2ª Parte - Cap. 6: Peregrinações e sacrifícios
Quando se viram a sós, quis lhe dissesse Paulo os motivos que o levaram a semelhante atitude, e pergun tou-lhe: — Acaso não falava ela do nome de Deus? Sua pro paganda não seria para nós valioso auxílio? O Apóstolo sorriu e sentenciou: — Porventura, Silas, poder -se-á na Terra julgar qualquer trabalho antes de concluído? Aquele Espírito poderia falar em Deus, mas não vinha de Deus. Que fizemos para receber elogios? Dia e noite, estamos lutando contra as imperfeições de nossa alma. Jesus man dou que ensulássemos, a fim de aprendermos duramente. Não ignoras como vivo em batalha com o espinho dos desejos inferiores. Então? Seria justo aceitarmos títulos imerecidos quando o Mestre rejeitou o qualificativo de “bom”? Claro que, se aquele Espírito viesse de Jesus, outras seriam suas palavras. Estimularia nosso esforço, compreendendo nossas fraquezas. Além do mais, procurei informar -me a respeito da jovem e sei que ela é hoje a chave de grande m ovimento comercial. Silas impressionou-se com os esclarecimentos mais que justos. Mas, dando a entender suas dificuldades para os compreender integralmente, acrescentou: — Todavia, será o incidente uma lição para não entretermos relações com o plano invisível? - Como pudeste chegar a semelhante conclusão? — respondeu o ex-rabino muito admirado. - O Cristianismo sem o profetismo seria um corpo sem alma. Se fecharmos a porta de comunicação com a esfera do Mestre, como receber seus ensinos? Os sacerdotes são homens, os templos são de pedra. Que seria de nossa tarefa sem as luzes do plano superior? Do solo brota muito alimento, mas, apenas para o corpo; para a nutri ção do espírito é necessário abrir as possibilidades de nossa alma para o Alto e con tar com o amparo divino. Nesse particular, toda a nossa atividade repousa nas dádivas recebidas. Já pensaste no Cristo sem ressurrei ção e sem intercâmbio com os discípulos? Ninguém poderá fechar as portas que nos comunicam com o Céu. O Cristo está vivo e nunca morrerá. Conviveu com os amigos, depois do Calvário, em Jerusalém e na Galiléia; trouxe uma chuva de luz e sabedoria aos cooperadores galileus, no PentecosteS; chamou -me às portas de Damas co; mandou um emissário para a libertação de Pedro, qu ando o generoso pescador chorava no cárcere... A voz de Paulo tinha acentos maravilhosos, nessas profundas evocações. Silas compreendeu e calou -se, de olhos rasos de pranto. O incidente, entretanto, teria mais vastas reper cussões, além daquelas que os Apóstolos do Mestre poderiam esperar. A pitonisa não mais recebeu a visita da entidade que distribuía palpites de toda sorte. Em vão, os consulentes viciados lhe bateram à porta. Ven do-se privados da renda fácil, os prejudicados fomentaram largo movimento d e revolta contra os missionários. Espalhava -se o boato de que Filipes, em virtude da audácia do pregador revolucionário, fora privada da assistência dos Espíritos de Deus. Os fanáticos exaltaram -se. Daí a três dias, Paulo e Silas foram surpreendidos, em p lena praça, com um ataque do povo e foram presos a troncos pesadíssimos e flagelados, sem compaixão. Sob os apupos da massa ignorante, submeteram -se, com humildade, ao suplício. Quando sangravam sob as varas impie dosas, houve a intervenção das autoridade s e foram então conduzidos ao cárcere, abatidos e cambaleantes. Dentro da noite escura e dolorosa, incapacitados de dormir, pelas dores crudelíssimas, os discípulos de Jesus vigiaram em preces ungidas de luminoso fervor. Lá fora, rugia a tempestade em trov ões terríveis e ventos sibilantes. Filipes inteira parecia abalada em seus alicerces pela tormenta fragorosa. Passava da meia-noite e os dois Apóstolos oravam em voz alta. Os prisioneiros vizinhos, vendo-os em oração, pareciam acompanhá -los, pela expressão do rosto. Paulo contemplou-os, através das grades, e, aproximando-se, a custo, começou a pregar o Reino de Deus. Ao comentar a tempestade imprevista que se abatera sobre o ânimo dos discípulos, enquanto Jesus dormia na barca, um fato maravilhoso feriu os olhos dos encarcerados. As portas pesadas das nume rosas celas se abriram sem ruído. Silas ficou lívido. Paulo compreendeu e saiu ao encontro dos companheiros. Con tinuou pregando as verdades eternas do Senhor, com entonação impressionante; e vendo umas dezenas de homens de peito hirsuto, barbas longas, fisionomias taciturnas, como se estivessem plenamente esquecidos do mundo, o Apóstolo dos gentios falou, com mais entusiasmo, da missão do Cristo e pediu que ninguém tentasse fugir. Os que se reconhecessem culpados agradecessem ao Pai os benefícios da corrigenda; os que se julgassem ino centes dessem expansão ao regozijo, porque só os martírios do justo podiam salvar o mundo. Esses argumentos de Paulo contiveram toda a estranha e reduzida assem bléia. Ninguém procurou alcançar a porta de saída, senão que, reunindo -se em torno daquele desconhecido, que tão bem sabia falar aos desgraçados, muitos se ajoelharam em pranto, convertendo -se ao Salvador que ele anunciava com bondade e energia. Ao alvorecer, amainada a tormenta, levanta-se o carcereiro, perturbado pelo vozerio singular. Vendo as portas abertas e temendo a sua responsabilidade, tenta matar -se, instintivamente. Mas Paulo avança e impos sibilita-lhe o gesto extremo, explicando -lhe a ocorrência. Todos o s encarcerados regressaram humildes ao seu cubículo. Lucano, o carcereiro, converte-se à nova doutrina. Antes que a claridade diurna invadisse a paisagem, ei-lo que traz aos Apóstolos os socorros de emergência, pensando lhes as feridas, sensibilizado como nunca. Residindo ali mesmo, conduz os discípulos ao interior domés tico, manda servir-lhes alimento e vinho reconfortante. Logo nas primeiras horas, os juizes filipenses são infor mados dos fatos. Cheios de temor, mandam libertar os pregadores; mas, Paul o, desejando oferecer garantias ao serviço cristão que se iniciava na igreja fundada em casa de Lídia, alega sua condição de cidadão roma no, a fim de infundir mais respeito aos magistrados de Filipes pelas idéias do profeta nazareno. Recusa a ordem de sol tura para exigir a presença dos juízes, que comparecem receosos. O Apóstolo anuncia -lhes o Reino de Deus e, exibindo seus títulos, obriga-os a escutar suas dissertações relativamente a Jesus. Fê los sabedores dos trabalhos evangélicos que alvoreciam na cid ade, com a cooperação de Lídia e comentou o direito dos cristãos em toda parte. Os magistrados apresentaram -lhe desculpas, garantiram a manutenção da paz para a igreja nascente, e, alegando a extensão de suas responsabilida des perante o povo, rogaram a P aulo e Silas que deixas sem a cidade, para evitar novos tumultos. O ex-rabino sentiu-se satisfeito e, voltando à resi dência da generosa purpureira, em companhia de Silas que lhe reconhecia a fortaleza, sem dissimular o grande espanto, ali demorou alguns d ias traçando o programa dos trabalhos da nova sementeira de Jesus. Em seguida, rumou para Tessalônica, escalando em todos os recantos onde houvesse sítios ou aldeias à espera de notícias do Salvador. Nesse novo centro de lutas, reencontraram Lucas e Timóte o que os aguardavam ansiosos. Os trabalhos seguiram ativíssimos. Em toda parte, os mesmos choques. Judeus preconceituosos, homens de má -fé, ingratos e indiferentes, conluiavam-se contra o ex-doutor de Jerusalém e seus devotados companheiros. Paulo mantinha-se forte e superior nas mínimas refregas. Sobrevinham dissabores, angústias na praça pública, acusações injustas, calúnias cruéis; poderosas ameaças caiam às vezes, inesperadamente, sobre o de sinteresse divino de suas obras; mas o valoroso discípulo do Senhor prosseguia sempre, sereno e firme através das tormentas, vivendo estritamente do seu trabalho e compelindo os amigos a fazerem o mesmo. Era indis pensável que Jesus triunfasse nos corações, esse o seu programa primordial. Desatendia a qualquer capricho, sobrepunha essa realidade a quaisquer conveniências e a missão continuava entre dores e obstáculos formidan dos, mas, segura e vitoriosa em sua divina finalidade. Depois de incontáveis atritos, com os judeus, em Tessalônica, o ex -rabino resolveu transferir-se para Beréia. Novos labores, novas dedicações e novos martírios. Os trabalhos missionários, iniciados sempre em paz, con tinuavam debaixo de lutas extremas. Os judeus rigorosos, de Tessalônica, não faltaram em Beréia. A cidade movimentou-se contra os discípulos do Evangelho, os ânimos exaltaram -se. Lucas, Timóteo e Silas foram obrigados a afastar -se, perambulando pelas aldeias circunvizinhas. Paulo foi preso e açoitado. A custa de grandes sacrifícios dos simpatizantes de Jesus, deram -lhe liberdade, com a condição de retirar -Se dentro do menor prazo possível. O ex-rabino acedeu prontamente. Sabia que atrás de si e através de esforços insanos, sempre ficaria uma igreja doméstica, que se alargaria ao infinito, bafejada pela misericórdia do Mestre, a fi m de proclamar a exce lência da Boa Nova. Era noite, quando os irmãos de ideal conseguiram trazê -lo do cárcere para a via pública. O Apóstolo dos gentios procurou informar -se sobre os companheiros e soube das vicissitudes que os assoberbavam. Lembrou que S ilas e Lucas estavam doentes, que Timóteo neces sitava encontrar-se com a sua mãe no porto de Corinto. Era melhor proporcionar aos amigos uma trégua no vórtice das atividades renovadoras. Não seria justo re quisitar-lhes a cooperação, quando ele próprio experimentava a necessidade de repouso. Os irmãos de Beréia insistiam pela sua partida. Era uma temeridade provocar novos atritos. Foi aí que Paulo deliberou pôr em prática um velho plano. Visitaria Atenas. satisfazendo um velho ideal. Muitas vezes, im pressionado com a cultura helênica recebida em Tarso, alimentara o desejo de conhecer-lhe os monumentos glo riosos, os templos soberbos, o espírito sábio e livre.
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Capítulo 6
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