2ª Parte - Cap. 6: Peregrinações e sacrifícios
Em companhia de Silas, que se harmonizara com as suas aspirações de trabalho, o ex-rabino partiu de Autioquia, internando -se pelas montanhas e atingindo sua cidade natal, depois de enormes dificuldades. Breve, o companheiro indicado por Simão Pedro habituava -se com o seu método de trabalho. Silas era um tempera mento pacífico, que se enriquecia de notáveis qualidades espirituais, pelo seu devotamento integral ao Divino Mes tre. Paulo, por sua vez, estava plenamente satisfeito com a sua colaboração. Palmilhando longos e impérvios cami nhos, alimentavam-se parcamente, quase só de frutas silvestres eventualmente encontradas. O discípulo de Jerusalém, todavia, revelava alegria uniforme em todas as circunstâncias. Antes de atingir Tarso, pregaram a Boa Nova, no curso mesmo da viagem. Soldados romanos, escravos misérrimos, car avaneiros humildes, receberam de seus lábios as confortadoras notícias de Jesus. E não poucos escreveram, à pressa, uma que outra das anotações de Levi, preferindo as que mais se ajustavam ao seu caso particular. Por esse processo, o Evangelho difundia -se, cada vez mais, enchendo de esperanças os corações. Na cidade do seu berço, mais senhor das convicções próprias, o tecelão que se consagrara a Jesus espalhou a mancheias os júbilos do Evangelho da Redenção. Muitos admiraram o conterrâneo, cada vez mais sin gularmente transformado; outros prosseguiram na tarefa ingrata da ironia e do lamentável esquecimento de si mesmos. Paulo, no entanto, sentia -se forte na fé, como nunca. Defrontou a velha casa em que nascera, reviu o sítio ameno onde brincara os primeiros tempos da infância; contemplou o campo de esportes onde guiara sua biga romana; mas exumou as recordações sem lhes sofrer a influência depressiva, porque tudo entregava ao Cristo como patrimônio em cuja posse poderia entrar mais tarde, quando houvesse cum prido seu divino mandato. Depois de breve permanência na capital da Cilícia, Paulo e Silas procuraram alcançar os cumes do Tauro, empreendendo nova etapa da rude peregrinação em começo. Noites ao relento, sacrifícios numerosos, ameaças de malfeitores, per igos sem conta foram enfrentados pelos missionários que, todas as noites, entregavam ao Divino Mestre os resultados da recolta e, pela manhã, rogavam à sua misericórdia não lhes faltasse com a valiosa opor tunidade de trabalho, por mais dura que fosse a ta refa diária. Cheios dessa confiança ativa, chegaram a Derbe, onde o ex -rabino abraçou comovidamente os amigos que ali chegara a fazer, após a dolorosa convalescença, quando da primeira excursão. O Evangelho continuava, a estender seu raio de ação em todos os setores. Profundamente sensibilizado, o con vertido de Damasco, no desdobramento natural do serviço, começou a obter notícias da ação de Timóteo. O jovem filho de Eunice, pelo que lhe informavam, soubera enriquecer, de maneira prodigiosa, os conhecimen tos adquiridos. A pequena cristandade de Derbe já lhe devia grandes benefícios. Por mais de uma vez, o novo discípulo ali acorrera em missões ativas. Disseminava curas e con solações. Seu nome era abençoado de todos. Cheio de júbilo, após o término de suas tarefas naquela cidade pequenina, o ex-rabino demandou Listra, com ansiedade carinhosa. Lóide o recebeu, bem como a Suas, com a mesma satisfação da primeira vez. Todos queriam notícias de Barnabé, que Paulo não deixava de fornecer, solícito e prazenteiro. Na tarde desse dia, o convertido de Da masco abraçou Timóteo com imensa alegria a transbor dar-lhe da alma O rapaz chegava da faina diária junto dos rebanhos. Em breves minutos, Paulo conhecia a extensão dos seus progressos e conquistas espirituais. A com unidade de Listra estava rica de graças. O moço cristão conseguira a renovação de muita gente: dois judeus dos mais influentes na administração pública, destacados entre os que promoveram a lapidação do Apóstolo, eram agora seguidores fiéis da doutrina do Cristo. Cuidava-se da construção de uma igreja, onde os doentes fossem amparados e as crianças abandonadas encontrassem um ninho acolhedor. Paulo regozijou-se. Naquela mesma noite, houve em Listra grande as sembléia. O Apóstolo dos gentios encontrou uma at mosfera carinhosa, que lhe prodigalizava grande conforto. Expôs o objetivo de sua viagem, revelando suas preo cupações pela difusão do Evangelho e acrescentando o assunto pertinente à igreja de Jerusalém. Como em Derbe, todos os companheiros contribuíram com o possível. Paulo não cabia em si de contentamento, obser vando o triunfo tangível do esforço de Timóteo nas camadas populares. Aproveitando sua passagem por Listra, a bondosa Lóide confidenciou -lhe suas necessidades particulares. Ela e Eunice tinham parentes na Grécia, por parte do pai de seu neto, os quais lhes reclamavam a presença pessoal, a fim de que não lhes faltassem com os socorros afetuosos, Os recursos que lhes restavam, em Listra, estavam prestes a esgotar -se. Por outro lado, desejava que T imóteo se consagrasse ao serviço de Jesus, iluminando o coração e a inteligência. A generosa velhinha e a filha projetavam, então, a mudança definitiva e consultavam o Apóstolo sobre a possibilidade de aceitar a companhia do rapaz, pelo menos durante alg um tempo, não só para que ele adquirisse novos valores no terreno da prática, como também porque isso facilitaria a transferência de todos para lugar tão distante. Paulo acedeu de bom grado. Aceitaria a cooperação de Timóteo com sincero prazer. O rapaz, a seu turno, conhecendo a decisão, não sabia como traduzir seu profundo reconhecimento, com transportes de alegria. Nas vésperas da partida, Silas entrou prudentemente no assunto e perguntou ao Apóstolo se não era de bom alvitre operar a circuncisão do moço , a fim de que o judaísmo não perturbasse os labores apostólicos. Em socorro de sua argüição, invocava os obstáculos e lutas acerbas de Jerusalém. Paulo meditou bastante, recordou a necessidade de espalhar o Evangelho sem escândalo para ninguém, e concordo u com a medida aventada. Timóteo teria de pregar publicamente. Conviveria com os gentios, mas, maiormente, com os israelitas, senhores das sinagogas e de outros centros, onde a religião era ministrada ao povo. Era justo refletir na providência para que o m oço não fosse incomodado em sua com panhia. O filho de Eunice obedeceu sem hesitação. Daí a dias, despedindo -se dos irmãos e das generosas mulheres que ficavam a chorar nos votos de paz em Deus, os missionários demandaram Icônio, cheios de coragem in dômita e do firme propósito de servir a Jesus. No espírito amoroso de pregação e fraternidade, dilatando o poder do Evangelho redentor sobre as almas e jamais esquecendo o auxílio à igreja de Jerusalém, os discípulos visitaram todas as pequeninas aldeias da Ga lácia, demorando-se algum tempo em Antioquia de Pisí dia, onde trabalharam, de algum modo, para se manterem a si mesmos. Paulo estava satisfeitíssimo. Seus esforços, em com panhia de Barnabé, não haviam sido improfícuos. Nos lugares mais remotos, quando me nos esperava, eis que surgiam notícias das igrejas anteriormente fundadas. Eram benefícios a necessitados, melhoras ou curas de enfermos, consolações aos que se encontravam em ex tremo desespero. O Apóstolo experimentava o contentamento do semeador que de fronta as primeiras flores, como radiosas promessas do campo. Os emissários da Boa Nova atravessaram a Frígia e a Galácia sem perseguições de grande envergadura. O nome de Jesus era, agora, pronunciado com mais respeito. O ex-rabino continuava em franca a tividade para a difusão do Evangelho na Ásia, quando, uma noite, após as preces habituais, ouviu uma voz que lhe dizia com amoroso acento: — Paulo, sigamos adiante .... Levemos a luz do Céu a outras sombras; outros irmãos te esperam no caminho infinito!... Era Estevão, o amigo de todos os minutos, que, representando o Mestre Divino junto do Apóstolo dos gentios, o concitava à semeadura noutros rumos. O valoroso emissário das verdades eternas compre endeu que o Senhor lhe reservava novos campos a des bravar. No dia seguinte, informando Silas e Timóteo do sucedido, concluía inspirado: — Tenho, assim, que o Mestre me chama a novas tarefas. Ë justo. Aliás, reconheço que estas regiões já receberam a semente divina. E acentuava depois de uma pausa: — Desta vez, já não encontramos muitas dificulda des. Antes, com Barnabé, experimentamos as expulsões, o cárcere, os açoites, o apedrejamento... Agora, porém, nada disso aconteceu. Quer dizer que por aqui já existem bases seguras para a vitória do Cristo. É preciso, por tanto, caminhar para onde se encontrem os obstáculos e vencê -los, para que o Mestre seja conhecido e glorificado, pois nós estamos numa batalha e é necessário não desprezar as frentes. Os dois discípulos ouviram e procuraram meditar na grandeza de semelhantes conceitos. Decorrida uma semana, lá se foram a pé, procurando a Mísia. E contudo, intuitivamente, Paulo percebeu que não seria ainda ali o novo campo de operações. Pensou em se dirigir para a Bitínia, mas a voz que o gene roso Apóstolo interpretava com o sendo a do “Espírito de Jesus” (1), sugeriu -lhe a alteração do trajeto, indu zindo-o (1) Atos, capítulo 16º, versículo 7. — (Nota de Emmanuel) a descer para Trôade. Chegados ao ponto do destino, acolheram -se cansadíssimos, numa hospedaria modesta. E P aulo, numa visão significativa do espírito, viu um homem da Macedônia, que identificou pelo ves tuário característico, a acenar-lhe ansiosamente, exclamando: — “Vem e ajuda-nos!” O ex-doutor interpretou o fato como ordenação de Jesus, a respeito de seus novos encargos. Cientificou os companheiros logo pela manhã, não sem ponderar a extrema dificuldade da viagem por mar, baldo que estava de recursos. — Entretanto, concluía, creio que o Mestre lá nos facultará o necessário. Silas e Timóteo calaram -se respeitosoS. Saindo à rua cheia de sol, pela manhã, eis que o Apóstolo fixa o olhar numa casa de comércio e para lá se dirige com ansiosa alegria. Era Lucas que parecia fazer compras.
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Capítulo 6
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