compromissos imediatos, por que não te dedicas inteiramente aos tra balhos do Mestre Divino? A pergunta produziu certa emoção no médico, como se valesse por uma revelação. Passada a surpresa, Lucas acrescentou, um tanto indeciso: — Sim, mas há que considerar os deveres da pro fissão.. — Mas, quem foi Jesus senão o Divino Médico do mundo inteiro? Até agora tens curado corpos, que, de qualquer modo, cedo ou tarde hão de perec er. Tratar do espírito não seria um esforço mais justo? Com isso não quero dizer que se deva desprezar a medicina pro priamente do mundo; no entanto, essa tarefa ficaria para aqueles que ainda não possuem os valores espiri tuais que trazes contigo. Sempre acreditei que a medicina do corpo é um conjunto de experiências sagradas, de que o homem não poderá prescindir, até que se resolva a fazer a experiência divina e imutável, da cura espi ritual. Lucas meditou seriamente nessas palavras e re plicou: — Tens razão. — Queres cooperar conosco na evangelização da Macedônia? — interrogou o ex-rabino sentindo-se triunfante. Irei contigo — concluiu Lucas. Entre os quatro discípulos do Cristo houve enorme júbilo. No dia seguinte, a missão navegava para a Samotrácia. Lucas explicou-se como pôde, Solicitando ao comando a permissão de se afastar por um ano dos serviços a seu cargo. E porque apresentasse substituto, conseguiu com facilidade o seu intento. A bordo, como fazia em toda parte, Paulo aproveitou todos os ensej os para a pregação. As menores margens eram grandes temas evangélicos no seu raciocínio superior, O próprio comandante, romano de boa têmpera, abandonava -se prazerosamente ao gosto de ouvi -lo. Foi nessas viagens que Paulo de Tarso travou rela ções com grande círculo de simpatizantes do Evange lho, conquistando numerosos amigos, citados nas futuras epístolas. Desembarcados, os missionários, enriquecidos com a cooperação de Lucas, descansaram dois dias em Neápolis, dirigindo -se em seguida para Filipes. Quase às portas da cidade, Paulo sugeriu que Lucas e Timóteo se diri gissem, por outros caminhos, para Tessalônica, onde os quatro se reuniriam mais tarde. Com esse programa, nem uma aldeia ficaria esquecida e as sementes do Reino de Deus seriam espalhadas nos meios mais simples. A idéia foi aprovada com satisfação. Lucas não deixou de perguntar se Timóteo era cir cuncidado. Conhecia as tricas dos judeus e não desejava atritos nas suas tarefas iniciais. — Esse problema — esclareceu o Apóstolo dos gen tios — já foi necessariamente atendido. As duas hu milhações infligidas a um jovem confrade que levei a Jerusalém, não a conselho da sinagoga, mas a uma reunião da igreja, levaram -me a refletir na situação de Timóteo, que precisará, muitas vezes, dos favores dos isra elitas no curso das pregações. Até que Deus opere a circuncisão de tantos corações endurecidos, é indis pensável saibamos agir com prudência, sem atritos que nos inutilizem os esforços. Esclarecido o assunto, entraram na cidade onde o médico e o jovem de Listra descansariam um pouco, antes de tomarem o rumo de Tessalônica por estradas diferentes, de modo a multiplicar os frutos da missão. Hospedaram-se num albergue quase miserável que a população da cidade reservava aos estrangeiros. Depois de três noites a o relento, os amigos de Jesus dirigiram-se à casa de oração, que ficava à margem do rio Gangas. Filipes não possuía sinagoga e o santuário destinado às preces, embora tomasse o titulo de “casa”, não era mais que um recanto ameno da Natureza, rodeado de muros em ruínas. Ciente da situação religiosa da cidade, Paulo diri giu-se para lá com os companheiros. Muito surpreendi dos, entretanto, os missionários não encontraram senão senhoras e meninas em oração. O ex -rabino penetrou resolutamente no círculo feminin o e falou dos objetivos do Evangelho, como se estivesse diante de imenso público. As mulheres estavam magnetizadas por sua palavra ardorosa e sublime. Enxugavam discretamente as lágrimas que lhes afluiam ao rosto, ao receberem notícias do Mes tre, e uma delas, chamada Lídia, viúva digna e generosa, aproximou -se dos missionários e, confessando se convertida ao Salvador esperado, oferecia -lhes a própria casa para fundarem a nova igreja. Paulo de Tarso contemplou -a de olhos úmidos. Es cutando-lhe a voz desbordante de cristalina sinceridade, recordou que no Oriente, no dia inesquecível do Calvário, só as mulheres haviam acompanhado Jesus no doloroso transe, sendo as primeiras criaturas que o viram na gloriosa ressurreição; e eram ainda elas que, em doce reuniã o espiritual, vinham receber a palavra do Evangelho no Ocidente, pela primeira vez. Em silenciosa contemplação, o Apóstolo dos gentios fixou o grande número de meninas que se ajoelhavam à sombra carinhosa das árvores. Observando -lhes os trajes muito claros, teve a impressão de que via à sua frente um gracioso bando de pombas muito alvas, prestes a desferir o vôo glorioso dos ensinamentos do Cristo, pelos céus maravilhosos da Europa. Foi por isso que, contrariamente à expectativa dos companheiros, o enérgico pregador respondeu à Lídia em tom muito afável. — AceitamoS vossa hospedagem. Desde aquele minuto, travou -se entre Paulo de Tarso e sua carinhosa igreja de Filipes a mais formosa amizade. Lídia, cuja casa era muito abastada, em vista do movimento comerci al de púrpuras, acolheu os discípulos do Messias com júbilo indescritível. Enquanto isso, Lucas e Timóteo continuavam a viagem. Silas e o ex -doutor de Jerusalém consagravam-se ao serviço do Evangelho, entre os generosos filipenses. A cidade singularizava-se por seu espírito romano. Havia nas ruas vários templos dedicados aos deuses an tigos. E como apenas as mulheres procuravam o recinto da casa de orações, Paulo, com o desassombro que o caracterizava, deliberou fazer pregações do Evangelho na praça pública . Na mesma época, possuía Filipes uma pitonisa que se celebrizara nas redondezas. Como nas tradições de Delfos, suas palavras eram interpretadas como oráculo infalível. Tratava -se de uma rapariga cujos patrões pro curaram mercantilizar seus poderes psíquic os. A mediunidade era utilizada por Espíritos menos evoluídos, que se compraziam em dar palpites sobre motivos de ordem temporal. A situação era altamente rendosa para os que a exploravam descaridosamente. Aconteceu que a jovem estava presente à primeira pregação de Paulo, recebida pelo povo com êxito inexcedível. Terminado a exposição evangélica, os missionários observam a moça que, em grandes brados que impressionavam o público, se põe a exclamar: — Recebei os enviados do Deus Altíssimo!... Eles anunciam a salvação!... Paulo e Silas ficaram um tanto perplexos; entre tanto, nada replicaram, conservando o incidente no cora ção, em atitude discreta. No dia seguinte, porém, repetia-se o fato e, durante uma semana, os discípulos do Evangelho ouviram, após as pregações, a entidade que se assenhoreava da jovem, atirando-lhes elogios e títulos pomposos. O ex-rabino, no entanto, desde a primeira manifes tação procurara saber quem era a rapariga anônima e ficou conhecendo os antecedentes do caso. Estimulados pelo ganho fácil, os patrões haviam instalado um gabi nete onde a pitonisa atendia às consultas. Ela, por sua vez, de vítima ia passando a sócia da empresa, que pingues eram os rendimentos. Paulo, que nunca se con formou com a mercancia dos bens celestes, percebe u o mecanismo oculto dos acontecimentos e, senhor de todos os particulares do assunto, esperou que o visitante do invisível novamente aparecesse. Assim, terminada a pregação na praça, quando a jovem começou a gritar: “Recebei os mensageiros da redenção! Nã o são homens, são anjos do Altíssimo!...” — o convertido de Damasco desceu da tribuna a passos firmes e, aproximando-se da locutora dominada por estranha influência, íntimou a entidade manifestante, em tom imperativo: — Espírito perverso, não somos anjos , somos trabalhadores em luta com as próprias fraquezas, por amor ao Evangelho; em nome de Jesus -Cristo ordeno que te retires para sempre! Proibo -te, em nome do Senhor, esta beleceres confusão entre as criaturas, incentivando inte resses mesquinhos do mundo em detrimento dos sagrados interesses de Deus! Imediatamente, a pobre rapariga recobrou energias e libertou -se da atuação malfazeja. O fato provocou enorme admiração popular. O próprio Silas que, de algum modo, se comprazia em ouvir as afirmações da pitonisa, interpretando-as como um conforto espiritual, estava boquiaberto.